Desde a infância, Fernando Fontoura de Almeida já demonstrava habilidade com a bola nos pés. Aos 10 anos de idade, quando acompanhou com paixão o Grêmio campeão da América em 1995, quis ser como o centroavante Jardel: um artilheiro. Anos depois, o porto-alegrense conseguiu atingir o objetivo de ser atleta e até de defender o Brasil em um campeonato mundial, mesmo tendo que lidar com algumas barreiras no caminho.
Morador do bairro Mário Quintana, em Porto Alegre, o atleta de 41 anos encontrou no esporte uma forma de vencer os preconceitos. Por ser uma pessoa com Síndrome de Down, passou por situações que preocuparam os pais, Valdo Martins e Silvia Fontoura Souza, e a irmã, Quessia Souza.
Contudo, eles deram de tudo para apoiar o desejo de Fernando de praticar esportes. Assim, jogando na escola, a APAE (Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais), conseguiu se destacar. E o bom desempenho, segundo ele, vem muito também do apoio dos professores.
— Eu sou atleta também da APAE, da minha escola, da minha professora Michelle, do meu professor Alex. Se não fossem eles, eu não estaria aqui, eu não estaria assim — conta o gaúcho.
Por conta do talento, recebeu uma indicação para entrar no Esportes Com Down, clube de Futsal Down de Porto Alegre que disputa competições nacionais.
No time, conquistou a terceira colocação no Campeonato Brasileiro de 2025, disputado no município de Casa Branca, em São Paulo. Na ocasião, recebeu prêmios de artilheiro e jogador revelação, o que surpreendeu até os próprios pais.
— Eu não esperava não, sinceramente (o grande destaque). Surpreendeu — comenta Valdo, orgulhoso do filho.

Chegada à seleção
A ascensão meteórica fez com que o treinador Jardel Soares Machado — que não é o ídolo gremista Mário Jardel de Almeida Ribeiro — avisasse o que viria pela frente: uma chance na seleção brasileira da modalidade. Dito e feito. Em setembro de 2026, o atleta disputaria a maior competição de todas pela até então tricampeã
— Foi uma emoção muito grande para mim, que sou mãe, que venho com ele nesses caminhos. Não tenho nem palavras para dizer o quanto eu sou feliz por ele — diz Silvia sobre a convocação do filho.
Depois, a família iniciou uma arrecadação de fundos para que pudessem pagar os custos da viagem de Fernando ao México, o que deu certo com muito apoio de pessoas desconhecidas.
A Copa do Mundo
O Mundial de Futsal Down foi disputado entre os dias 13 e 20 de setembro em Cancún, no México.
No torneio, Fernando provou seu talento e marcou gols contra Peru e México. A equipe brasileira chegou à final, contra os rivais argentinos. O gaúcho e seus colegas de time não quiseram saber. 10 a 1 fora o baile e uma conquista com 100% de aproveitamento para coroar a primeira convocação dele pela Amarelinha.
— Ganhar da Argentina é melhor ainda. Como é bom de ganhar deles (risos) — lembra Fernando, com alegria.

A mãe conta que seus gritos de comemoração ecoavam pelo bairro Mário Quintana:
— Olha, todos os jogos dele eu assisti. Sabe? É uma emoção. Eu falar dele, já me emociono. Então, nossa, cada gol que ele fazia era um grito que acho que toda a casa estremecia — fala Silvia.
Incentivo a outros atletas
Valdo, Silvia e Quessia acreditam que a adesão ao esporte depende muito do apoio da família:
— Se essa gurizada tem vontade de jogar, são os pais que têm que puxar por eles. Caprichar e ajudar — opina Valdo.

Os pais se emocionam ao opinar sobre o que poderia melhorar em relação à forma como as pessoas tratam pessoas com Síndrome de Down:
— Eu acho que deveriam ver as pessoas especiais como são, que não existisse preconceitos. Porque é triste a gente ter o preconceito em cima dos nossos filhos. Que a gente vê, que eles saem na rua e ficam rindo — desabafa Silvia.
— Pois é, tem muita gente caçoando, isso aí não pode acontecer. Todo mundo quer ser feliz — complementa o pai.
Fernando também deixa um recado para os gaúchos com Síndrome de Down que querem praticar o futsal:
— Olha, eles iam se sentir muito bem lá. Bem recebidos. De braços abertos, pra todo mundo lá.
Amor pelo Grêmio
O momento de maior empolgação durante a conversa é quando Fernando lembra do time bicampeão da Libertadores, em 1995, com Jardel como goleador.
— Meu sonho é jogar no Grêmio — diz o tricolor apaixonado.
Em um primeiro momento, a meta aparenta ser algo distante, pois o Grêmio não possui equipes profissionais de futsal. No entanto, Fernando segue alimentando o desejo, afinal, está acostumado a alcançar oportunidades que antes pareciam escassas.
Além disso, o gremista de carteirinha sonha um dia conhecer pessoalmente Jardel, ídolo da vida. A família conta que ele também gosta muito de Renato Portaluppi, por sua história pelo Tricolor.
— Lembro que, quando falaram que o Renato ia voltar, ele pulou de alegria. O Fernando comemorou bastante a volta dele pro Grêmio — diz a mãe.
Os objetivos daqui pra frente
Fernando, que além do futsal pratica dança, teatro e corrida na APAE, surpreende ao falar quais os planos para o futuro:
— É Corrida. Eu faço corrida de 50 e 100 metros. Daí viajo para todos os lugares. Eu já fui pra Aracaju (competir), já fui pra Maceió.
Qual é a história do Mundial de Futsal Down
A primeira edição do Mundial de Futsal Down ocorreu em 2018, em Portugal. O título foi conquistado pela Itália. Esta foi a única vez que o Brasil não participou.
A segunda, realizada em 2019, foi em solo brasileiro. Com sede em Ribeirão Preto, a Seleção Brasileira jogou pela primeira vez a competição, sendo campeã com 100% de aproveitamento, vencendo a Argentina na final por 7 a 5.
Em 2022, o torneio ocorreu no Peru e, mais uma vez, foi conquistado pelos brasileiros com vitórias em todos os jogos. Novamente contra os hermanos, a vitória por 5 a 1 confirmou o bicampeonato.
A terceira edição da Copa do Mundo da categoria foi na Turquia, em 2024. Contra os donos da casa, o Brasil levou a taça pra casa ao vencer o confronto por 7 a 4. Novamente, a Amarelinha venceu o torneio derrotando todos os adversários.
Em 2026 aconteceu a quinta edição do Mundial de Futsal Down, em Cancún, no México. Participaram México, Argentina, Brasil, Portugal, Guatemala e Peru. Pela quarta vez consecutiva, a seleção brasileira venceu a competição.
A campanha brasileira em 2026
Em mais uma campanha com 100% de aproveitamento, a Seleção Brasileira de Futsal Down conquistou o tetracampeonato consecutivo do Mundial da categoria, que foi disputado entre os dias 13 e 20 de setembro em Cancún, no México.
A final foi contra a Argentina e teve o placar de 10 a 1. Essa foi a terceira vez que as duas seleções se enfrentaram em decisões. O Brasil levou a melhor em todas as vezes.
Na fase de grupos, goleou a própria Argentina, por 9 a 3; a Guatemala, por 13 a 2; Portugal, por 7 a 2; o México, por 13 a 3 e venceu o Peru, por 5 a 4.
Nas semifinais, enfrentou os donos da casa novamente e, mais uma vez, goleou. Dessa vez, o resultado foi 10 a 0.
Produção: Caio Mattos, sob supervisão de Marcelo Vicente



