No tênis de mesa, o som costuma fazer parte do jogo. O toque seco da bolinha na raquete e o quique sobre a mesa costumam marcar o ritmo de cada ponto. Em uma escola na zona norte de Porto Alegre, porém, a dinâmica é diferente. Ali, os movimentos importam mais do que qualquer barulho.
Na Escola Estadual de Ensino Médio para Surdos Professora Lilia Mazeron, o Clube do Tênis de Mesa é guiado pelo olhar atento, pela percepção e pela leitura corporal. Cada troca de bola exige atenção redobrada, conexão entre os jogadores e uma comunicação que vai além da audição.
Coordenado pelo professor Humberto Schmidt, o projeto reúne alunos surdos de diferentes idades e transformou a prática esportiva em um espaço de inclusão, aprendizado e autonomia. Mais do que ensinar fundamentos técnicos, a iniciativa busca ampliar horizontes dentro e fora da escola.
Vice-diretor, Wagner Maidana acompanha o crescimento do projeto desde o início e destaca o envolvimento dos estudantes:
— É um esporte diferente do futebol, eles começaram a gostar e se engajar. O projeto foi crescendo.
Humberto conta que, quando iniciou o trabalho, não sabia Libras — Língua Brasileira de Sinais, modalidade gestual-visual, com gramática própria e não apenas uma representação gestual do português. Aos poucos, passou a aprender para melhorar a comunicação com os alunos e também adaptar a forma de ensinar. No dia a dia, os próprios estudantes ajudam nesse processo.
— Eu ensino o tênis de mesa e eles me ensinam os sinais — resume o professor.
Nasce um campeão

Entre os participantes, um nome passou a chamar atenção rapidamente. Bernardo Ávila, 11 anos, descobriu a modalidade assistindo a vídeos na internet e tentando reproduzir jogadas de grandes atletas, como Hugo Calderano. Hoje, já se tornou campeão gaúcho de tênis de mesa para surdos em 2026.
— Comecei a observar vídeos de outros atletas, analisar e gostar muito do esporte. Depois, conheci o Humberto e ele começou a me ensinar mais — conta Bernardo, por meio de tradutora.
O talento do jovem também abriu novas perspectivas para o projeto. Humberto acredita que o estudante pode alcançar voos ainda maiores:
— A gente quer levá-lo ao campeonato nacional. Ele pode ser o primeiro gaúcho a representar o Estado nessa competição.

Além das conquistas, Bernardo também se destaca pelo convívio nas competições com atletas ouvintes. Segundo o professor, a comunicação nunca foi barreira para ele, mas sim oportunidade de troca e aprendizado entre todos.
Focado, o estudante já projeta novos passos na carreira esportiva:
— Quero participar de campeonatos brasileiros e representar o Rio Grande do Sul. Sonho em ser profissional.
Ajuda de um campeão mundial
Apesar dos resultados, o projeto ainda depende de apoio para custear inscrições, materiais e viagens. Parte dos recursos vem de amigos, famílias e integrantes da comunidade do tênis de mesa. A escola também contribui com estrutura e equipamentos.
A inspiração em Hugo Calderano também ganhou um capítulo especial dentro da escola. Humberto cadastrou o projeto em uma plataforma ligada ao atleta apenas para divulgação, mas acabou recebendo retorno da equipe do mesa-tenista, que enviou borrachas de raquetes utilizadas por ele.

O gesto empolgou os alunos e aproximou ainda mais os jovens de uma referência do esporte brasileiro. Para muitos deles, segurar um material usado por Hugo representou incentivo extra para seguir treinando.
Mesmo diante das limitações, Humberto acredita no potencial transformador da iniciativa e sonha em levar Bernardo a competições nacionais.
— A gente não quer formar só atletas surdolimpicos, a gente quer mostrar os valores do esporte. O tênis de mesa traz muito da ética, do fair-play.
Na Lilia Mazeron, cada ponto disputado vai além da mesa. Entre saques, sinais e trocas de bola, os alunos encontram novas formas de crescer, competir e se conectar com o mundo.



