A palavra "judô" e o sobrenome "Mendes" naturalmente remetem a Moacir Mendes Júnior, ex-atleta da Seleção Brasileira de Judô, campeão Pan-Americano de 2006 e melhor judoca do mundo em ne-waza (luta no chão), em 2012. No entanto, nos últimos anos, a personagem da família Mendes na modalidade mudou. Sarah, filha de Moacir, é uma das maiores promessas do judô brasileiro na atualidade. Uma paixão vinda do sangue e passada de pai para filha.
Hoje com 17 anos, a judoca começou muito cedo na modalidade. Ainda com três anos, na academia do pai, em Canoas, na região metropolitana de Porto Alegre, passou pela Sogipa e chegou ao Grêmio Náutico União, dois dos mais tradicionais dojôs de Porto Alegre.
— A mãe dela trabalhava durante todo o dia e eu tinha minha academia. Ela ficava no bebê conforto, em cima do tatame, olhando o treino. Ela comia, trocava fralda, tudo ali. Pra mim, ela já tava fazendo judô desde que era praticamente uma bebê — recorda o pai de Sarah.
Por muito tempo, a filha foi orientada pelo pai. Sarah era mais uma das pupilas de Moacir, que já treinou nomes como Mayra Aguiar e Daniel Cargnin. O pai lapidou uma joia feita em casa.
— É um privilégio ter ele como sensei, ter ele tão perto assim. Eu sempre tento ter isso na minha cabeça, que eu estou aprendendo com o melhor que tem. Eu peguei gosto para treinar ne-waza (luta no chão). A gente bate muito nessa tecla desde cedo — ressalta a judoca de 17 anos.

Como em toda relação de pai e filha, as coisas têm altos e baixos. Com Sarah e Moacir, não foi diferente. Depois de sentar na cadeira de treinador da judoca por quase 10 anos, a situação mudou a partir de um pedido da jovem.
— Ele sempre foi meu técnico, sempre ficou na cadeira pra mim em todas as minhas lutas. Só que eu tava começando a me sentir um pouco nervosa. Quando ele ficava na cadeira, sentia que às vezes não conseguia lutar do jeito que eu queria. Eu via ele ali na cadeira e ele ficava meio eufórico, começava a ficar muito nervosa. Eu pedi pra ele sair um pouquinho da cadeira e me assistir ali da arquibancada, mesmo e deixar outro sensei pegar ali o lugar dele na cadeira — conta Sarah.
O que parecia apenas uma troca, impactou profundamente no pai.
— É um episódio difícil para eu falar. Virei treinador da Sarah, professor, e esqueci de ser pai. Foi uma coisa que me fez evoluir como ser humano. Foi como se eu tivesse tomado um tiro, assim. Uma sensação bem ruim mesmo. A gente acha que tá fazendo bem, mas não tá. E eu tava sendo mais o treinador, mais o sensei, e tava esquecendo de ser o pai. A gente brinca que eu fiquei de castigo — relata Moacir, atualmente aos risos.
Depois do choque, a relação evoluiu e os dois conseguem conciliar melhor a divisão de papéis: pai e filha, treinador e treinada. Quando o ex-judoca não está junto nas viagens, Sarah costuma ligar antes de qualquer luta, debatem estratégias. Moacir voltou, em alguns momentos, a sentar na cadeira de treino da filha. A sintonia foi encontrada.

O presente
As provas são dadas dentro do tatame. No final de julho, com Moacir nas arquibancadas, Sarah venceu a Seletiva Nacional Sênior da modalidade na categoria até 48kg. A unionista venceu Clarice Ribeiro, do Minas Tênis Clube, em uma das disputas que promete valer vaga para os Jogos Olímpicos no futuro.
Com o resultado, garantiu vaga nos Jogos Sul-Americanos de judô. Agora, projeta sua caminhada até Los Angeles em 2028. A judoca de 17 anos acredita que pode chegar à Olimpíada já na próxima edição.
— Meu maior sonho é uma medalha olímpica, poder participar das Olimpíadas, almejar o primeiro lugar do pódio. Para isso, me inspiro no meu pai. Foi um atleta de altíssimo nível. Minha maior inspiração sempre foi quem esteve perto de mim o tempo todo, desde que eu comecei no judô.


