
A enfermeira Mari ouviu a gritaria na recepção da Unidade Básica de Saúde (UBS) Santo Afonso, em Novo Hamburgo, no Vale do Sinos. Era dezembro de 2024. Ao checar o tumulto, Mari, identificada desta forma por motivo de segurança, encontrou uma técnica de enfermagem arranhada no braço e no pescoço. A neta de uma idosa que buscava atendimento havia avançado sobre a profissional para tirá-la do caminho e tomar uma cadeira de rodas.
Os familiares exigiam oxigênio para a paciente, que reclamava de falta de ar. A equipe argumentou que a UBS era dedicada a consultas agendadas e a acolher pequenas queixas, como febre e dor de garganta. Também justificou que o caso não demandava atendimento imediato. A enfermeira Mari, profissional habilitada para fazer a triagem, avaliou que a família deveria buscar uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA), dotada de melhores instrumentos para o caso.
Os parentes, após acalorada discussão, aceitaram a recomendação. Uma técnica de enfermagem ajudava a acomodar a paciente de volta no veículo dos familiares. Antes de partir, entretanto, a neta mudou a vida da enfermeira. Mari estava por perto, devido aos ânimos exaltados, para prestar auxílio à colega. Foi nesse momento que, sem chance de defesa, recebeu um golpe na cabeça desferido pela neta da paciente. Um soco de cima para baixo, com a agressora, uma mulher adulta, improvisando um telefone celular como soqueira. A armação e a lente do óculos de Mari quebraram. O golpe causou um “galo” na testa e escoriações que desceram desde o couro cabeludo até a maçã do rosto e o pescoço.
Com a face inchada, a vítima registrou boletim de ocorrência e ficou uma semana afastada. Retomou o expediente na UBS, mas não tardaram as sequelas.
Escutava voz alta e achava que era briga. Começava a tremer. Chegava no trabalho e tinha sintomas de síndrome do pânico
MARI
Enfermeira
Foi só quando entrou em férias, em março de 2025, que a enfermeira voltou a se sentir bem. A rotina na UBS, constatou, era o motivo do sofrimento. Mari não conseguiu voltar das férias. Está afastada do trabalho até meados de julho.
— Cansada. Tenho muito conhecimento na enfermagem, mas me sinto inútil. Ali eu perdi o amor (pela profissão) — lamenta.
Ela representou criminalmente e, no início de junho, a Justiça promoveu um acordo. A agressora terá de pagar, em 12 prestações, a quantia de R$ 3 mil à vítima.
— Tive muito mais prejuízo do que um óculos — reflete Mari.

Ela é uma das muitas vítimas de um cenário preocupante no Rio Grande do Sul, o da violência contra profissionais da saúde.
Entidades de classe alertam para violência crescente
É unânime entre conselhos e sindicatos de medicina e enfermagem a avaliação de que o número de agressões nas instituições de saúde está em alta. As estatísticas existentes são pontuais, mas sustentam o alerta.
Um dos dados disponíveis é do Conselho Federal de Medicina (CFM), divulgado em outubro de 2024: com base em levantamento junto aos Estados, o órgão planilhou 38 mil boletins de ocorrência por agressões diversas somente contra médicos em todo o Brasil entre 2013 e 2024. O ano de 2023, último período abarcado integralmente pela amostra, foi o mais violento da série, com 3.981 registros.
No Rio Grande do Sul, foram 225 ocorrências por violência em todo o período analisado — um número relevante ao se levar em conta que são pessoas agredidas no exercício do trabalho, mas que se mostra diminuto se comparado, por exemplo, aos quase 4 mil incidentes registrados no Paraná.
— Existe grande subnotificação por medo de represália do agressor. As instituições públicas e privadas não estão dando respaldo ao profissional, que pode ser acusado de abandono de plantão se sair para registrar ocorrência. E existe uma sensação de que não vai dar em nada. De que ir à polícia será perda de tempo — diz Eduardo Neubarth Trindade, vice-presidente do Conselho Regional de Medicina do Rio Grande do Sul (Cremers).
O quadro, afirma, é agravado pela crise do setor da saúde do Rio Grande do Sul. Esperas prolongadas, falta de leitos e superlotação enchem o barril de pólvora e acendem o pavio. Colocam, muitas vezes, profissionais e população em lados opostos.
Após uma série de relatos, incluindo o de uma trabalhadora que sofreu dois socos no rosto em Santa Maria, na Região Central, o Conselho Regional de Enfermagem do Rio Grande do Sul (Coren-RS) decidiu tornar público um levantamento que faz desde o início de 2024 para contabilizar hostilidades. O Observatório da Violência na Enfermagem registra, atualmente, 74 casos de agressões contra profissionais no Estado. A maioria, equivalente a 51 do total, foi praticada por pacientes.
Precisamos de dados concretos para cobrar o poder público, pensar em estratégias e parcerias. Chegam muitos casos de cusparadas na cara e ataques em emergências. A sociedade está mais violenta e impaciente
EDGAR VAGNER MORAES
Membro do Coren-RS
As entidades destacam que o cenário conflagrado predomina no Sistema Único de Saúde (SUS), mas também está presente na rede particular.
— Temos convicção de que cresce a violência. O paciente agride para expressar as frustrações da rotina de atendimento. Isso é jogado sobre a equipe de saúde. Tensiona as relações e deteriora o atendimento. Todos são vítimas do mesmo sistema — opina Marcelo Matias, presidente do Sindicato Médico do Rio Grande do Sul (Simers).
