
A sexta-feira (18) foi de retomada das buscas às vítimas da enxurrada que atingiu o município de Petrópolis, no Rio de Janeiro. Os trabalhos haviam sido suspensos na quinta-feira (17) à noite, em razão da volta da chuva forte.
Com a trégua, bombeiros, outros servidores públicos e voluntários concentraram as ações, principalmente, no Morro da Oficina, local onde a maior parte dos mais de 130 mortos foi encontrada. São mais de 200 desaparecidos, mas os próprios órgãos públicos admitem que parte dessas pessoas já pode ter sido identificada.
No Instituto Médico Legal (IML), algumas pessoas estão há dias esperando a liberação dos corpos de familiares.
— Gente, eu perdi tudo, tudo mesmo — lamentava Adauto Vieira da Sílvia, 50 anos, autônomo que aguardava no IML.
Adauto perdeu três pessoas de sua família na tragédia: a esposa, a filha de sete anos e o filho de 21. Ele estava em casa com os familiares, que brincavam em meio à chuva forte. Com o aumento da água, que já começava a entrar em algumas residências, o autônomo avisou a esposa de que precisavam descer o morro.
— Peguei a minha filha, botei no meu pescoço, coloquei casaco nela, desci. Quando chegou embaixo, muito distante mesmo, que eu achava que estava seguro, que nunca imaginava que ia acontecer aquilo, minha esposa falou: “Volta e pega o Lucas” — relata.
Quando chegou a sua casa novamente, a água havia aumentado ainda mais.
— Peguei o Lucas e falei: vamos, vamos! Ele virou e falou: “Pai, estamos perdendo tudo”, e eu falei: “filho, não tem problema, vamos embora” — recorda. — Quando cheguei na varanda, escutei um estrondo muito grande, bum. Foi quando olhei para cima e vi, igual uma neve, assim, vuuuumm. Agarrei na mão dele e comecei a correr, e aquele negócio acompanhando a gente, e eu correndo, correndo, correndo, e eu pulando com ele com a mão agarrada na mão dele. Daqui a pouco só senti como se fosse uma rasteira nele e ele escapuliu da minha mão. Eu não conseguia segurar ele.
Adauto conseguiu escapar e foi procurar sua esposa.
— Quando cheguei embaixo, gritei: Eliane, Eliane, a barreira levou o Lucas — diz, entre lágrimas. — Aí meu vizinho falou: “Adauto, ela estava aqui, ela sumiu”. Comecei a procurar ela, só achei no outro dia, que começaram a procurar os corpos, e ela estava agarrada com a minha filhinha.
O autônomo reclama da demora na liberação dos corpos:
— Gente, isso foi na terça, hoje (sexta-feira) quantos dias já está fazendo isso? Meu filho tinha 21 anos, cem quilos, 1m90cm, estou aqui três dias já e não conseguiram identificar meu filho. É uma dor muito grande, eu só quero fazer um enterro digno, só isso, é muita gente. E minha esposa a mesma coisa, ainda não liberaram minha esposa, minha filhinha de sete anos.
Ouça o depoimento de Adauto na Rádio Gaúcha:
Era por volta de 14h quando a gaúcha de Viamão Cristiane Gross da Silva, 48 anos, recebeu a notícia que não queria ouvir. O corpo do neto, de cinco anos, foi encontrado. A força da balconista que ajudava os demais no pé do Morro da Oficina parecia ter terminado assim que um dos voluntários fez o comunicado a ela. O almoço coletivo que era servido na rua já não tinha o mesmo sabor e interação. Amigos e familiares choravam. A dor predominava. Cristiane ainda aguarda notícias da filha, da sogra e de três sobrinhos.
Os dias de trabalho têm sido difíceis, como relata o serralheiro Renato Amorim, 46 anos, um dos voluntários que atua nas buscas.
— É uma coisa muito terrível, gente, vocês não têm noção. Só quem está aqui presenciando, quem está ajudando que tem noção. Espero que isso não aconteça nunca mais, porque é uma coisa horrorosa, horrorosa — desabafou.
Diferentemente do dia anterior, nesta sexta-feira a Polícia Militar do Rio da Janeiro estava impedindo a subida de qualquer pessoa que não estivesse diretamente ligada às buscas ou moradores. Apesar da redução do volume de precipitação, seguia chovendo na cidade.
Conforme a Defesa Civil de Petrópolis, 140 carros levados pela enxurrada foram retirados das ruas.
A Polícia Militar faz ronda pela cidade para identificar o grupo que usa carro de som assustando a população sobre a necessidade de evacuação de áreas. Até mesmo anúncios falsos por grupos de aplicativos estão sendo disseminados. Segundo relatos que chegaram para a Defesa Civil municipal, o grupo que faz o alarme falso de mobilização da população inclusive estaria usando uniformes similares aos dos órgãos competentes.
A prefeitura ressalta que esse não é um mecanismo adotado pelo órgão para alertar situações de emergência. A Defesa Civil dispõe de sistema de sirenes, de envio de SMS, além de comunicados por grupos oficiais com as comunidades, através dos Núcleos Comunitários de Defesa Civil para anunciar a necessidade de mobilização da população em situação de chuva forte. Em caso de maior necessidade, o alerta nas regiões de maior risco também pode ser feito por viaturas oficiais nas comunidades.
Bolsonaro em Petrópolis
O presidente Jair Bolsonaro esteve em Petrópolis nesta sexta-feira. Ele sobrevoou a cidade antes de ir até o 32° Batalhão de Infantaria do Exército, local escolhido para um pronunciamento.
— É uma imagem quase que de guerra — disse Bolsonaro sobre a visão da cidade de cima.
Acompanhado de ministros, do governador do Rio, Cláudio Castro, e do prefeito de Petrópolis, Rubens Bomtempo, anunciou a liberação de R$ 2,33 milhões para assistência emergencial. Também disse que será publicada uma nova medida provisória de mais de R$ 500 milhões para atender cidades atingidas por catástrofes naturais, entre elas Petrópolis. Sobre prevenção, disse que estão previstas no orçamento da União, “que já é limitado”.
— Por muitas vezes, nós não podemos nos precaver com tudo que vai acontecer — ressaltou o presidente.


