
Leia a primeira parte desta reportagem aqui: Há 40 anos, Ruben Malikovski, gaúcho que integrou o movimento tupamaro, foi libertado após mais de uma década preso no Uruguai
Dotados de elevado grau de organização, os tupamaros levaram a cabo uma série de empreitadas de grande porte, incluindo assaltos a bancos e sequestros de autoridades no Uruguai.
Ruben, por exemplo, participou, em setembro de 1970, do assalto à mansão do empresário Luis Mailhos, um dos herdeiros da família mais rica do Uruguai à época, na zona leste de Montevidéu. Em uma operação com contornos cinematográficos, um grupo de guerrilheiros ingressou na residência e retirou uma caixa-forte, escondida atrás de uma parede falsa, onde havia 211 quilos de ouro.
Ruben, que aguardava com outros tupamaros em uma chácara em uma rodovia a 200 quilômetros da capital, foi um dos responsáveis por abrir o colosso de metal que pesava mais de 1 tonelada, trabalho que se estendeu por um dia e uma madrugada inteiros. O ouro jamais foi encontrado.
Se nos primeiros anos os tupamaros colheram simpatia junto à população, aos poucos o cenário começou a mudar, à medida que as ações se tornaram cada vez mais audaciosas e violentas. Era o prenúncio de dias difíceis que o país jamais esqueceria.
Uma caçada pelo ar
No inverno de 1972, um helicóptero sobrevoava os montes de Tacuarembó em um dia gélido. Do alto, agentes do exército uruguaio tentavam identificar alguma movimentação suspeita. Não era uma vigilância de rotina: os militares seguiam uma informação de que um grupo de guerrilheiros armados, entre eles Ruben Malikovski, estava escondido naquela região. Foi a senha para uma caçada que durou semanas.
Àquela altura, a popularidade do MLN-T havia evaporado em meio à violência crescente no país e o governo do Uruguai incumbiu as forças armadas de liquidar a organização. Depois de passar um ano preso na penitenciária de Punta Carretas, em Montevidéu – ele havia sido detido transportando armas –, Ruben foi designado pela organização para se juntar a um grupo que estava entre Rivera e Tacuarembó com a missão de construir abrigos subterrâneos.

Por meses, o grupo se manteve em movimento, chegando a caminhar até sete horas por noite sob frio e chuva – às vezes andavam de costas, para que as pegadas no solo não entregassem a localização. Durante o dia, permaneciam em locais protegidos por árvores. Bebiam água dos arroios e a comida chegava por meio dos contatos que faziam a cada 15 dias. Até que isso acontecesse, chegavam a passar fome.
Documentos da Justiça Militar obtidos via Archivos Judiciales Procedentes de la Justicia Militar (Ajprojumi) indicam que a informação que levou à localização do grupo partiu de Mario Píriz Budes, conhecido como Tino, cuja delação citou Ruben nominalmente e desmantelou toda a estrutura dos tupamaros no interior.
Ruben acabaria preso novamente em 27 de setembro daquele ano, em Montevidéu, após deixar o grupo em Tacuarembó, planejando sair do país.
– Ele defendia que cruzássemos a fronteira com o Brasil. A ideia dele era caçar avestruzes e vender a pele para levantar algum dinheiro. Mas a maioria quis seguir em direção ao sul para não perder contato com a organização – relata Luz Charito Estefanell, que também integrava o grupo.


