
Uma médica que atuava em um posto da Estratégia de Saúde da Família (ESF), em Santa Cruz do Sul, no Vale do Rio Pardo, registrou boletim de ocorrência na Polícia Civil e fez exame de corpo de delito após ser agredida em março. O episódio compõe o cenário de agravamento da violência contra profissionais da área da saúde, que coloca entidades em alerta.
A profissional, que terá a identidade preservada por razão de segurança, atendia um paciente no consultório quando começou a querela na recepção. Uma voz masculina anunciava, em tom elevado, que somente deixaria o local quando conseguisse o que buscava.
O paciente era um homem cadeirante que periodicamente frequentava a unidade de saúde para receber assistência. Era conhecido da equipe. Naquele dia, ele afirmou à técnica de enfermagem da recepção que precisava de um laudo para trocar seu instrumento de locomoção. A servidora respondeu que aquele turno era exclusivo para o acolhimento de pacientes com queixas sem gravidade, como dores de garganta ou indisposição. O homem foi orientado a agendar consulta para alguns dias adiante, mas rejeitou a hipótese. Ficou à espreita, próximo do consultório, e adentrou sem ser chamado quando a médica deixou a porta aberta após encerrar o último atendimento.
O relato da ocorrência é de que o cadeirante exigiu o laudo. Inconformado com a reiteração de que deveria agendar consulta, pegou a cadeira destinada ao paciente e a arremessou contra a médica, sentada do outro lado da mesa. O objeto ainda resvalou na tela do computador antes de atingir a mão da profissional, que ergueu o braço para defender o rosto.
Levantei e tentei fugir do consultório. Ele botou a cadeira de rodas na frente e não me deixou passar. Me agarrou pelo braço e gritou: ‘Tu vais me atender!’ Tive de pedir socorro. Vieram colegas, me desvencilhei e disse que ligaria para a polícia.
MÉDICA
Agredida durante expediente em Santa Cruz do Sul
Quando ela retornou, soube que o homem havia ido embora por uma porta lateral, berrando supostas ameaças de que voltaria. Uma dor aguda na mão acometeu a médica depois de a adrenalina baixar, mas o pior ainda estava por vir. Ficou afastada do trabalho no ESF por 15 dias, período em que o caso ganhou alguma repercussão nas redes sociais.
— O que agravou foi a reação de parte da população. Li absurdos. Pessoas dizendo que “se apanhou é porque mereceu”. Fiquei muito mal — conta.
Nos primeiros dias, ela teve insônia e crises de choro. Perdeu plantões no seu outro emprego, em uma emergência, por falta de condições psicológicas. Depois, quando retornou, tinha taquicardia a caminho do local.
A população está com raiva da classe. Parte da culpa é nossa. Existem médicos que não atendem bem. Só que as pessoas nos culpabilizam por coisas que não são da nossa alçada. E, se a gente diz que não é assim, viramos a pior pessoa do mundo. Somos tratados que nem lixo.
MÉDICA
Ela diz que a categoria se tornou a “vilã da história”, mesmo quando as falhas são do sistema de saúde. E destaca ter descoberto, após o episódio, que o laudo desejado pelo paciente sequer era competência da sua unidade.
— É complicado trabalhar coagido, com medo de agressão. Todo mundo deveria ter segurança — lamenta a médica.
Incompreensão sobre o processo de triagem para atendimento
Especialistas no setor da saúde afirmam que, em combinação com as carências do sistema, existem propulsores de violência em pronto atendimentos e emergências. Um deles é o paciente com sintomas leves que procura assistência nessas unidades de urgência. O acolhimento não é realizado por ordem de chegada nem por idade, mas de acordo com a classificação de risco prevista no Protocolo de Manchester. São cinco categorias: da azul, não urgente, até a vermelha, cujo risco de morte é iminente. Esse processo também é conhecido como triagem. Os pacientes costumam ganhar uma pulseira com a classificação. A consequência é que enfermos de marcação amarela, laranja e vermelha vão passando à frente conforme chegam ao balcão, com preferência no atendimento, por serem casos de gravidade. O azul e o verde, pouco urgentes, ficam para o final da fila e a espera se prolonga. Em alguns casos, o paciente ou um familiar explodem.
— Isso não é bem entendido. A classificação de risco baixo deveria estar na Unidade Básica de Saúde. Isso superlota a emergência e gera atrito pela demora — diz Eduardo Neubarth Trindade, vice-presidente do Conselho Regional de Medicina do Rio Grande do Sul (Cremers).
Outro vetor de agressão é relatado por Jesse James Selistre, gerente-geral da UPA Moacyr Scliar, na zona norte de Porto Alegre. Essa unidade atua na modalidade “porta aberta” e recebe todo tipo de paciente.
— As pessoas mais explosivas são as que precisam de atestado médico para justificar a ausência no trabalho. Pelo quadro clínico pouco urgente, recebem classificação verde. Os pacientes graves passam à frente e o verde fica inflamado, tenta ter atendimento mais rápido na pressão — descreve o gerente-geral.
Profissionais de saúde relatam que uma intimidação recorrente é a de pacientes e familiares que, inconformados, vociferam supostos vínculos com alguma facção criminosa. Outra queixa é contra parlamentares, sobretudo vereadores, que invadem espaços restritos e fazem lives atribuindo aos profissionais a culpa pela precariedade.
— É uma forma adicional de violência que serve ao proselitismo político — diz Marcelo Matias, presidente do Sindicato Médico do Rio Grande do Sul (Simers).
“Não se pode tolerar violência”
Embora reconheçam a possibilidade de uma parcela minoritária de médicos e enfermeiros serem negligentes, líderes das categorias apelam para que os pacientes que se sentirem prejudicados façam denúncias aos canais das instituições ou dos conselhos.
Dirigentes alertam que a violência “não pode ser tolerada” e ponderam que algumas das reclamações mais comuns contra os profissionais são as de que estão mexendo no computador “sem atender” ou “parados” tomando café.
— Temos de confirmar se o médico atendeu mal. Se confirmar, cabe denúncia. O que não pode é o profissional tomar um café no seu intervalo de 10 minutos e ser agredido. Na verdade, com as superlotações e equipes reduzidas, o médico está atendendo muito mais do que deveria — afirma Trindade.
O gerente-geral Jesse James argumenta que, na rotina da UPA Moacyr Scliar, teclar no computador é parte do trabalho. É preciso registrar diariamente informações no sistema do SUS: isso é decisivo para que pacientes temporários da UPA consigam transferência para leitos hospitalares.
Além dos afastamentos por licença-saúde, integrantes das categorias afirmam que o ambiente tenso e de agressões causa desmotivação e menor interesse pelas vagas de emprego em emergências. O resultado, alertam, é a possível carência de profissionais e o atendimento menos humanizado.
Soluções
Conselhos e sindicatos profissionais mencionam iniciativas que poderiam amainar a tensão nos ambientes de saúde.
- Reduzir as superlotações.
- Ampliar equipes de saúde.
- Disponibilizar mais leitos.
- Diminuir as filas por exames e consultas com especialistas.
- Ambientes seguros para os profissionais, com rotas de fuga em consultórios e vigilância permanente.
- Informar a população sobre o equipamento de saúde adequado para cada necessidade. Casos leves e preventivos têm indicação de busca por UBS ou ESF. Situações de urgência e emergência têm prioridade nas UPAs e emergências.
- O Simers apoia um projeto de lei aprovado na Câmara, em maio, para ampliar as penas contra pessoas que agredirem profissionais de saúde no exercício da função. A pauta será analisada no Senado.
Coragem

A profissional Claudia Stein, integrante da direção do Sindicato dos Enfermeiros do Rio Grande do Sul (Sergs), já passou por diversos episódios de agressão. Em um deles, em novembro de 2015, familiares de um paciente empurraram sua cabeça contra uma porta no Hospital Nossa Senhora da Conceição, em Porto Alegre. Dados do Coren-RS evidenciam que a enfermagem é predominantemente feminina: 87% das profissionais são mulheres no Estado. É um adicional de violação no cotidiano.
A gente sofre muita violência sexual, direta e disfarçada. Coisas como apalpar o seio e a bunda. É muito degradante.
CLAUDIA STEIN
Enfermeira
Atualmente, ela é enfermeira da UPA Moacyr Scliar. Existem 17 leitos de observação no local, mas, em tempos de crise, a média tem oscilado entre 45 e 70 pacientes baixados improvisadamente, além da capacidade oficial, informa o gerente-geral Jesse James. Sem espaço, enfermos são instalados, enquanto aguardam um leito na UPA ou em hospital, nos corredores e até em longarinas, estrutura metálica e plástica que agrega três cadeiras.
— Os xingamentos são frequentes. Deixamos de ser as heroínas da covid para sermos as vilãs por não termos onde acomodar as pessoas — conta Claudia.

Não bastasse a rotina, ela carrega traumas da pandemia, quando, além do falecimento de pacientes, perdeu colegas de profissão.
Quando vejo 27 pacientes no corredor, onde não deveria ter nenhum, dá um medo, mas a enfermagem é uma profissão de muita coragem. A gente levanta a cabeça e vai.
CLAUDIA STEIN



