Vinte corpos foram encontrados em meio aos escombros em Petrópolis, no serra do Rio de Janeiro, nas últimas 30 horas. Até 18h deste sábado (19), havia a confirmação de 146 mortos. Na sexta (18), por volta de 9h, eram 120. Há cerca de 190 desaparecidos e mil desabrigados. Bombeiros de outros Estados estão auxiliando os colegas do Rio de Janeiro, além de moradores da região, voluntários de outros municípios e servidores públicos de outras cidades da região.
Por volta das 10h, uma cena impactava quem passava por uma das vielas do pé do Morro da Oficina. Um reservista do Exército chamado para ajudar nas buscas chorava abraçado a um corpo coberto por uma lona preta, em cima de uma maca colocada no chão. Era o filho dele, uma criança.
— É meu filho, não acredito. O que vai ser da minha vida — gritava o homem aos prantos, amparado por amigos e voluntários, que impediam qualquer tipo de imagem daquela cena triste. A esposa, mãe da criança, chegou depois. Parecia não acreditar na notícia da morte do menino.
Pouco depois, a reportagem de GZH foi até o local onde estão concentradas as esquipes de resgate, em cima do morro. Por volta de 12h, mais um corpo era retirado. Tratava-se de uma mulher. O marido, que ajudava nas buscas, passou mal e precisou ser amparado. O corpo foi encontrado por uma equipe dos Bombeiros de Minas Gerais que também auxilia nas buscas. Os moradores que viviam bem perto do local onde o corpo estava sendo retirado faziam um vaivém para levar tudo que podiam de suas residências, já que a área está condenada.
— Eu moro há 53 anos aqui, conheço todas essas pessoas que estão sendo retiradas. É uma tristeza sem tamanho — disse um morador, que preferiu não se identificar.
Quem participa das buscas vai se ajudando com equipamentos e informações. Durante a tarde, por exemplo, GZH presenciou um dos bombeiros que estava no meio do morro alertar um colega que fazia buscas numa região mais para cima que cuidasse, pois estava perto de cair se desse um passo para trás.
Alimentos e água são levados a todo momento para quem está trabalhando. O revezamento para descanso também é constante. São muitas e de muitos lugares as equipes que auxiliam nas buscas dessa tragédia de Petrópolis. Cães farejadores ajudam a identificar locais prováveis de corpos. E os próprios moradores indicam onde havia gente morando que ainda está desaparecida.
Os corpos encontrados são levados para o Instituto Médico Legal (IML), para identificação e posterior liberação aos familiares.
Reservista do Exército, Wagner Martins, 42 anos, era um dos voluntários. O hoje taxista ajudou a retirar corpos dos escombros.
— É complicado, porque eu tenho filho. Não moro aqui, moro no Rio de Janeiro, moro em Madureira, vim por conta própria. Tô tendo empatia, tô neste momento solidário às famílias que perderam seus entes queridos — disse Wagner.
Sansão dos Santos Domingos era mais um voluntário. O policial militar não estava em serviço, mas fez questão de ajudar.
— Eu ajudei a retirar dois corpos, dois animais vivos e um outro animal morto – relatou o PM.
Na área que serve de ponto e apoio antes da subida do Morro da Oficina, Rodrigo Prudêncio Barbosa, de 43 anos, estava junto com outros voluntários, todos de camiseta amarela. Desempregado, conta que se uniu a outros amigos para ajudar na limpeza da cidade. Mesmo tendo perdido a sua casa na enxurrada, disse que estava pronto para ajudar.
— O que dá força para ajudar é que nós, petropolitanos, somos muito solidários com os outros. E com isso a gente está conseguindo doações e força de trabalho para fazer a cidade voltar ao normal, porque a vida a gente não tem como recuperar.
Em outra região da cidade, com menos mortos, mas também com muita destruição, GZH encontrou Marcos Alexandre, de 32 anos. Ele acompanhava o trabalha das máquinas que retiravam restos de árvore, concreto e lama da região central da cidade, mais especificamente na Rua Teresa, uma das principais de comércio de Petrópolis. Trabalhador de uma revenda de gás, testemunhou o deslizamento e conseguiu escapar a tempo.
— A gente estava no meio do deslizamento, porque eu trabalho aqui no depósito. Teve a primeira barreira e a segunda. E o estabelecimento onde eu trabalho fica no meio. Pra gente foi algo impressionante, porque a gente estava presente — conta Marcos.
Trafegar por Petrópolis segue sendo um desafio. Há vários bloqueios em razão de quedas de barreira. As principais vias estão muito congestionadas. Trabalhadores que fazem a limpeza não estão dando conta, de tanta lama e entulho espalhados pela cidade. Estabelecimentos comerciais que não tiveram maiores prejuízos reabriram. Donos dos que foram atingidos fazem a limpeza dos locais.
A forte neblina atrapalha os trabalhos do resgate. A Defesa Civil de Petrópolis emitiu alerta de chuva na região neste sábado.





