
O transtorno do jogo — também conhecido como ludopatia — é um problema de saúde que afeta milhões de pessoas em todo o mundo. No Brasil, conforme pesquisa da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), com base em dados do Levantamento Nacional de Álcool e Drogas de 2023, cerca de 10,8 milhões de pessoas com 14 anos ou mais jogam de forma arriscada ou problemática.
Hoje, cerca de 3 milhões de brasileiros convivem com o vício em jogos de aposta, como as esportivas, conhecidas como bets. O transtorno fica atrás apenas da dependência de álcool e tabaco e é classificado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como um transtorno mental e comportamental.
O médico psiquiatra Pedro Paim explica que a ludopatia integra o grupo dos transtornos aditivos sem uso de substâncias (como transtorno alimentar, dependência à internet e ao smartfone). Segundo ele, durante muito tempo houve debate sobre a melhor forma de classificá-la: se como um transtorno do controle dos impulsos ou como uma variação do transtorno obsessivo-compulsivo.
Com o avanço do conhecimento sobre o tema, porém, observou-se que a ludopatia compartilha mais características com os transtornos aditivos do que com os transtornos do controle dos impulsos. Por isso, hoje é compreendida como um comportamento aditivo, marcado pela dificuldade de interromper o ciclo de apostas mesmo diante de prejuízos pessoais, financeiros e sociais.
— Fazendo uma analogia, é o equivalente ao uso abusivo de álcool. Uma coisa é consumir de forma pontual, sem maiores prejuízos; outra é desenvolver um padrão repetitivo de comportamento autodestrutivo relacionado às apostas — afirma o psiquiatra.
Perigo a um clique
Legalizadas em 2018 e regulamentadas em 2023, as bets movimentaram mais de R$ 22 bilhões no Brasil em 2025. Com a popularização das apostas esportivas, o risco passou a estar a apenas um clique. No segundo semestre de 2025, os aplicativos de apostas foram baixados 34,3 milhões de vezes no país, que respondeu por 30% dos downloads desse tipo de aplicativo no mundo.
Para Paim, a facilidade de acesso é um dos principais fatores que contribuem para o agravamento do vício em jogos.
— Hoje, as apostas estão no celular, um dispositivo que está sempre à mão. Essa disponibilidade constante potencializa o comportamento compulsivo — explica.
Segundo o médico, os casos de jogo compulsivo cresceram de forma expressiva após a regulamentação das apostas. Ele afirma que a demanda já existia, mas em escala muito menor, e que o número de pacientes com esse problema aumentou de forma "estrondosa" desde a liberação da atividade.
Apostas esportivas
Durante a Copa do Mundo de 2026, a intensa exposição às propagandas de casas de apostas elevou o número de depósitos realizados em função da competição. Naquele período, os brasileiros apostaram quase R$ 1 bilhão nas bets, conforme levantamento da Klavi.
Em 2025, o Ministério da Fazenda lançou uma ferramenta que permite que usuários realizem uma autoexclusão do seu CPF de sites de apostas. E, embora os pedidos de autoexclusão tenham aumentado durante o torneio em mais de 500%, conforme o órgao, o setor também registrou crescimento de 300% no número de apostas realizadas ao longo do Mundial.
Para Paim, esse cenário de exposição intensa foi especialmente nocivo para quem tenta se recuperar do vício.
— Houve comentários que assistir aos jogos foi muito difícil porque havia propaganda de bet o tempo todo. Durante as transmissões, os apresentadores davam sugestões diretas de como apostar, mostrando as odds (probabilidades). A publicidade de cigarro é proibida em eventos esportivos e culturais, mas bets e álcool são permitidos. Isso desestrutura não apenas o indivíduo, mas todo o entorno dele — afirma.
Como é feito o diagnóstico do vício em jogos?
Para o diagnóstico do transtorno do jogo, é necessário que os sintomas estejam presentes por, no mínimo, 12 meses. Um episódio isolado — como apostar uma única vez e sofrer uma grande perda financeira — não é suficiente.
De acordo com Paim, o paciente deve preencher pelo menos quatro dos nove critérios diagnósticos:
- Apostar quantias cada vez maiores para obter a mesma sensação de euforia
- Sentir irritabilidade ou inquietação ao tentar reduzir ou interromper as apostas
- Fracassar repetidamente nas tentativas de controlar, diminuir ou parar de jogar
- Apresentar preocupação excessiva e pensamentos recorrentes sobre apostas passadas ou futuras
- Jogar em um contexto de humor disfórico, ansiedade, depressão ou outro sintoma psiquiátrico
- Tentar recuperar as perdas apostando ainda mais dinheiro
- Mentir para familiares e pessoas próximas para esconder ou minimizar as perdas
- Sofrer prejuízos decorrentes do jogo em áreas importantes da vida, como relações familiares, amizades, trabalho e lazer
- Recorrer a empréstimos (bancos, familiares/amigos, agiotas) em razão do esgotamento financeiro
Tem tratamento?
Diferentemente das drogas ilícitas, o jogo está inserido em um contexto de ampla aceitação social — assim como ocorre com o álcool —, cercado por publicidade constante e facilitado pelo acesso simples por meio do celular.
Por se tratar de um transtorno aditivo cuja lógica de tratamento é semelhante à das dependências químicas, a recuperação é um processo permanente. Uma vez desenvolvida a dependência, os circuitos cerebrais relacionados ao vício sofrem alterações, tornando inviável qualquer retomada segura das apostas.
Segundo o especialista, a recomendação é a abstinência total.
— O ideal é eliminar qualquer possibilidade de acesso às plataformas de apostas. Isso inclui excluir aplicativos, bloquear sites e criar o maior número possível de barreiras para evitar recaídas — orienta.
O médico destaca que, sobretudo no início do tratamento, costuma ser necessário restringir o acesso da pessoa aos próprios recursos financeiros. Isso pode envolver retirar temporariamente a gestão de aplicativos bancários, Pix e cartões de crédito, delegando essa responsabilidade a alguém de confiança.
Essa medida é importante porque há pacientes que, mesmo obtendo acesso à conta por poucas horas para resolver um assunto pontual, acabam recaindo por não conseguirem controlar o impulso de apostar.
— O tratamento pode incluir psicoterapia e medicamentos que auxiliam no controle dos impulsos. Mas não existe uma solução definitiva nem um remédio capaz de resolver o problema sozinho. Os medicamentos podem ajudar o paciente a refletir antes de apostar, mas a decisão final continua dependendo dele. Como a tentação está sempre à mão, especialmente no celular, o risco de recaída é muito elevado — diz.
Jogadores Anônimos
Uma alternativa de apoio são os Jogadores Anônimos, grupos que seguem o modelo dos 12 passos, semelhante ao utilizado pelos Alcoólicos Anônimos. Para os familiares desses jogadores, também existem grupos específicos destinados ao acolhimento e orientação.
É comum que jogadores patológicos com dependências múltiplas também participem de grupos de 12 passos voltados para outras formas de dependência, especialmente relacionadas ao álcool e à cocaína, bem como de grupos direcionados ao manejo de dificuldades financeiras e do endividamento decorrentes do comportamento aditivo. Segundo Pedro, são pacientes difíceis que, em geral, só buscam tratamento sob extrema pressão, motivados por ultimatos diante de consequências severas, como divórcio ou processos judiciais.
— Eles esperam intervenções quase mágicas e frequentemente abandonam o tratamento quando esses "milagres" não acontecem. Muitas vezes assumem o papel de paciente apenas superficialmente, permanecendo intimamente convencidos de que uma mudança de sorte e uma melhora no fluxo de dinheiro são tudo o que precisam para resolver o problema — diz o psiquiatra.
Onde procurar ajuda?
Se você está procurando ajuda – pessoal, para um amigo ou um familiar – encontrar um profissional qualificado pode ser o primeiro passo. Agende e converse com um médico da sua confiança.
Dr. Pedro Paim
Endereço: Rua Padre Chagas, 35 - Sala 403 - Moinhos de Vento
Contato: pedropaim.com.br



