
Há centenas de movimentos separatistas no mundo. Só na Europa, há mais de 100. Enquanto uns são inexpressivos, outros balançam a estrutura do continente. Em 18 de setembro, um referendo na Escócia pode fazer o país deixar o Reino Unido. No último domingo, uma pesquisa do instituto YouGov indicou a vitória da secessão por dois pontos (51%-49%), preocupando o governo britânico.
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Em 9 de novembro, outra região europeia que busca autonomia há três séculos tem uma consulta popular sobre autodeterminação marcada: a Catalunha. O referendo acontece sem um acordo com o governo espanhol, que considera a consulta inconstitucional. Outras regiões - como Veneza, na Itália, Flanders, na Bélgica e o País Basco, na Espanha - também buscam a independência dentro do continente. Entenda mais sobre esses movimentos:
Escócia
O que está acontecendo?
Um referendo sobre a independência da Escócia irá ocorrer dentro de uma semana. Quando a consulta foi convocada, em 2012, os partidários da independência eram minoria e, por isso, o movimento não gerou preocupação no governo britânico. No entanto, no último domingo, uma pesquisa apontou que os separatistas podem vencer com 51% dos votos.
Em resposta, o governo britânico faz campanha pela união e promete um plano para dar maior autonomia para os escoceses - o que foi considerado um "suborno de última hora" pelo chefe do governo local, Alex Salmond.
Qual a origem do movimento?
A luta por uma Escócia autônoma e independente da Inglaterra é quase tão antiga quanto o começo da história escrita do país, no início do milênio passado. Depois de séculos de tensões, o país se uniu à Inglaterra em 1707, criando o Reino Unido da Grã-Bretanha. Porém, ideias separatistas sempre fizeram parte da cultura do país.
Em 1998, por meio do Scotland Act, o país ganhou mais autonomia e o parlamento escocês foi reaberto. O órgão tem competência para áreas como educação, saúde, meio ambiente, segurança interna e justiça nacionais, o que têm ajudado a manter uma identidade nacional forte no país. Para Cezar Roedel, Mestre em Relações Internacionais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e professor da Faculdade América Latina, este é um movimento principalmente nacionalista e ideológico.
Quais seriam as consequência politico-econômicas da separação?
Se o "sim" vencer o referendo, irá iniciar um processo longo de negociação entre Escócia e Reino Unido, explica Roedel. Muitos assuntos teriam que ser tratados, principalmente em relação à moeda, que o governo escocês já afirmou que gostaria de manter, e em relação às reservas de petróleo no Mar do Norte.
Além disso, o país poderia vir a perder estabilidade e segurança, pois, pelo menos em um primeiro momento, deixaria grupos como a União Europeia, a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) e a Organização das Nações Unidas (ONU). Além disso, os escoceses teriam que criar instituições que não possuem, como Banco Central e Forças Armadas.
Em relação a questões internas, o Partido Nacional Escocês, que controla o país e defende a independência, quer se livrar das armas nucleares, ajustar o salário mínimo de acordo com a inflação e iniciar uma expansão abrangente das creches.
Catalunha
É realmente possível que a região se separe da Espanha?
A Independência da Catalunha é improvável. O professor Roedel explica que, mesmo que o "sim" ganhe no referendo, o pleito não tem validade jurídica - já que é inconstitucional. A vitória geraria um impasse jurídico, pois, para a Catalunha se tornar um Estado, é necessário que tenha, além do reconhecimento de toda a população, o reconhecimento de outros países, que não deve acontecer.
A proximidade do referendo escocês esquentou o movimento separatista da Catalunha onde quase dois milhões foram às ruas nesta quinta-feira. Foto: Quique Garcia / AFP

O que está acontecendo?
Em 16 de janeiro, o Parlamento catalão aprovou o pedido de plebiscito sobre a independência da região. Porém, o governo espanhol declarou o referendo inconstitucional. Na última terça-feira, o presidente do partido separatista catalão ERC, Oriol Junqueras, defendeu a desobediência civil caso a Espanha proíba a consulta que deve acontecer em 9 de novembro.
Qual a origem do movimento?
A Catalunha, localizada no nordeste da península Ibérica, foi incorporada definitivamente ao então Reino da Espanha em 1714. Em 1931, a Catalunha foi reconhecida como comunidade autônoma, mas perdeu o status no fim da Guerra Civil Espanhola, em 1939. A Catalunha, então, passou a sofrer forte repressão cultural e linguística, incluindo a proibição do idioma catalão. A autonomia só foi recuperada em 1975, com o fim da ditadura na Espanha. Apesar da conquista, o movimento pela independência se manteve forte no país.
Atualmente, a Catalunha é uma comunidade autônoma com autosuficiência legislativa e competências executivas. Ela é uma das regiões espanholas com maior sentimento nacionalista e de pertencimento a um território independente: tem um idioma, o catalão, e goza de um amplo autogoverno.
E se a Escócia se separar?
A possibilidade de a Escócia conquistar a independência já fez a Crimeia exigir o mesmo reconhecimento e aqueceu o movimento separatista na Catalunha. Roedel explica que se a Escócia vier a conquistar a independência, deve gerar uma onda de comoção social e fortificar os outros movimentos da Europa, como o do Pais Basco, o de Córsega, na França, e o de Flenders, na Bélgica. Seria um estimulo a outros nacionalismos. Apesar dessa fortificação dos movimentos nacionalistas, é muito improvável que movimentos separatistas europeus voltem a ser violentos, como aconteceu na Irlanda e no País Basco, onde o grupo ETA largou as armas em 2011
*Zero Hora

