
Mais de um ano após a pior tragédia climática do Rio Grande do Sul, uma das principais rodovias do Estado ainda tem cicatrizes da enxurrada. Dois pontos da BR-386 seguem em recuperação, e o andamento de outras obras de melhoria foi prejudicado pela inundação, como o alargamento da rodovia entre Estrela e Lajeado e a duplicação até o município de Marques de Souza. Como resultado, a via apresenta longos trechos delimitados por cones que exigem atenção redobrada dos motoristas e, em determinados horários, reduzem a velocidade média de carros e caminhões.
Entidades e moradores se mobilizam em favor da construção de uma nova travessia sobre o Rio Taquari, para que a região reduza a dependência da ponte da BR também conhecida como Estrada da Produção.
A BR-386 soma 445 quilômetros entre Canoas, na Região Metropolitana, e Iraí, na divisa com Santa Catarina — dos quais 266 quilômetros estão concedidos à empresa CCR Viasul. É a principal conexão entre o norte do Estado e a Grande Porto Alegre e, conforme a Federação das Empresas de Transporte e Logística do Rio Grande do Sul (Fetransul), serve como corredor para até 70% da riqueza produzida pelos gaúchos.
A cheia do ano passado causou algum tipo de dano em uma centena de pontos desse eixo estratégico. Os dois locais ainda em obras (veja mapa com os pontos abaixo), em Pouso Novo e São José do Herval, já permitem a passagem de veículos, mas com hastes refletivas separando as faixas de forma provisória. Em Pouso Novo, a largura da pista foi levemente encurtada para acomodar os homens e máquinas trabalhando à margem do asfalto. Os serviços envolvem a implantação de cortinas de concreto para evitar novos deslizamentos e reforço na base da pista, parcialmente desmanchada pelo aguaceiro de 2024.
As cheias de 2023 e do ano passado também prejudicaram o andamento de outras obras, como a implantação de terceiras faixas entre Estrela e Lajeado e a duplicação entre Lajeado e Marques de Souza.
Em Lajeado, a construção de um viaduto na área urbana precisou ser recomeçada e segue em andamento. Neste ponto, o trânsito nas duas faixas da BR é desviado para uma via marginal com uma pista apenas, o que favorece congestionamentos principalmente entre 7h e 8h e no final da tarde.
O prolongamento do serviço atinge motoristas como Wallison Storch, 26 anos, que trabalha de frente para o futuro viaduto em uma loja de peças de veículos.
— Em determinados horários, dá uma baita tranqueira. Atrapalha bastante quem precisa usar a rodovia todos os dias, como eu. Além disso, como trabalhamos com autopeças ao lado da BR, acaba prejudicando os negócios também — afirma Storch.
A previsão inicial para a conclusão da duplicação deste trecho da BR-386 era 2023, o que resulta em dois anos de espera além do programado. Além das enchentes, o ritmo das intervenções foi prejudicado pela troca da empresa que realizava o serviço e por períodos de mau tempo. Prossegue também o trabalho de ampliação da via em locais como as pontes sobre o Taquari, entre Estrela e Lajeado, e sobre o Arroio Boa Vista, em Estrela. A presença de sinalização sobre a pista, além da movimentação de operários e equipamento pesado, também atrapalha a circulação de cargas.
— O transportador que se desloca de Lajeado para Estrela, ou no sentido contrário, leva em alguns casos mais de uma hora e meia para rodar um trecho que não passa de 10 quilômetros. Esse tipo de situação, nessa ou em qualquer outra parte do Estado, encarece e traz prejuízos à mobilidade de mercadorias — sustenta o superintendente institucional do Sindicato das Empresas de Transportes de Carga e Logística do Rio Grande do Sul (Setcergs), Eduardo Richter.
Presidente do Setcergs, Delmar Albarelo, afirma que o término da duplicação trará um grande impulso ao Estado:
— A duplicação é extremamente necessária porque vai melhorar a mobilidade de mercadorias, facilitar o trânsito das pessoas e beneficiar toda a economia.
Deverão ser duplicados 165 quilômetros entre Lajeado e Carazinho até 2030, conforme previsto em projeto.
Mobilização por nova ponte
Entidades como a Federação de Entidades Empresariais do Rio Grande do Sul (Federasul), a Associação Comercial e Industrial de Lajeado (Acil) e políticos locais vêm articulando um movimento em favor da construção de uma nova travessia sobre o Rio Taquari para servir como alternativa à atual ponte localizada no eixo da BR-386. A ideia é que a nova passagem, em local a ser definido, seja mais alta em relação ao rio do que a atualmente existente, que acabou engolida pela cheia do Taquari no ano passado, exigindo obras de reforço de estrutura, já concluídas.
— Uma proposta seria implantar um anel viário que fosse uma rota alternativa, já que hoje não temos outras passagens nas imediações. Mas há outras ideias defendidas por diferentes grupos, como uma ponte entre um bairro de Lajeado e o aeródromo de Estrela. Seriam obras encaminhadas via Funrigs (Fundo do Plano Rio Grande), mas os projetos ainda precisam ser detalhados. Por enquanto, são intenções — esclarece o vice-presidente regional da Federasul no Vale do Taquari, Ivandro Rosa.
Presidente da Acil, Joni Zagonel, afirma que as articulações também incluem prefeitos da região. Zagonel avalia que o fato de a rodovia estar concedida à iniciativa privada vem facilitando as obras de recuperação e melhorias, apesar dos atrasos:
— Se não fosse isso, estaríamos ainda mais atrasados. Já estamos em uma situação bem mais próxima do normal, embora em alguns trechos tenhamos desvios.
O que diz a concessionária CCR Viasul
Em decorrência da enchente histórica, foi necessária uma mobilização em caráter emergencial das equipes, de forma a promover o restabelecimento do fluxo em toda a rodovia. Tivemos mais de 100 pontos críticos dos quais seguimos atuando em apenas dois, mas que não causam interferência no tráfego. Um no km 288 em São José do Herval e outro no km 308 em Pouso Novo, ambos na BR-386. Esses locais devem ter as atividades concluídas nos próximos meses. No início deste ano, liberamos totalmente o tráfego na região do km 297, também em Pouso Novo, após a conclusão das atividades de recuperação do trecho e que operava em pare-e-siga.
No dia 14 de abril realizamos a liberação total da pista Norte na ponte sobre o Rio Taquari, que também passava por obras de recuperação por conta da catástrofe climática (...). As enchentes interferiram também no cronograma de obras, mas seguimos com os prazos informados anteriormente nessa região."
Em relação à nova travessia, não há previsão contratual de construção. Também, tais solicitações foram feitas pela comunidade e aguardamos as avaliações feitas pelo órgão regulador, a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT).
Obras em andamento
Recuperação de danos da enchente
De cerca de cem "pontos críticos" para o trânsito provocados pela cheia de abril e maio de 2024, dois seguem em trabalhos de recuperação nos municípios de Pouso Novo e São José do Herval. A previsão da concessionária é de que o serviço esteja concluído "nos próximos meses".
Implantação de faixas adicionais
Ampliação da rodovia, com implantação de faixa adicional em cada sentido de tráfego, entre Lajeado e Estrela. Conforme a concessionária, a expectativa é de término das obras durante o mês de agosto deste ano. O trabalho se estende por 5,1 quilômetros, entre o km 346 e o km 351.
Duplicação Marques de Souza-Lajeado
Ampliação da capacidade da rodovia ao longo de 20,3 quilômetros, com investimentos previstos de cerca de R$ 300 milhões, além da implantação de 13 quilômetros de vias marginais. Conclusão prevista para novembro deste ano. A obra, iniciada em 2021, tinha previsão inicial de término em 2023.
Outros trechos de duplicação
Também estão em andamento duplicações de Fontoura Xavier a Soledade (27,3 quilômetros) e de Soledade a Tio Hugo (30,5 quilômetros). O trajeto entre Soledade e Fontoura Xavier é o mais adiantado, com previsão de entrega até o final do ano. O trecho restante deve ficar pronto no ano que vem. Até 2030, a BR-386 deve estar duplicada entre Lajeado e Carazinho.

