
Aos 24 anos, Ana Vitória Magalhães escreveu seu nome na história do esporte brasileiro. Talvez você não a conheça pelo nome, mas sim pelo apelido. Nas últimas semanas, Tota Magalhães tornou-se a primeira brasileira a disputar o Tour de France feminino.
A carioca percorreu 1.168km dividida em novas etapas da competição, representando a equipe Movistar, uma das principais da modalidade. Apesar de ter ficado longe do pódio em sua primeira participação, a brasileira acredita que é possível vencer uma etapa do Tour em um futuro próximo.
— Eu acho que sim. Eu digo para as pessoas para não terem pressa, mas que eu sei onde eu quero chegar e que, com um trabalho duro e fazendo as coisas bem feitas, eu sei que eu vou chegar. É para não ter pressa, que as coisas vão vir. Minha carreira veio muito rápida. Eu estou há dois anos no profissional, então já estar no Tour de France é coisa para caramba — disse a carioca de 24 anos em entrevista exclusiva para Zero Hora.
A história de Tota com o Tour começa bem antes da brasileira pedalar pelo solo francês. Ela guarda em sua memória um dia em 2004, assistindo ao Tour e tomando um picolé com a camisa do evento.
— Eu sempre coloco algo escrito na minha parede. No final do ano passado eu estava pensando em alguma meta, as Olimpíadas já tinham passado e, para esse ano, a meta era correr um Tour de France. Agora mesmo eu estou em pé no meu quarto olhando para uma plaquinha escrita Tour de France e a data que eu escrevi na minha parede. Estou realmente muito realizada e com fome também de querer cada vez mais — completou.
Momento histórico
Tota viveu um grande momento durante a disputa da quarta etapa. Com um ritmo forte, ela liderou a fuga do pelotão por mais da metade do percurso entre Saumur e Poitiers. Durante 70km, ela e a alemã Franziska Koch lideraram a fuga.
— Eu adoro estar em uma fuga, acho que eu sou uma ciclista com perfil super agressivo. Se tivesse mais alguma menina para ajudar ali na fuga, talvez a fuga teria chegado para o final e teria disputado a vitória. Quando você está na fuga, você está fazendo mais força, mas é um pouco menos estressante. Porque não tem 150 meninas com você em volta. Você acha que talvez você pode aproveitar um pouco mais a sensação de estar num tour, de estar correndo no Tour de France, então foi muito divertido — recorda Tota sobre o momento.
Ainda muito jovem, a brasileira já disputou as principais provas da modalidade. Ela esteve no Giro D'Itália, na Vuelta de Espanha, no Tour de France e também nos Jogos Olímpicos. O último alimenta um sonho especial para Tota:
— (Escolheria ganhar) Olimpíadas. Acho que as Olimpíadas saem ainda mais da bolha do ciclismo. Mais pessoas conhecem as Olimpíadas do que o Tour. Por mais que o Tour dentro do ciclismo seja mais importante, acho que uma Olimpíada com o seu país realmente tem seu valor — finalizou.
Qual foi tua sensação de disputar o Tour de France pela primeira vez?
Tota — É um pelotão muito nervoso, a gente fala que o Tour dentro do ciclismo é muito maior que as Olimpíadas, porque nas Olimpíadas um país como, por exemplo, Itália e Holanda, que tem entre as dez melhores. Em uma Olimpíada só pode levar as quatro e num Tour estão as 10 ali. Acaba que o start list para um Tour de France é sempre muito maior, a mídia por trás também, então o mundo inteiro está assistindo. Tem uma pressão da mídia, dos patrocinadores, realmente é muito estressante, resulta em uma corrida com muito mais quedas, são 150 meninas a 50 km/h. A França é um país que as estradas são técnicas, às vezes com alguns buracos. É super estreito, o que deixa também a briga por posição, por estar na frente do pelote, ainda mais acirrada. É super estressante, mas também muito divertido.
Na quarta etapa, tu conseguiu uma fuga de 74km, liderando o pelotão. Conta um pouco mais como foi esse trecho da prova?
Eu adoro estar em uma fuga. Acho que eu sou uma ciclista com perfil super agressivo. Quando a gente perdeu a nossa líder da classificação geral, já na primeira etapa, a gente sabia que a gente tentaria brigar por vitória por etapa. Foi desde o começo uma estratégia da equipe, e na quarta etapa fui eu ali, tentando brigar. Você acha que talvez você pode aproveitar um pouco mais a sensação de estar num tour, de estar correndo no Tour de France, então foi muito divertido, eu adoro. Foi uma baita experiência e que eu espero que tenha outras oportunidades.
Na tua equipe, tu é gregária, ajuda a líder do grupo. Conta um pouquinho sobre a tua função, por favor?
O ciclismo é o esporte individual mais coletivo que existe. Acaba que você treina individualmente, mas tem só uma que sobe no pódio. Acaba que é um jogo de xadrez, você tem que montar uma estratégia junto com a equipe de deixar a sua líder o mais fresca possível para o final de uma corrida, que é onde ela vai ter que bater o martelo e ganhar a corrida.
Cada equipe larga com sete meninas, cada uma com suas características para o percurso e que, de alguma forma, ajuda a nossa líder. Seja assim, por exemplo, no Tour a gente tinha duas escaladoras, três meninas que eram melhores, que rodam melhor no plano, e tudo para encaixar bem e a nossa líder estar protegida.
Eu sou uma dessas gregárias. A gente tem esse papel de ajudar a nossa líder a ganhar a corrida e no final acaba que a equipe ganha. Por mais que uma suba no pódio ali para receber o troféu, é um resultado super coletivo, tanto que a nossa líder também é super agradecida pelo trabalho e reconhece o nosso trabalho.
Tu achas possível vencer uma etapa do Tour em um futuro?
Eu acho que sim. Eu digo para as pessoas não terem pressa, mas que eu sei onde eu quero chegar e que, com um trabalho duro e fazendo as coisas bem feitas, eu sei que eu vou chegar. É para não ter pressa, que as coisas vão vir. Minha carreira veio muito rápida.
Eu estou há dois anos no profissional, então já estar no Tour de France é coisa para caramba. Tem aquela frase bem conhecida, que talvez você bata em uma pedra mil vezes e a pedra não vai rachar, e depois de três mil vezes começa a aparecer a rachadura.
Eu estou nesse processo, trabalhando, fazendo as pequenas coisas e eu tenho certeza que essa vitória vai chegar, quem sabe no próximo ano. Estou trabalhando para ela.
O que você diria para aquela menina, em 2004, que estava vendo o Tour de France comendo picolé?
Para não deixar de sonhar, sonhar grande. Eu sempre fui uma pessoa que sonhei muito grande. Desde a Olimpíadas, a Tour de France, a estar numa equipe World Tour e trabalhar para caramba. Por mais que, às vezes, as coisas pareçam desandar, é acreditar que vai dar certo.
Ter essa autoconfiança e dizer também que, poxa, eu vou conseguir isso, eu vou conquistar isso. É só questão de tempo. Sonhar e trabalhar que as coisas se realizam. Obviamente, pensando grande, mas também pensando nas pequenas conquistas no meio disso tudo. Você conquista muita coisa.
Como começou a sua paixão pelo ciclismo?
Eu sempre testei todos os esportes. Acho que isso me ajudou muito no processo de formação como criança, adolescente. Joguei futebol a minha vida inteira. E minha família pedala. Eles fazem sempre um pedal de Natal até o Cristo Redentor, aqui no Rio.
E eu falei para a minha mãe. Eu já tinha decidido que eu não ia levar para frente o futebol como profissão. Estava focada mais nos estudos. E pedi para minha mãe para eu participar desse tal pedal de Natal. Ela falou que eu tinha que treinar um pouquinho para acompanhar o ritmo. Aí comecei a treinar de bobeira, fim de semana.
Estava na escola ainda. E participei desse tal pedal. Fiquei nessa de levar o ciclismo como hobby por um tempo até o dia que eu me formei na escola e passei na faculdade, onde você tem ali seis meses. Férias bem prolongadas. E aí falei para o treinador de uma assessoria aqui do Rio que eu queria treinar para ver meu nível. Eu sempre fui muito competitiva. E aí comecei a treinar, pegar gosto realmente para o esporte mais competitivo. Comecei a fazer as provas amadoras e assim foi.
Tu participou dos Jogos de Paris. Como está a preparação para a Olimpíada de 2028, em Los Angeles?
Paris veio como um bônus extra, digamos assim. Eu não esperava. Até levando em conta que eu sou profissional mesmo. Tenho dois anos, dois anos e meio. Foi um bônus que eu abracei como uma aula. Aprendi demais. Entendi a dimensão de umas Olimpíadas, a pressão que vem para um atleta, como a corrida é desenrolada. Mal ou bem, é um pouco diferente das corridas que eu estou acostumada e que são com equipe ali. Você tá aí apresentando o seu país.
Eu vou para Los Angeles com essa bagagem de ter entendido como que funciona o evento e confiante que a gente pode fazer um bom resultado. Quem sabe sonhar com uma medalha. Se eu pensar dois anos atrás, dois anos e meio atrás, que eu teria conquistado já algumas coisas importantes na minha carreira.
Se eu pensar ainda que três anos é mais do que eu já fui como profissional. Acho que posso ser otimista nesse sentido.
A gente vem em um período do esporte olímpico muito forte de protagonismo feminino. Rebeca Andrade, Duda e Patrícia, Bruna Takahashi são alguns dos nomes. Como tu vê essa força feminina?
Eu estou na geração correta, né? Esse boom do feminino está cada vez mais interessante. Se não me engano, nas Olimpíadas tivemos mais medalhas femininas do que masculinas. Acho que mostra o nosso desempenho. Acho que cada vez mais outras meninas também estão sonhando e vendo. Ah, poxa, então eu posso realmente ser uma profissional no esporte, uma atleta profissional. Enfim, Rebeca, Ana Patrícia mostram isso, né? Eu sou uma que está sendo inspirada por elas.


