
Uma mesma cena se repetia nos recreios do Instituto Metodista, em Passo Fundo, nos anos 1930: um aluno segurava um cabo de vassoura ao topo do qual se prendia uma lata de pescado vazia. Agarrado à geringonça destinada a simular um microfone com pedestal, o menino fantasiava programas de calouros e imitava a voz dos apresentadores da antiga Rádio Nacional. Quem passava via um rapazote solitário gritando ao vento. Seus próprios olhos, porém, vislumbravam plateias lotadas que se converteriam de ficção juvenil em realidade pouco tempo depois.
Ao longo do meio século seguinte, o guri de Passo Fundo foi muito além de concretizar o sonho de infância. Após comandar auditórios abarrotados, construiu a maior empresa de comunicação do sul do país e deixou como legado um modelo de empreendedorismo baseado na inovação e no humanismo.
Por isso, o centenário do nascimento de Maurício Sirotsky Sobrinho, celebrado nesta quinta-feira (5), motiva uma série de ações especiais que inclui a inauguração de uma estátua em Porto Alegre e o lançamento de um documentário e um livro, e respalda seu nome como referência dentro e fora do Rio Grande do Sul.
Se a figura do empreendedor bem-sucedido é amplamente conhecida, talvez nem todos saibam que por trás do empresário de sucesso havia uma personalidade singular que deixou marcas.
Ele gostava de pessoas e não fazia distinção entre elas. Tinha muito carisma, e isso fez dele o líder que foi, alguém simples, afetivo. Outra de suas principais características era a curiosidade. Era intuitivo, corajoso. Corria riscos, se jogava, e era muito trabalhador.
NELSON SIROTSKY
Filho, publisher e presidente do Conselho de Gestão da RBS
O desfecho da saga de Maurício revelou o resultado dessa rara combinação entre dinamismo e cordialidade. Quando a morte o surpreendeu em meio a um dia de trabalho, no começo de 1986, aos 60 anos, o Estado parou para reverenciar a figura do empresário em uma série de homenagens que incluiu cortejo público pelas ruas da Capital e culminou em velório solene no Palácio Piratini.

A ascensão do jovem Maurício Sirotsky Sobrinho começou ainda na escola, em Passo Fundo. Admirada com o talento demonstrado por Maurício durante os recreios, a direção cedeu o auditório para que criasse um programa de auditório — desta vez, com um microfone de verdade. Com apenas 14 anos, deu voz a anúncios divulgados em um sistema de som instalado em postes da cidade, o serviço de alto-falantes Sonora Guarany. Era uma forma de disseminar notícias e propagandas locais em uma época em que poucos municípios dispunham de emissoras regionais.
A partir daí, em ritmo frenético, tornou-se locutor da Rádio Gaúcha, na Capital, e retornou a Passo Fundo para assumir múltiplas funções na recém-lançada rádio local — gerente, locutor e até ator de radioteatro.
Alcançou a fama em meados dos anos 1950, já ao lado da esposa de toda a vida, Ione Pacheco Sirotsky, ao comandar o célebre programa de auditório Maurício Sobrinho. Realizado diante de plateias cheias no antigo Cine Castelo, na Azenha, foi o palco de onde a cantora Elis Regina partiu para conquistar o Brasil.
Me achava o máximo ao ir com ele ao programa. Ele parava, dava autógrafos. Era comunicativo, vaidoso, engraçado. Sempre perfumado e bem arrumado. Extremamente carismático.
SÔNIA SIROTSKY
Filha de Maurício
Chuva de papel picado durante o cortejo fúnebre
A façanha seguinte foi deixar os auditórios para erigir um dos mais inovadores grupos de comunicação do país. Em 1957, associou-se à Rádio Gaúcha e passou a dar forma ao Grupo RBS, com a incorporação da TV Gaúcha e do jornal Zero Hora nos anos seguintes, já ao lado do irmão e sócio Jayme Sirotsky e do advogado Fernando Ernesto Corrêa, que também se tornaria sócio no final dos anos 1960.
A construção da marca se baseou em uma aposta constante em inovação. À frente da Gaúcha, por exemplo, substituiu a simples leitura de recortes de jornais pela produção de radiojornais caprichados pela manhã e à noite, além de inserir boletins informativos de hora em hora. Criou a primeira rede regional, no país, de emissoras de TV que não eram apenas repetidoras, mas também produziam programação local.
Zero Hora foi uma das primeiras redações brasileiras a investir na informatização. Tudo isso, sob o comando de Maurício Sirotsky, converteu a RBS em referência nacional.
O trabalho foi um grande amor para o meu pai. Cuidou de cada passo como se fosse um filho, e trabalhava incansavelmente. Não passava um único dia sem ir ver como estavam a TV, o jornal e as rádios. Adorava acompanhar o jornal rodando. Lia tudo sempre com um lápis na mão. Riscava e fazia observações. Adorava as pessoas com quem trabalhava. Respeitava a todos e tinha sempre um sorriso e uma palavra amiga.
SUZANA SIROTSKY
Primogênita de Maurício
Quando tinha 55 anos, descobriu um tumor maligno na parótida. Após uma cirurgia e cinco anos de revisões semestrais, recebeu no começo de 1986 a esperada notícia de que havia superado a doença. Mas, apenas dois meses depois, em 24 de março, sentiu-se mal na sede da empresa. Socorrido ao Instituto de Cardiologia, morreu devido a um problema cardiovascular. Sob comoção popular, um cortejo fúnebre tomou as ruas da Capital. Ao passar diante do prédio da RBS, na Avenida Ipiranga, foi saudado com uma chuva de papel picado — o mesmo de que era feito o jornal que ele ajudou a reinventar. O governo estadual abriu o Palácio Piratini para o velório que marcou o adeus ao visionário da comunicação gaúcha, mas não a seu vasto legado.
A principal característica dele é que enxergava muito à frente do seu tempo. Pensava o que hoje chamamos de disrupção. Nos anos 1980, dizia que quem não falasse a linguagem dos computadores estaria fora da nova era. Se vivesse hoje, enxergaria o que ainda não conseguimos ver.
PEDRO SIROTSKY
Filho de Maurício
Ações alusivas ao centenário
Confira algumas das homenagens ao centenário do fundador da RBS
Documentário
No sábado (7), após o programa É de Casa, estreia o documentário 100 Anos à Frente, na RBS TV. O vídeo de 21 minutos retrata diferentes facetas de Maurício: o apresentador que lotava auditórios, o homem carismático que firmava conexões profundas com as pessoas e o empreendedor capaz de antecipar tendências. Depois de ir ao ar no sábado, ficará disponível no GloboPlay e no canal de GZH no YouTube. A realização é do diretor Rene Goya Filho, que assina o roteiro com Marcelo Pires e Tulio Milman.
Estátua
De braços abertos e com um microfone na mão, será inaugurada às 10h desta quinta-feira (5), para convidados, a estátua de Maurício Sirotsky Sobrinho, no parque batizado com seu nome em Porto Alegre, também conhecido como Harmonia. De autoria do escultor Vinícius Ribeiro, a obra feita em concreto armado tem 2,2 metros de altura. A ambientação ao redor da peça é inspirada na praça central de Passo Fundo onde Maurício começou a trabalhar emprestando sua voz ao serviço de alto-falantes Sonora Guarany. Pela manhã, também será inaugurada no parque a Alameda Ione Pacheco Sirotsky, esposa de Maurício, falecida em 15 de novembro de 2015.
Biografia
Lançamento de biografia sobre Maurício Sirotsky Sobrinho, do jornalista Tulio Milman, com apoio em pesquisa do jornalista Nilson Souza e do historiador Alex Antônio Vanin, e consultoria do professor Paulo Ledur. A obra tem lançamento previsto para a Feira do Livro de Porto Alegre.
Campanha
Campanha institucional do Grupo RBS divulgada em rádio, TV e internet destaca desde esta semana a trajetória e o legado de Maurício Sirotsky Sobrinho.



