Era 1964 quando Carlos Heitor Azevedo - um militante brizolista que escrevia em um jornal de esquerda - fez "uma coisa besta de guri". Acabou encarcerado no Dopinha, o casarão amarelo da Rua Santo Antônio.
Casarão foi testemunha de interrogatórios e tortura de presos políticos
Carlos Heitor tinha 26 anos. Pegou o Fusca vermelho do pai e saiu a panfletar em frente aos quartéis de Porto Alegre. Queria convencer os jovens militares a se rebelarem contra o golpe que recém instaurara a ditadura. Só que esqueceu de esconder a placa do carro. Dois dias depois, foi capturado na porta de casa, na Avenida Independência.
Um policial o colocou no banco de trás de um automóvel e, de lá, rumaram para o Departamento de Ordem Política e Social (Dops), na esquina da João Pessoa com a Ipiranga.
- Fiquei no Dops da manhã até o fim da tarde. Era empurrão para lá, empurrão para cá, até que me levaram ao Dopinha.
Naquela época, Carlos Heitor iniciava sua trajetória de empresário da noite. Fundou o Crazy Habbit, a Vila Velha e a Baiuca, que mudaram a vida noturna da Capital. Hoje, aos 74 anos, vive em Torres e é colunista do Jornal do Mar. Nesta entrevista, ele conta como era o Dopinha por dentro - e o que ocorria nas dependências do casarão.
Zero Hora - O que o senhor viu quando entrou no casarão?
Carlos Heitor Azevedo - O carro entrou em uma garagem comprida, uma espécie de túnel subterrâneo. No fundo do túnel, me mandaram descer. Tinha sete ou oito presos ali, e as paredes eram pintadas de sangue. Nós ouvíamos gritos, urros, choros desesperados. Não sabíamos de onde vinham os gemidos. Depois que fui liberado, concluí que o sangue devia ser de galinha ou algo assim. Os gritos, talvez fossem gravações. A ideia era nos horrorizar. Aquilo já era tortura.
ZH - Eram instalações precárias?
Carlos Heitor - A gente ficava na penumbra, sentado em bancos de pedra, junto às paredes. E a maioria dos prisioneiros era homem. Não lembro, talvez tivesse uma ou duas mulheres. Para ser sincero, eu esqueci muita coisa de propósito. Foi uma situação dolorosa, eu bloqueei muita coisa da minha mente. Me lembro que, depois de quatro ou cinco horas naquele porão, me levaram para uma pequena sala no andar de cima da casa.
ZH - Para interrogá-lo?
Carlos Heitor - Sim. Eram brutais, ameaçadores. Queriam que eu dissesse quem frequentava o clube, com quem me reunia. Me deram uns croques, uns encontrões. Não me torturaram, falei que meu pai (Pedro Camargo de Azevedo) era deputado e jornalista. Mas fizeram uma demonstração de força que, sinceramente, a gente se acovarda todo. A gente fica sem reação. Contra a força, não há resistência. Nem porcos eles deviam tratar daquela forma.
ZH - Depois do interrogatório, para onde levaram o senhor?
Carlos Heitor - Me levaram para baixo de novo. E me atiraram em uma sala que servia de quarto, com mais três ou quatro pessoas. Era ao lado do porão, parecia uma lavanderia. Fiquei dois dias lá. Não tinha colchão, ficávamos sentados no chão, cochilávamos quando era possível. Na verdade, ninguém pensava em dormir. De vez em quando, eles chamavam alguém para ser interrogado de novo. Mas, antes de chamarem, nós ouvíamos aqueles sons de novo, os gemidos e gritos.
ZH - E comiam o quê?
Carol Heitor - Não lembro de nada sobre comida. Parece que tinha pão. Acho que água, talvez.
ZH - Como o senhor saiu de lá?
Carlos Heitor - Meu pai era um deputado que apoiava o regime militar. Quando ele soube da minha prisão, pediu ajuda para outro deputado, o Delmar de Araújo Ribeiro, que era delegado de polícia. O Delmar Ribeiro pressionou as instâncias superiores e me libertaram. Ele e o meu pai foram me buscar de carro no Dopinha.




