
Leia as duas primeiras partes dessa reportagem:
A chegada de Ruben Malikovski ao Brasil
A participação em ações do movimento tupamaro até prisão em Montevidéu
Antes de cruzar as muralhas do Penal de Libertad, de onde só sairia 13 anos depois, Ruben Malikovski passou por diversos quartéis, onde ocorriam os violentos interrogatórios dos capturados. Em depoimento publicado pela revista Istoé em 1985, Ruben narrou longas sessões nas quais passou por choques elétricos.
Em uma ocasião, a picana (aparelho que emitia os choques) foi aplicada em seus testículos, ao mesmo tempo em que tinha a cabeça mergulhada em uma tina d’água. Em um quartel em Tacuarembó, disse ter ficado três meses fechado em um calabouço, algemado. Em outro, teria sido obrigado a carregar pedras de um lado a outro por dias.
– Chega um momento em que quase se enlouquece de raiva – contou, na entrevista.
A crueldade teve efeito: Ruben confessou todas as suas ações e confirmou o envolvimento de outros integrantes.

Em Libertad, Ruben foi identificado com número 1.012. O regime era rígido: havia apenas uma hora de recreio, os contatos eram restritos e vigiados e não era permitido a mais de dois andarem juntos. Os castigos eram comuns.

“Cidadão uruguaio”
Em 30 de outubro de 1984, uma mensagem do Consulado-Geral do Brasil em Montevidéu chegou via Telex ao Ministério das Relações Exteriores, em Brasília. Era uma resposta a um pedido de assistência a Ruben que, conforme revelado havia dias pelos jornais, estava preso no país.
A mensagem, assinada pelo cônsul Edmundo Radwanski e obtida por meio da Lei de Acesso à Informação, dizia que Ruben era “cidadão uruguaio natural da sétima seção do Departamento de Artigas” e que, por isso, era impossível prestar-lhe assistência.
A dúvida sobre a nacionalidade de Ruben pautou o país por várias semanas, já que ele possuía um registro civil uruguaio, obtido em 1971. O impasse só foi dissolvido quando Jair Krischke, presidente do MJDH, apresentou um certificado de que ele havia cumprido serviço militar em Santa Cruz do Sul em 1958.
– Nunca me ocorreu pensar que ele era brasileiro. A forma como ele falava era típica da região de Bella Unión – observa Raul Alfaro, ex-integrante de uma organização anarquista, que conheceu Ruben em Libertad.

Desde que recebera a toalha com o nome de Ruben bordado – e que está guardada até hoje no acervo do MJDH –, Krischke mantinha-se em linha com organizações do Uruguai para articular a libertação.
– Eu sempre tive contato com os tupamaros, mas eles nunca haviam me falado sobre o Ruben, por isso resolvi agir por outra via. Me comuniquei com um grupo de freis católicos que visitavam presos para que checassem se, de fato, havia um homem com esse nome lá. Assim que conseguimos confirmar, começamos a campanha – conta Krischke.

A notícia de que Ruben estava vivo e encarcerado teve um efeito avassalador na vida dos familiares. Marlene havia se mudado para o Paraná, assim como os filhos, Glaci e José Milton, então com 26 e 23 anos. Marlene vivia com outro homem, com quem passou mais de 30 anos e teve outros dois filhos.
– Alguém bateu na porta e pediu para falar comigo. Era um homem que pediu que eu sentasse e perguntou: “Sabia que teu pai está vivo e está por ser libertado da prisão?” –conta José Milton, que, até então, sequer havia visto alguma fotografia do pai.
Em novembro, auxiliados pelo MJDH, José Milton e Glaci viajaram de ônibus a Montevidéu e visitaram o pai. Nas primeiras visitas que recebeu em 13 anos, Ruben descobriu que já era avô de quatro netos.

Os últimos anos
Ruben deixou a cadeia em março de 1985, a partir de um acordo que anistiou centenas de presos políticos, no embalo da retomada democrática. Os anos que lhe restavam seriam marcados por instabilidade e uma custosa readaptação. Após algumas semanas, foi para o Paraná, onde ensaiou uma aproximação com os filhos, mas os traumas do passado falaram mais alto.
– Quando ele dormia, falava e gritava. Acho que sonhava com a tortura. Tinha fobia de andar na rua e vivia nervoso e ansioso – relata Glaci.
Cerca de um mês depois, voltou ao Rio Grande do Sul, onde viveu por um tempo em Santa Cruz com uma irmã, Nilsa. Quando faleceu, após um mal súbito na manhã de 15 de novembro de 1989, estava vivendo em Viamão.
Era um domingo de eleição e ele se preparava para votar pela primeira vez para presidente de seu país.

