
A ameaça do impeachment leva a uma mudança radical na postura do PT. Acentuadas pela crise permanente de um governo sem popularidade, as cizânias internas ficam temporariamente de lado. Engolfado pela Operação Lava-Jato e pelo desempenho anêmico da economia, o partido reencontrou bandeiras perante a militância: defender seu legado, o mandato da presidente Dilma Rousseff e liquidar com Eduar­do Cunha (PMDB-RJ).
Ministros, parlamentares, integrantes da executiva nacional e assessores diretos de Dilma concordam que Cunha, ao aceitar o processo de afastamento na quarta-feira, colocou a sigla em um momento crucial nos seus quase 36 anos de história. Ou PT abafa o impeachment e sai fortalecido, ou sofre uma debandada a partir da queda da presidente da República.
- A situação deixa as relações nítidas dentro do PT e dos partidos da base. Ficará quem confia no nosso projeto de desenvolvimento do país - afirma o deputado Paulo Pimenta (PT-RS).
O atual cenário desafia uma legenda que sofre com o desgaste natural pelos 13 anos de poder. Sangrando com a Lava-Jato, o PT tem deputados, senadores e ministros investigados. As contas das campanhas de Dilma são questionadas e o cerco ao ex-presidente Lula aumenta, enquanto a fragilidade no Congresso tornou o Planalto refém do PMDB. O escudo fornecido por Renan Calheiros (PMDB-AL) no Senado é a barreira que ajuda a sustentar as dificuldades vividas na Câmara. Sem o apoio do cacique alagoano, a revisão da meta fiscal não teria sido aprovada na quarta-feira, por exemplo, paralisando o governo.
PT convoca militância e setores da sociedade para defender mandato de Dilma
Pesa na atual crise a crítica falta de coordenação do palácio. Ao longo de 2015, parlamentares relatam que se acostumaram a ouvir discursos divergentes de integrantes da área política, que já está em sua terceira formação no ano - teve Pepe Vargas (PT-RS) e Aloizio Mercadante (PT-SP), Michel Temer e Eliseu Padilha (PMDB-RS) e está com Jaques Wagner (PT-BA) e Ricardo Berzoini (PT-SP), titulares da Casa Civil e da Secretaria de Governo.
- Um ministro diz A e outro diz B. Melhorou com Wagner e Berzoini, mas ainda há ruídos na comunicação - reclama um parlamentar.
A falta de sincronia cobrou seu preço no primeiro ano do segundo mandato de Dilma, que em janeiro ignorou os conselhos de Lula. Na eleição para presidência da Câmara, a ala lulista do PT defendeu uma aliança com Cunha, nos moldes do pacto firmado com Renan no Senado. O Planalto optou por candidato próprio (Arlindo Chinaglia), foi derrotado e criou a fragilidade permanente na Câmara.
O fracasso forçou Dilma a delegar a articulação política ao PMDB, na figura do vice Michel Temer, o que ampliou o descontentamento dos petistas, que já torciam o nariz para o ajuste fiscal liderado pelo ministro Joaquim Levy (Fazenda). A crítica ganhou ressonância entre intelectuais e movimentos sociais ligados ao PT.
Na reforma administrativa, Dilma bateu com uma mão e afagou o partido com a outra. Ampliou o quinhão do PMDB na Esplanada, que levou o Ministério da Saúde, e retirou Aloizio Mercadante da Casa Civil, conforme desejava Lula. Temer saiu da articulação, Wagner e Berzoini desembarcaram no palácio e os petistas voltaram a se sentir "protagonistas".
As mudanças no quarto andar do Planalto, centro da área política do governo, são elogiadas. Os parlamentares passaram a ser chamados com mais frequência para reuniões. Porém, a unidade ainda está longe do desejado.
- Partido, governo e os parlamentares precisam atuar sintonizados, pois são indissociáveis - diz Humberto Costa (PE), líder do PT no Senado.
Em busca de apoio, Planalto prepara encontro com governadores
A alta da inflação e do desemprego, somada a um ajuste fiscal sem a eficiência esperada, ampliou as discórdias internas. Até a terça-feira, quando petistas discutiam aliviar ou não Cunha no Conselho de Ética em troca do engavetamento do impeachment, deputados se diziam cansados. Pesava a preocupação por salvar a própria carreira política. O impeachment virou o quadro.
- Quando vem o inimigo, deixamos as picuinhas de lado e vamos para o confronto. Esse é o legítimo PT - assegura o deputado Dionilso Marcon (PT-RS), forjado no movimento campesino.
Dentro da legenda, corre a opinião de que a amea­ça de derrubada deflagrou o processo de reunificação entre partido, governo e bancadas. O clima é de um exército pronto para guerra, incentivado pelo discurso firme de Dilma.
- Eu vou lutar contra esse pedido de impeachment - bradou a presidente na sexta-feira.
As críticas ao ajuste fiscal ficaram em segundo plano, as manobras para derrubar os ministros Joaquim Levy (Fazenda) e José Eduardo Cardozo (Justiça) esfriaram. Correntes que divergem se aproximam. O campo majoritário, representando na tendência Construindo um Novo Brasil, conta com o empenho do ex-governador Tarso Genro (PT-RS), um dos principais nomes da Mensagem.
- Deveríamos agradecer ao Cunha - ironiza um líder da sigla.
Objetivo é reatar alianças com sindicatos e movimentos sociais
Em sua atuação, o PT também retoma o diálogo com movimentos sociais e centrais sindicais, desgostosos com a política econômica. Na sexta-feira, a CUT promoveu ato em defesa de Dilma em Brasília. São esperadas novas manifestações nas ruas de MST, MTST e centrais, além de apoios públicos de entidades como a CNBB. Juristas petistas atuam para tentar, a cada avanço do impeachment no Congresso, brecar o processo via Supremo Tribunal Federal (STF).
- Esse golpe será barrado. Entraremos com várias ações - assegura o deputado Wadih Damous (PT-RJ), ex-presidente da OAB do Rio de Janeiro.
O discurso entre Planalto, executiva e parlamentares foi alinhado. As futuras notas da legenda, assinadas pelo presidente Rui Falcão, devem ser discutidas antes com governo e líderes das bancadas, para evitar constrangimentos como as manifestações do presidente do partido pedindo votos contra Eduardo Cunha. A estratégia retórica do PT aposta na tese do "golpe", "defesa da democracia" e na tentativa do PSDB de promover o "terceiro turno da eleição".
- O PSDB, se quiser voltar ao poder, que apresente um programa apoiado pela população e vença as eleições em 2018 - provocou o líder do PT na Câmara, Sibá Machado (AC).
Desde quarta-feira, criou-se uma espécie de comitê permanente para avaliar a tramitação do impeachment. Deputados procuram colegas de outros partidos com os quais têm afinidade na busca dos 172 votos no plenário que vão sepultar o processo. Na mesma operação, costuram para angariar os votos no Conselho de Ética e no plenário para cassar o mandato de Cunha. O presidente da Câmara não tem mais refresco.
- O chantageador-mor da República será cassado - afirma o deputado Henrique Fontana (PT-RS).
Para recuperar a solidez
Ameaça de impeachment une os principais atores do PT em torno de novas metas e objetivos claros
Dilma
A política econômica e a relação difícil com o Congresso implodiram a imagem da presidente, alvo de críticas do próprio partido. O cenário é complicado pela demora no ajuste fiscal e pelas altas da inflação e do desemprego. Doações para sua campanha são questionadas na Lava-Jato, e as investigações se aprofundam sobre a compra da refinaria de Pasadena. Ameaçada de impeachment, Dilma tenta dar uma guinada. No círculo de confiança, tem o assessor Giles Azevedo e o ministro José Eduardo Cardozo (Justiça).
Lula
Ele e Dilma tentam deixar de lado as diferenças. Afastado de Dilma no início do segundo mandato, Lula voltou a ganhar espaço na reforma ministerial. Conseguiu substituir Aloizio Mercadante por Jaques Wagner na Casa Civil, tirou Miguel Rossetto e recolocou Ricardo Berzoini no palácio. Apesar do cerco da Lava-Jato, deve intensificar as viagens em busca de apoio contra o impeachment. O discurso será pela defesa da democracia.
Rui Falcão
Presidente do PT, conturbou as relações do partido com o governo e o parlamento. Suas manifestações sobre a prisão de Delcídio Amaral (PT-MS) e o processo contra Eduardo Cunha (PMDB-RJ) foram alvos de críticas internas. Já entre os militantes, a posição foi saudada. O clamor para que os deputados votassem contra Cunha foi considerado decisivo no acolhimento do pedido de impeachment. Próximo de Lula, deve afinar o discurso com o líder, usando a defesa da democracia como argumento.
Movimentos sociais
A relação com os movimentos sociais se deteriorou com a política econômica adotada na virada do mandato. Aliados históricos se manifestaram contra o ajuste fiscal, personificado na figura do ministro Joaquim Levy (Fazenda). Diante da ameaça de impeachment, o governo conta com o apoio de movimentos como as centrais sindicais, MST, MTST, UNE e CNBB.
Jaques Wagner e Ricardo Berzoini
Próximos de Lula, os ministros da área política respondem pela ligação do ex-presidente com Dilma. Conduzida por ambos, a articulação para impedir que Eduardo Cunha aceitasse o pedido de impeachment fracassou. Desde a noite de quarta-feira, Wagner e Berzoini conversam com colegas de legenda, líderes de partidos da base e demais ministros, que não asseguram apoio integral das bancadas na defesa do mandato de Dilma.
Bancadas no Congresso
Com 60 deputados, a bancada da Câmara passou ao largo da Lava-Jato, mas vive um racha interno entre a corrente CNB, alinhada ao Planalto, e o mais rebelde "grupo dos 35". No Senado, o partido foi atingido com força. São investigados no STF Humberto Costa (PE), Lindbergh Farias (RJ), Gleisi Hoffmann (PR) e Delcídio Amaral (MS), primeiro senador preso no exercício do mandato. É mais homogênea que a da Câmara, mas Walter Pinheiro (BA) e Paulo Paim (RS) colecionam votos contrários ao governo. Contudo, defenderão o mandato de Dilma.





