
Após seis meses de análises, pesquisas e levantamentos, um estudo de viabilidade sobre o chamado Hyperloop - transporte ultrarrápido por meio de cápsulas dentro de tubos eletromagnéticos a vácuo - ficou pronto e foi apresentado nesta quinta-feira (2) para a sociedade gaúcha.
O trabalho da empresa norte-americana HyperloopTT, em parceria com o governo estadual e a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), mostrou que é possível se realizar este meio de transporte em cinco anos, custando cerca de 7,7 bilhões de dólares ao longo de 30 anos, mas sem subsídios do governo.
Além disso, foram definidos possíveis valores das passagens, sendo estimado o valor mais alto de R$ 115,00, bem como o traçado, que prevê túneis e quatro modernas estações: Porto Alegre - junto ao Aeroporto Salgado Filho, Novo Hamburgo, Gramado - que será subterrânea, no Centro da cidade - e Caxias do Sul.
O tempo entre esta última cidade e a Capital, que hoje leva cerca de 1h30min de carro em um trajeto de 135 quilômetros, seria encurtado para apenas 19min45seg, podendo chegar a uma velocidade de 835 km/h.
A implementação deste sistema depende agora de operadores e construtores do próprio Rio Grande do Sul. O estudo será apresentado, nos próximos dias, a um grupo de empresários que já mostraram interesse em realizar a obra.
Impactos ambientais reduzidos
O diretor-presidente da HyperloopTT para a América Latina, Ricardo Penzin, disse pela manhã, durante uma live, que o transporte ocorre dentro de tubos de aço - com quatro metros de diâmetro - totalmente a vácuo e autossuntentável, já que as cápsulas - de 20 toneladas e com 2,6 metros de altura - são movidas de forma eletromagnética e por meio de energia solar.
Elas podem transportar entre 30 e 50 pessoas, saindo uma atrás da outra com intervalo mínimo de 40 segundos. No lugar das janelas, as cápsulas vão ter telas com inteligência artificial, podendo ser escolhida qualquer imagem ou até mesmo interagir com a tela como se fosse um celular. Há uma estimativa de que o sistema no Estado comporte até 160 mil passageiros por dia.

O estudo foi anunciado em janeiro deste ano e, em junho, GZH divulgou com exclusividade que as estações seriam em Porto Alegre, Novo Hamburgo, Gramado e Caxias do Sul. Agora, governo, universidade e empresa garantem que o meio ambiente não será afetado durante a construção dos tubos e dos vários túneis previstos, principalmente no trecho de mata atlântica na Serra. O professor da UFRGS Luiz Afonso Sena, que participa do projeto, relembrou que não haverá emissão de poluentes no ar.
— O projeto é viável, com potencial de grande demanda, com retorno financeiro garantido e sem qualquer tipo de subsídio do governo gaúcho. Calculamos até possíveis acidentes de trânsito que evitaremos, além da relevância social e da possibilidade de inúmeros empreendimentos paralelos, tanto na área de comércio, quanto na área imobiliária — afirma Sena.
A professora da UFRGS Christine Nodari, que também participa do projeto, explicou ainda que foi levado em conta o fator confiabilidade do sistema.
— Por exemplo, além da segurança e do conforto, se tiver neblina, transporte de carro e de avião fica prejudicado, o que não altera em nada o Hyperloop — disse Christine.
Transporte de carga na madrugada
Todas as estações terão o mesmo padrão e com arquitetura moderna. Em Porto Alegre, a estação ficará na área do antigo terminal do aeroporto Salgado Filho. O local é estratégico para o transporte de pessoas e de cargas.

Penzin disse que a ideia é que as pessoas sejam conduzidas durante o dia, até o final da noite, e, após este horário, será a vez da locomoção de cargas. Em Novo Hamburgo, a estação ficará a uns dez quilômetros do Centro e justamente em uma área equidistante entre a cidade, São Leopoldo e Campo Bom.
Já em Gramado, a estação será subterrânea e exatamente na área mais central da cidade. O local ficará em um dos dois grandes túneis do trajeto. São vários de pequena distância, mas o de Gramado, entre o município e Caxias do Sul, terá cerca de dez quilômetros de extensão. O outro será justamente em Gramado, com cerca de cinco quilômetros de extensão. Por fim, a estação de Caxias do Sul ficará em um ponto bem no meio do atual trajeto entre a cidade e Farroupilha.
Menor valor estimado do bilhete será de R$ 30
Já os valores das passagens do Hyperloop, são estimativas apontadas no estudo de viabilidade e que dependem de demanda e do trajeto.
- Porto Alegre/Caxias do Sul: R$ 115
- Porto Alegre/Gramado: R$ 105
- Porto Alegre/Novo Hamburgo: R$ 30
- Gramado/Caxias do Sul: R$ 99
Os valores dependem de várias combinações, como por exemplo, se as viagens forem em grupos, compras com antecedência, viagens diretas ou com paradas nas estações, entre outros fatores. Se da Capital até Caxias do Sul o tempo médio é de 19min45seg em 135 quilômetros, o estudo mostrou que de Porto Alegre a Gramado pode ser de 11min20 seg em 88 quilômetros.
Até 50 mil empregos durante a construção
O estudo ainda considerou a capacidade de geração de empregos. Seriam cerca de 50 mil diretos na construção dos tubos, túneis e estações. Contudo, há ainda a estimativa de outros 9,2 mil diretos e indiretos na manutenção, operação e apoio em todo o sistema. Estes seriam os diretos, sendo os indiretos em lojas, bares, restaurantes e estacionamentos ao longo das estações e também no interior destes locais. No setor de energia solar, é previsto um número de até 2 mil empregos durante 30 anos de operação.
Relevo pode ser desafio na implantação
O economista e ex-secretário da Fazendo do governo Yeda Crusius, Aod Cunha, destacou que o projeto é importante não só pelo impacto direto sobre renda e emprego, já que afeta a produtividade geral da economia como um todo, mas também como sendo um sistema que garantirá uma melhor mobilidade e escoamento da produção e de pessoas. Segundo Cunha, a iniciativa irá fazer com que a economia das regiões seja mais produtiva e tenha uma taxa de crescimento maior, bem como o fato de ser uma solução tecnológica de mobilidade urbana que leva em conta o tema da sustentabilidade ambiental.
A ambientalista Lisiane Becker frisa a necessidade do cuidado com a mata atlântica na subida para a Serra, principalmente na fase de construção dos tubos e túneis. Para ela, o projeto tem que prever alternativas para a vegetação, fauna e recursos hídricos.
Já o engenheiro e doutor em transportes, João Fortini Albano, alertou para os aclives e declives no trecho entre Gramado e Caxias do Sul. Por isso, o especialista destacou que este fator pode trazer um acréscimo de custo na execução da obra. Sobre a tarifa, ele disse que é uma estimativa e que não se pode correr o risco do que houve na Europa com os trens bala em relação à equiparação do valor do bilhete com o preço de uma passagem de avião.
Municípios surpreendidos com possibilidade
O prefeito de Gramado, Nestor Tissot, viu com surpresa e alegria o projeto. Para ele, é um sonho que ninguém imaginaria e que pode alavancar ainda mais o setor turístico que já recebe cerca de 6 milhões de pessoas por ano.

A prefeita de Novo Hamburgo, Fátima Daudt, disse estar convicta do salto econômico que a região vai ter e da possibilidade de novos investimentos, facilitando a mobilidade em uma área turística e de negócios. Segundo ela, atenderia todas as demandas possíveis com troca de mão de obra e produtos primários.
O prefeito de Caxias do Sul, Adiló Didomenico, resumiu:
— É o futuro, é o futuro — comemorou.
Ele lembrou que o transporte rodoviário está cada vez mais caro e congestionado, por isso, este novo modal poderá ser o mais adequado para o desenvolvimento da região. Por fim, o secretário de Mobilidade Urbana de Porto Alegre, Luiz Fernando Záchia, disse que o transporte por cápsulas é de suma importância por ser um sistema diferente para diminuir número de veículos nas cidades, agilizando negócios e turismo, trazendo conforto e diminuindo a poluição.
* Colaboraram Babiana Mugnol, André Fiedler e Larissa Brito

