
O silêncio só era rompido pelo grasnar dos quero-queros. Ou, então, pelos gritos de incentivo daqueles que faziam o caminho inverso, rumo à Rótula das Cuias. Enquanto isso, atletas com o número pendurado às roupas, quase caindo, ainda com alguns quilômetros a nordeste para percorrer, desciam a passos curtos ou mesmo em ritmo de caminhada em direção ao ponto de chegada.
Longe dos gritos de incentivo, das músicas pop nas caixas de som próximas à linha de chegada, os corredores travavam uma batalha silenciosa. O relógio próximo ao Estádio Beira-Rio já marcava quase meio-dia.
Aos atletas amadores, misturavam-se bicicletas e patinetes. Medalha no peito e kit da prova a tiracolo, um dos atletas percorria o sentido contrário, após cruzar a linha de chegada:
— Bora, falta pouco! — incentivava ele, para que os companheiros fizessem o mesmo.
A passos lentos, ombros baixos, expressão cansada, uma das atletas mantinha o ritmo de corrida. Pela ciclovia, sempre a caminho oposto, um ciclista uniformizado tentava trazê-la para a prova:
— Bora, garota!
Parecia que os últimos já haviam passado. A cavalo, três policiais faziam o patrulhamento de uma orla já tranquila. Atrás deles, mais um retardatário: boné, cabelos grisalhos e bandeiras do Rio Grande do Sul e do Brasil às costas. Mais silêncio. O relógio já marca quase meio-dia.
Já não se via quase nada que indicasse que, ainda na madrugada, mais de 10 mil pessoas se aglomeraram na orla para uma prova de quarenta e dois mil e cento e noventa e sete metros.
Porto Alegre já lembrava um domingo nublado comum. De orla fechada para carros e atletas amadores correndo não em provas, mas sozinhos ou acompanhados de seus próprios sonhos, desejos e frustrações, com a corrida como combustível para o que quer que fosse.
"A gente vai terminar de qualquer jeito"
Outro diálogo: dois corredores que não se conhecem. Um passa pelo outro. Já longe de um ritmo de corrida. Mais motivada, a mulher diz ao homem:
— Correndo ou caminhando. A gente vai terminar de qualquer jeito.
Quem corre, quase sempre trava uma batalha interna contra seus próprios fantasmas. Na prova ou fora dela. São 42 mil motivos para desistir. Só uma pra seguir correndo.
Quando já parecia o fim, o fim, de fato. Depois de seis horas da largada, o som das sirenes vindas da rótula das coisas anunciavam a passagem do último atleta.
Já perto do entroncamento da avenida Ipiranga com a Edvaldo Pereira Paiva, três ambulâncias e um carro da EPTC. E um atleta solitário. Viaturas para um lado, corredor para outro. Mais alguns quilômetros. Mais silêncio, e mais incentivos. Fim da Maratona de Porto Alegre.
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