
Sacudida por explosões terroristas, Bruxelas viveu uma terça-feira de tragédia, em carnificina que provocou ao menos 31 mortes e mais de 200 feridos em pouco mais de uma hora. Epicentro do jihadismo europeu, a capital da Bélgica foi o alvo escolhido para mais um ataque reivindicado pelo Estado Islâmico. Desta vez, as bombas visaram ao coração da Europa, na cidade-sede das principais instituições que regulam as legislações comuns ao maior bloco econômico do mundo.
A ameaça terrorista era sentida pela população e vigiada de perto pelas autoridades do país desde a prisão, na sexta-feira, de Salah Abdeslam, terrorista envolvido nos ataques de 13 de novembro em Paris. Em seu interrogatório, Abdeslam teria admitido a iminência de uma ação de terror em Bruxelas. As primeiras explosões ocorreram por volta das 8h, em ataque suicida no aeroporto internacional de Zaventem. A terceira veio logo depois, às 9h, em um vagão de metrô na estação Maelbeek.
– A explosão foi muito violenta, a ponto de terem sido derrubados três muros em um estacionamento subterrâneo situado embaixo da estação – disse um porta-voz dos Bombeiros, Pierre Meys, à AFP.
Leia mais:
Medidas antiterror anunciadas após atentados em Paris não foram implantadas
Estado Islâmico reivindica atentados em Bruxelas
Atentados em Bruxelas: perguntas e respostas sobre os ataques terroristas
– A identificação dos corpos não está concluída. Estavam totalmente despedaçados – disse Meys, referindo-se às vítimas na estação do metrô.
Os transportes públicos foram suspensos de imediato, o aeroporto e as estações de trem, fechadas, e as autoridades solicitaram que os habitantes permanecessem em suas casas. Depois dos ataques, qualificados de "cegos, violentos e covardes" pelo primeiro-ministro belga, Charles Michel, o governo elevou o nível de alerta contra terrorismo para o máximo.
– Temíamos um atentado terrorista, e aconteceu. As pessoas estavam simplesmente indo para o trabalho, para a escola, e foram alcançadas pela barbárie mais extrema – desabafou o premiê.
Brasileira testemunhou detonação no metrô
A brasileira Samla da Rosa, a dois dias de completar 54 anos, estava no metrô em que ocorreu a explosão. Testemunha e vítima da tragédia, ela diz não conseguir "comemorar" o fato de ter se salvado. Após a explosão, em meio à fumaça e ao pânico, conseguiu escapar pela janela do vagão e alcançar a rua.
– Ao sair, vi um braço vestido na calçada, na rua. Um braço vestido. Nem sei de quem era. Fiquei ali sentada olhando aquilo – disse depois, ainda abalada.
Sem ferimentos, ela diz estar sentindo uma "tristeza profunda".
– Penso nas pessoas que estão sofrendo muito nesta hora. A gente está vivendo uma guerra. Não sei como governos vão conseguir dar paz aos seus cidadãos. Alguns princípios da União Europeia terão de cair por terra, será preciso mais controle de fronteiras, pois não podemos mais continuar com esse sentimento de medo e de terror – disse Samla, que vive há quase 20 anos em Bruxelas.
No meio da tarde, o belga Bart Cornelisse, 54 anos, bebia cerveja em um bar próximo da estação de Maelbeek. Para ele, após os ataques desta terça-feira, haverá mais "desconfiança" por parte da população.
– Não há como um evento deste tamanho não provocar uma mudança de mentalidade. Haverá mais medo, as pessoas vão se encerrar mais em si mesmas. É triste.
A francesa Marion Guilcher, 26 anos, trabalha em Bruxelas no sétimo andar de um prédio logo em frente à estação de Maelbeek.
– Primeiro, vi os policias chegando, depois os militares, depois as ambulâncias, os bombeiros. A partir de agora, não usarei mais metrô, virei para o trabalho caminhando, é mais seguro – desabafou.
A polícia logo se mobilizou na caça a suspeitos de envolvimento nos dois ataques, e, na noite desta terça-feira, foram realizadas buscas no bairro de Schaerbeek, onde foi encontrado em um apartamento um artefato explosivo com pregos e um bandeira do Estado Islâmico.
O governo da Bélgica decretou três dias de luto nacional pelos atentados. Líderes de todo o mundo pediram unidade para vencer o terrorismo após os ataques.
"A União Europeia (UE) chora as vítimas dos ataques terroristas em Bruxelas. Foi um ataque contra nossa sociedade democrática aberta", declararam os 28 líderes da UE, assim como os titulares das instituições europeias, em comunicado conjunto pouco habitual.
O secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, classificou os ataques como "desprezíveis" e "expressou sua solidariedade ao povo e ao governo belgas". Em discurso transmitido pela televisão, o rei Filipe da Bélgica resumiu a dimensão trágica e histórica dessa terça-feira:
– Este 22 de março nunca será um dia como os outros.





