
Associação esportiva LGBTQIA+, o Pampacats denuncia ter sido alvo de ataques homofóbicos durante o Championship de Handebol, torneio amador realizado no domingo (2), em Erechim, cidade do norte gaúcho. O caso foi registrado na Delegacia Combate Intolerância, em Porto Alegre na terça (4).
De acordo com relatos, as ofensas começaram a partir do segundo jogo do time na competição, após uma confusão na partida de estreia. A situação se intensificou a partir da terceira rodada, quando o Pampacats enfrentou o Criticas FC, equipe de Erechim. O time da Capital alega ter sofrido intimidação por parte dos adversários.
A partir desse ponto, as hostilidades teriam escalado. A Brigada Militar foi chamada e compareceu ao Ginásio Municipal Renan Carlos Agnolin. Porém, não ficou no local para a disputa da final entre as duas equipes, após um representante da secretaria de esportes assegurar que as ofensas cessariam.
Durante a partida, diversos insultos teriam sido direcionados contra o Pampacats, tanto por parte de jogadores quanto por parte da torcida. Algumas das ofensas relatas foram as seguintes: "vieram os viadinhos de fora", "vamos, viadinhos", "seus putos", "time daqui não vai perder para viadinhos".
— Entre os torcedores não conseguimos discernir quem foi. As torcidas não eram organizadas, estavam espaçadas pela arquibancada. Não tinha como ver de onde vinham as ofensas — relata Luan Costa, um dos jogadores do Pampacats.
Crime de racismo
O Pampacats também denuncia dois jogadores da equipe adversária como autores da intimidação e dos xingamentos homofóbicos. Na terça-feira (4), foi lavrado um boletim de ocorrência na Delegacia Combate Intolerância, em Porto Alegre.
A prefeitura de Erechim, o Pampacats e o Criticas FC se manifestaram em notas publicadas ao final desta reportagem.
No perfil do Criticas FC, a bio conta com a seguinte descrição. "Elenco safado e baladeiro / Muita marra e pouco futebol".
Desde de junho de 2019, homofobia e transfobia são equiparadas ao crime de racismo, tornando-as imprescritíveis e inafiançáveis. A decisão do Supremo Tribunal Federal define práticas homotransfóbicas como "atos de segregação que inferiorizam membros integrantes do grupo LGBT, em razão de sua orientação sexual ou de sua identidade de gênero.
No ambiente esportivo existem regras de conduta para combater atos discriminatórios. A Lei Geral do Esporte, promulgada em 2023, estabelece que o espectador não pode “portar ou ostentar cartazes, bandeiras, símbolos ou outros sinais com mensagens ofensivas, ou entoar cânticos que atentem contra a dignidade da pessoa humana, especialmente de caráter racista, homofóbico, sexista ou xenófobo”.
História do Pampacats
Fundada em 2017, o Pampacats é uma associação esportiva LGBTQIA+. Chegou a contar com sete modalidades e cerca de 400 atletas. Após a pandemia de Covid, apenas as equipes de handebol masculina e feminina seguem em atividade.
Nota do Pampacats
"A Associação Sport Club Pampacats vem a público manifestar seu total repúdio aos graves episódios de homofobia ocorridos no dia 2 de agosto, durante o Championship Erechim de Handebol, no Ginásio Municipal Renan Carlos Agnolin.
É inadmissível que, em pleno 2026, os nossos atletas sejam alvo de ofensas preconceituosas e tenham que ouvir declarações como “os times da cidade não perderiam para viados”. O esporte é, e deve ser, um espaço de inclusão, respeito e diversidade. Manifestações como essa não ferem apenas a nossa equipe, mas toda a comunidade LGBTQIA+ e os valores fundamentais do espírito esportivo. Homofobia não é brincadeira, não é provocação; é crime.
Exigimos uma postura firme, a apuração imediata dos fatos e providências concretas por parte da Prefeitura Municipal de Erechim e da Secretaria Municipal de Cultura e Esporte (@cultura_esporte.erechim/@pmerechim). Não podemos tolerar que eventos apoiados pelo poder público sejam palco para discriminação.
Seguiremos ocupando as quadras com orgulho, técnica e altivez. O preconceito não nos vencerá.
Respeito no esporte e na vida! "
Nota do Criticas FC
"De início gostaríamos de destacar que a equipe Críticas FC não possui CNPJ,não está estabelecida sobre o modelo de uma associação esportiva, SAF ou clube-empresa (LTDA ou S/A), logo, não há um representante específico para a equipe.
Assente-se que a equipe é uma criação ficta, de amigos, que criaram um grupo informal com o objetivo maior de Lazer, integração social e união de todos pela paixão ao esporte, tudo sem fins lucrativos.
Quanto ás alegações da equipe Pampacats, de terem sofrido intimidação e homofobia no campeonato Municipal de Handebol, realizado no último domingo, dia 02/08/2026, no ginásio Renan Carlos Agnolin na cidade de Erechim, RS, a equipe Críticas FC esclarece que em nenhum momento praticou qualquer ato de cunho homofóbico contra a referida equipe e/ou qualquer um de seus integrantes, reafirmando o seu compromisso com o respeito, inclusão e a dignidade da comunidade LGBTQIAP+, rejeitando e repudiando qualquer forma de discriminação, preconceito, violência ou discurso de ódio, dentro e fora das competições.
O que de fato ocorreu durante o campeonato municipal citado acima foi a penas um momento de tensão emocional e estresse físico relacionado a própria situação de jogo, frente a comumente competitividade e rivalidade existente, onde os times almejam de qualquer forma se sobressaírem como vitoriosos.
Por derradeiro, o atrito ocorreu por desavenças comuns relacionadas a lances da partida, sem motivação baseada em preconceito estrutural, especialmente de cunho homofóbico.
Assim, serve a presente para trazer a real situação fática tanto da equipe, quanto ao que ocorreu na data acima destacada, cabendo novamente ressaltar o compromisso da equipe com o respeito, inclusão e a dignidade da comunidade LGBTQIAP+, rejeitando e repudiando qualquer forma de discriminação, preconceito, violência ou discurso de ódio, dentro e fora das competições.."
Nota da prefeitura de Erechim
"A Prefeitura de Erechim, por meio da Secretaria Municipal de Cultura, Esporte e Economia Criativa, informa que acionou o Conselho Municipal Desportivo (CMD), responsável pela apuração da denúncia apresentada pela Associação Sport Club Pampacats sobre episódios de homofobia ocorridos durante a competição.
Os fatos relatados serão rigorosamente apurados, com a oitiva das partes envolvidas e a análise de todas as informações disponíveis, assegurando o devido processo e o direito à ampla manifestação dos envolvidos. Confirmadas condutas incompatíveis com os regulamentos da competição e com a legislação vigente, as medidas disciplinares e administrativas cabíveis serão adotadas com firmeza.
O Governo de Erechim reafirma seu compromisso inegociável com o respeito, a inclusão e a promoção de um ambiente esportivo seguro, digno e acolhedor para todos os atletas, dirigentes, equipes, árbitros e torcedores. As competições esportivas promovidas e apoiadas pelo Município observam os princípios estabelecidos pelo Código Disciplinar da FIFA, que veda qualquer forma de discriminação.
O esporte deve ser um espaço de integração, respeito e igualdade. Não há espaço para preconceito, intolerância ou qualquer forma de discriminação nas competições do Município de Erechim."



