
Havia um burburinho diferente na Rodoviária de Porto Alegre no fim da manhã de 14 de março de 1985. Em meio ao vaivém regular de viajantes e trabalhadores em uma quinta-feira, algumas dezenas de pessoas e um número considerável de jornalistas aguardavam a chegada de um ônibus que vinha de Montevidéu. Por volta das 11h30min, o coletivo da empresa TTL encostou na plataforma. A porta se abriu e, sob uma tempestade de flashes, Ruben Malikovski desembarcou.
Dentre os que receberam com abraços emocionados aquele homem alto, de terno claro e óculos escuros, que aparentava bem mais do que os 49 anos de idade, estavam dois filhos dele, Glaci e José Milton. Além de quatro netos, que ele não conhecia. Na verdade, pouco mais de meio ano havia passado desde que os familiares de Ruben haviam tomado conhecimento de seu paradeiro.
Nos primeiros dias de setembro de 1984, descobriu-se que ele estava havia 13 anos encarcerado, cumprindo uma pena de 20 anos imposta pela justiça militar do Uruguai, sob uma penca de acusações que incluíam associações subversivas, atentado contra a Constituição, encobrimento de roubo, incêndio e depósito de substâncias explosivas.

Nascido em uma família de agricultores do interior de Venâncio Aires, Ruben tornara-se um guerrilheiro, enfileirado junto a um dos agrupamentos políticos mais emblemáticos do século 20 na América Latina: o Movimiento de Liberácion Nacional (MLN), conhecido como Tupamaros.
Toalha de banho revelou a prisão

Ruben estava preso desde 29 de setembro de 1972. Mas a primeira informação sobre sua situação só veio a público no Brasil em 8 de setembro de 1984, por meio do jornal A Plateia, de Santana do Livramento. A edição daquele sábado noticiava a chegada à cidade de um homem em circunstâncias estranhas.
Este homem era Antonio Pires da Silva Junior, fotógrafo de São Francisco de Assis, que cinco meses antes havia sido preso no Uruguai sob suspeita de vinculação com o Partido Comunista e levado ao Penal de Libertad, que abrigava os presos políticos.
As acusações frágeis, porém, levaram o Movimento de Justiça e Direitos Humanos (MJDH), com sede em Porto Alegre, a pressionar por sua libertação. Uma vez solto, foi levado por militares até Rivera e deixado a alguns passos da fronteira seca com Livramento.

No relato ao jornal local, contou que havia conhecido, em Libertad, outro brasileiro, cuja situação era desconhecida do governo brasileiro, da sociedade civil e da família. Como prova, apresentou uma toalha de banho rosada – a toalha que Ruben usava na cadeia.
– De início eu estranhei. Mas quando ele mostrou a toalha com o nome do Ruben bordado, vi que era real – relata o presidente do MJDH, Jair Krischke.

Ruptura familiar levou Ruben ao Uruguai
O estopim do percurso que converteu Ruben, um simples morador do interior gaúcho, em guerrilheiro caçado por militares em um país estrangeiro, foi uma ruptura familiar. Em junho de 1961, aos 25 anos, com problemas financeiros e em meio a uma crise no casamento, ele abandonou a esposa Marlene e os dois filhos pequenos em Santa Cruz do Sul, sem dizer para onde iria.
Dias depois, chegou a Bella Unión, um polo açucareiro no extremo norte uruguaio, separada do Rio Grande do Sul pelo Rio Quaraí, onde havia passado parte da infância e adolescência com os pais e os oito irmãos.

Era justamente em junho que os grandes engenhos de açúcar empregavam milhares de pessoas para a colheita. Em pouco tempo, ele conseguiu uma vaga de tratorista. Ocorre que a vida desses trabalhadores sazonais estava longe de ser fácil. Praticamente sem mecanização, o processo nos canaviais era manual e desgastante.
Chegavam antes de amanhecer em pleno inverno e enfrentavam jornadas estafantes.
– Um companheiro costumava dizer que não se trabalhava de sol a sol, mas de estrela a estrela, porque se começava de madrugada e ia até à noite. As condições eram muito duras – narra o ex-tupamaro Nicolás Esteves, o Colacho, que conviveu com Ruben na região.

A precarização, somada à debacle econômica que atingira o país na década anterior, faria brotar na região um movimento organizado de reivindicação por melhorias, com a criação de um sindicato – a Unión de Trabajadores Azucareros de Artigas (UTAA) – e a realização de grandes greves e marchas.
Logo, a conflagração se espalhou por todo o país, com conflitos trabalhistas em série e confrontos com a polícia, o que levou setores da esquerda ao entendimento de que, para promover mudanças estruturais, seria legítimo ir além da atuação sindical – inclusive por meio de ações ilegais.
Assim nascia o MLN-Tupamaros, do qual Ruben, recrutado por Colacho, fez parte desde a origem.
– Me veio a certeza de que só com medidas ilegais, mesmo que me custassem caro, conseguiríamos resolver o problema de emprego – relatou Ruben em maio de 1985.

