
Jornalistas do mundo inteiro celebram neste 3 de maio o Dia Mundial da Liberdade de Imprensa, homenagem criada em 1993 pela Organização das Nações Unidas. E o tema deste ano não poderia ser mais contemporâneo: a profunda influência da Inteligência Artificial (IA) na mídia. É uma tecnologia que veio para ficar, para o bem e também para o mal, ressaltam especialistas em comunicação.
Para marcar a data, a Agência das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) organiza um evento no dia 7 de maio, no Palácio das Artes, também conhecido como Bozar, em Bruxelas, na Bélgica, sob o tema: Reportagem no Admirável Mundo Novo — O Impacto da Inteligência Artificial na Liberdade de Imprensa e na Mídia. A cerimônia também servirá para entrega do Prêmio Mundial de Liberdade de Imprensa Unesco/Guillermo Cano.
Como muitas outras ferramentas no mundo, a IA tem várias facetas. De um lado, transforma a mídia, fornecendo meios para aprimorar o jornalismo investigativo, a criação de conteúdo e a checagem de fatos. Ela permite maior eficiência, acessibilidade multilíngue e análise de dados aprimorada. No entanto, esses avanços também trazem riscos: desinformação e informações enganosas geradas pela IA, tecnologia deepfake, moderação tendenciosa de conteúdo e ameaças de vigilância a jornalistas. Além disso, o papel da IA no modelo de negócios da mídia levanta preocupações sobre a remuneração justa do conteúdo jornalístico e a viabilidade da mídia, ressalta a Unesco.
O evento em Bruxelas explorará essas questões complexas, reunindo jornalistas, formuladores de políticas, profissionais de mídia e atores da sociedade civil para garantir que a IA fortaleça, em vez de prejudicar, a liberdade de imprensa e os valores democráticos.
André Fagundes Pase, doutor em Comunicação Social e professor de Pós-Graduação na PUCRS, ressalta que a IA é um conceito existente há décadas, mas que se tornou acelerado após a disponibilização do modelo público do GPT, no fim de 2022. Ele considera que é momento de repensar as rotinas do jornalismo e também sobre o que é relevante, diante da informação cada vez mais automatizada.
— Não há como voltar atrás e temos de investir recursos e tempo, duas moedas bem escassas, para compreender como utilizar os recursos de produção de texto, de vídeos e de imagens. O ChatGPT, por exemplo, ajuda revisando textos e incrementando o nosso pensamento, porém acaba por tornar o texto opaco, sem estilo e genérico. Uma das perguntas, agora, é sobre quais fontes foram utilizadas para a produção de conteúdo e como um serviço, programado por um humano com seus vieses, processa uma instrução e transforma uma instrução em material que irá auxiliar na forma como o cidadão compreende e atua no seu mundo, funções do jornalista — analisa Pase.
Doutora em Comunicação e professora da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), além de integrante do Conselho Editorial da RBS, Raquel Recuero acredita que a IA representa problemas e oportunidades. Ela pode escrever, corrigir e melhorar uma matéria jornalística, mas não pode apurar, pontua a especialista.
— É sedutor passar as coisas para a IA, mesmo sem revisar depois, porque é tudo muito rápido. E, como sabemos, a IA gera resultados que parecem reais, mas muitas vezes não são, enganando até mesmo quem tem algum conhecimento do fato. No jornalismo, isso pode ser extremamente problemático. Imagine uma matéria feita por IA e em que é inventada uma fala de uma fonte, totalmente crível. É algo que a fonte poderia ter dito, porém a fonte jamais falou. Aí você faz, publica e a fonte questiona publicamente. Até corrigir, já foi, já circulou, já está no mundo. Isso coloca em risco a credibilidade do jornalismo — constata.
Especialista em Tecnologia da Informação, o professor da PUC-RS Eduardo Campos Pellanda alerta que as pessoas têm usado a IA para substituir jornalistas e escritores, trocando textos. Algo não muito ético, acrescenta.
— Mas há pontos bons. Os algoritmos podem nos ajudar a achar falhas nos textos, de adaptação a regras dos manuais de redação. Podem também otimizar dados presentes em vários documentos, pescá-los. Ver quantas vezes apareceu o nome de uma empresa num relatório, por exemplo. Pode ainda ajudar a detectar fontes usadas para elaborar um texto, algo que vou apresentar num trabalho na Itália, por sinal.
Outro exemplo de bom uso citado pelos especialistas é relativo à segurança das mulheres jornalistas. A IA pode apoiar vítimas de violência de gênero, simplificando ferramentas de denúncia e aumentando a equidade em espaços digitais. Esses avanços podem reduzir barreiras para reportar abusos e obter respostas rápidas. Eles também amplificam, por outro lado, riscos existentes para mulheres no ambiente digital, como assédios de vários tipos. Todos os sistemas do tipo podem gerar notícias falsas, imagens fraudadas e desinformação, ressalta o organismo da ONU.
Em suma, há todo um universo de possibilidades. O importante, ressalta Marcelo Rech, presidente executivo da Associação Nacional de Jornais (ANJ), é lembrar que, além do debate sobre IA, a data celebrada esta semana é sobre liberdade de imprensa.
— E essa liberdade não é só para a imprensa, mas para a sociedade ter o direito de ser informada sem barreiras ou censuras. Somente desta forma os cidadãos podem fazer suas escolhas e julgamentos livres — conclui Rech.
