
Tatiana e Laureano Zortea, Ciro Zamboni e Franciela Pedretti. Os quatro têm muito em comum. Tati e Laureano são casados e possuem uma loja que vende réplicas do cavalo Caramelo. Ciro é dono de uma oficina na qual trabalha Fran. Eles consertam até hoje veículos que foram tomados pela lama durante a enchente de maio do ano passado.
Todos são moradores de Muçum, no Vale do Taquari, e trabalham na mesma calçada da cidade que estava no caminho da maior catástrofe climática do Rio Grande do Sul. O município, que fica a 155 quilômetros de Porto Alegre, teve 80% da área urbana alagada, 90% do comércio atingido e metade das indústrias não escapou da força das águas.
Resiliência e amor pelo que faz
— Cogitamos desistir, só que a gente pensou: vamos fazer o que da vida? Amo isso aqui, é o que gosto, sabe, trabalhar com o povo — relembra Tatiana, que de dezembro até maio deste ano conseguiu vender cerca de 50 cavalinhos de pelúcia.
A loja de variedades, que comercializa brinquedos, roupas, objetos para casa e decoração encanta os clientes que procuram presentes, artigos domésticos entre outros. O estabelecimento foi construído por Tatiana e o marido Laureano. Os dois são casados há 32 anos, e há 15 são sócios na loja. O bazar começou na garagem de casa, até chegar na loja própria que foi comprada pelo casal. O local ficou embaixo d'água duas vezes. O estoque foi todo perdido. O ponto ficou fechado cinco meses. Em outubro do ano passado, reabriu as portas.
Eu disse, vamos tentar, e os fornecedores também, muito queridos, ajudaram. Os fornecedores consignaram, facilitaram
TATIANA ZORTEA
O talismã da casa, e o produto que mais enche os olhos dos turistas, é o cavalo Caramelo de pelúcia. O fofo equino, um quebra-cabeças e um livro foram produzidos no ano passado, pela We Toys. A empresa gaúcha faz brinquedos que incentivam a responsabilidade ambiental e social.
Do faturamento de R$ 450 mil, foram vendidos cerca de 1,8 mil cavalinhos, livros e quebra-cabeças. Segundo a We Toys, 35% do valor é destinado a projetos sociais em instituições de ensino. Uma delas é a Escola Estadual General Souza Doca, em Muçum.
— Perdemos tudo que tínhamos dentro do colégio: móveis, livros, computadores. Com a doação da We Toys, conseguimos comprar todas as portas novas para a escola e reformamos todos os banheiros — afirma a diretora da General Souza Doca, Karina Cucioli.

Altruísmo
Laureano diz que um dos motivos para os empresários da cidade seguirem em frente é a gratidão com a ajuda que receberam o ano passado. Manter as portas abertas é um jeito de multiplicar a esperança que receberam.
Os voluntários nos ajudaram. As pessoas vieram de todos os lugares e nos abordavam o tempo inteiro. Sempre havia pessoas se oferecendo até para limpar o estabelecimento. Somos resilientes. Vamos brigar pela nossa cidade. Queremos que se reerga
LAUREANO ZORTEA
Lembranças do desespero
A cidade outrora pacata à beira do Taquari, viu a fúria do rio invadir bairros inteiros, que submergiram. Junto ao cemitério municipal, a água não fez a curva natural, seguiu reto e levou embora tudo.
Para escapar da correnteza, os moradores tiveram de subir nos telhados das casas e ficaram horas esperando resgate, no escuro, no silêncio e no meio da incerteza.
Muitos usaram a ponte dos trilhos do trem, que fica a 143 metros do chão, para sobreviver. Voltar a Muçum, um ano depois, é uma aula de resiliência e resistência.
Ponte reconstruída
Quem chega vê a ponte Brochado da Rocha, que cortou a cidade levada pela água, reconstruída. A estrutura liga Muçum a Roca Sales e também é o principal acesso a municípios da Serra, como Santa Tereza. A travessia antiga foi arrastada pelas águas na enchente de setembro de 2023. Foi inaugurada em março desse ano e hoje dá passagem a uma média de 2 mil carros por dia.
O caminho que estava interrompido, agora tá livre para os moradores, que aos poucos reconstroem o dia a dia.
De acordo com o IBGE a população de Muçum era de 4,6 mil pessoas, em 2022. Depois da enchente, 20% da população precisou deixar a cidade. Mas 10% desse número já voltou pra casa. Hoje a expectativa é de que os outros 10% voltem, assim que os programas habitacionais sejam finalizados e as casas entregues às famílias.
Esperança
Muita gente espera uma casa definitiva em Muçum. Mais de 1,6 mil residências foram inundadas e em torno de 410 famílias irão receber novas casas em áreas mais seguras.
Franciella Pedretti não perdeu a casa, mas mudou de endereço profissional. Fran é educadora física e manteve uma academia funcionando na cidade por mais de 20 anos.

Na noite que as ruas de Muçum viraram rios, Franciella salvou 67 pessoas no segundo andar do prédio.
— A gente ficou no segundo piso só ouvindo gritos de socorro, vendo os bombeiros passar pela cidade, e não tínhamos como sair, nós ficamos ilhadas no segundo piso, sem luz, sem telefone, sem água, sem comida, criança chorando, um filme de terror.
Apesar de tudo o que viveu, Fran deu a volta por cima. Hoje, ostenta um sorriso no rosto. Ela alugou a academia para outra pessoa e atualmente divide com o marido, que é mecânico, os trabalhos em uma oficina no centro da cidade.
Não dá para baixar a cabeça. Tem de erguer. Tu tens de pensar que foi uma vida toda trabalhada. Tu tens de trabalhar para conquistar tudo de novo. Estamos aí na luta.
FRANCIELLA PEDRETTI
Fran conta que até hoje recebe carros com lama da enchente na carroceria, e conta que aprendeu que o mais importante é estar vivo.
— Já realizei muitos, vários sonhos, mas hoje agradeço todo dia por a gente estar vivo, porque só quem passou por isso, de sentir água no peito, saindo dentro de casa, olhando para trás e vendo tudo que tu construiu em tantos anos, o meu pai, 70 anos, perder tudo... Hoje o meu sonho é viver a vida, viver com as pessoas que estão ao nosso redor, agradecer, a gente tem de construir de novo. Vamos curtir a vida com os amigos. Ser feliz, todos os dias. A minha meta é ser feliz — declara, emocionada.
Paixão por Fuscas
O dono da oficina que Fran trabalha com o marido é Ciro Zamboni.
Apaixonado por fuscas, seu Ciro tem a oficina há 50 anos. É conhecido em toda a região pelos Fuscas conversíveis que produz. Dono de um modelo de 1953, salvou vários carros de clientes e da coleção pessoal no dia da enchente.
A oficina foi invadida pelo Taquari duas vezes, tendo quase 2 metros de água. Aos 79 anos, não pretende parar. E sonha em seguir em frente.
— O que mais importa nessa vida é viver. E estamos com saúde, toda a família, né? E quem perdeu família, perdeu casa, tudo? Eu perdi bastante coisa, mas mesmo assim minha casa não foi embora, né? Continuamos a morar. Vou continuar aqui trabalhando e passeando com meu Fusca.



