Em 1984, aos 20 anos, Oneide de Souza Figueiredo cruzou a linha de chegada da primeira Maratona de Porto Alegre. Fez o tempo de 3 horas e 42 minutos. Mais de quatro décadas depois, aos 62 anos, ele segue encarando os 42 quilômetros e ajudando a abrir caminhos para corredores cegos no Rio Grande do Sul.
Oneide nasceu com deficiência visual (glaucoma congênito). Tinha visão entre 2% a 3%, que foi perdendo com o tempo. Entre os atletas da modalidade, Oneide é considerado um pioneiro:
— Pelo que eu sei da história, eu fui o primeiro cego a fazer a maratona no Brasil.
Além da trajetória nas corridas, ele também teve papel importante na criação, em Porto Alegre, do projeto Sexto Sentido – grupo que reúne atletas-guia e pessoas com deficiência visual para treinamentos e provas de corrida de rua.
Hoje, o projeto organiza treinos semanais na pista da Redenção e na Orla do Guaíba e prepara corredores para desafios como a 41ª Maratona de Porto Alegre – que ocorrerá no dia 31 deste mês.
A corrida entrou cedo na vida de Oneide. Aos 16 anos, descobriu o potencial para o esporte e começou a participar de provas em Porto Alegre. Depois da maratona de 1984, nunca deixou de correr. As distâncias diminuíram: correu várias meias-maratonas, os 10 quilômetros viraram a preferência, até que decidiu voltar aos 42km recentemente.
No ano passado, completou novamente a Maratona de Porto Alegre. Neste ano, já correu a de Montevidéu, em maio, e voltará a encarar a prova na Capital no fim do mês.
Nos treinos, divide a rotina entre os encontros do Sexto Sentido e a pista do CETE, onde consegue correr sozinho. Morador no Menino Deus, é vizinho da pista de corrida.
— Já tô com 62 anos e procuro manter a alegria de quando tô correndo. Estar com a galera, com vida, na orla, no sol, ouvindo os passarinhos... eu tô vivendo. Isso é uma coisa muito bacana, né? Isso dá vida – disse Oneide, que é casado com uma mulher cega (tiveram dois filhos, ambos sem limitação de visão).
A conexão entre paratletas e atletas-guia

O Sexto Sentido surgiu em Florianópolis e chegou ao Rio Grande do Sul em 2017. A ideia era criar uma rede de atletas-guia para corredores com deficiência visual. Mas havia um problema inicial: faltava contato com atletas cegos no Estado. Foi aí que Oneide entrou na história.
— Eles procuraram o Oneide porque tinham a ideia de guiar pessoas com deficiência visual na cidade, mas não conheciam corredores cegos aqui – conta Luciano, coordenador do projeto.
A partir da conexão com a Associação de Cegos do Rio Grande do Sul (Acergs), o projeto começou a crescer. Hoje, o grupo trabalha para aproximar corredores-guia e atletas cegos, além de buscar apoio para garantir acesso às provas, que é a maior dificuldade que eles enfrentam.
Segundo Luciano Stankowski, coordenador do projeto, a corrida vai além do exercício físico:
— A principal transformação é a autoestima e a qualidade de vida deles.
Nos treinamentos, a formação das duplas leva em conta ritmo, altura e afinidade. Como os atletas correm lado a lado, a sintonia interfere diretamente na dinâmica da prova.
“Ela sabe quando eu estou desmotivado”

Entre as duplas do Sexto Sentido, uma das relações mais antigas é a do corredor Matheus Baldin de Lucas, 37 anos, com a guia Michele Batista Aver, 42. Eles treinam juntos há sete anos.
A corrida apareceu para Matheus primeiro como uma questão de saúde. Depois de enfrentar a obesidade, buscou atividade física no judô antes de migrar para a corrida. Foi através de uma associação de deficientes visuais que conheceu o Sexto Sentido.
— A corrida melhorou a minha saúde. Hoje ela me faz ter mais condicionamento, mais qualidade de vida.
O que começou nos 5 quilômetros virou desafio constante. Vieram os 10km, a meia maratona e, depois, os 42km.
E para treinar para a "mãe" das distâncias, a rotina de Matheus começa cedo. Muito cedo. Morador de Viamão, ele acorda bem cedo para conseguir chegar aos treinos em Porto Alegre.
— Às 4h ele já está acordado. Tem trabalho, tem duas crianças. Pega ônibus e começa a correr às 5h20min. Precisa de disciplina, de foco, essa é a parte mais difícil — conta Michele.
Ela conheceu o projeto por indicação do tio. Resolveu experimentar um treino e nunca mais saiu:
— Guiar é o que complementa a corrida para mim. É um sonho realizada.
Hoje, ela treina com Matheus pelo menos três vezes por semana. Ao longo dos anos, a dupla criou mecanismos durante a corrida. Pequenos movimentos já são entendidos sem necessidade de aviso.
— Ele sabe se eu vou para a direita, para a esquerda. É o tempo treinando junto que faz a gente se adaptar — diz Michele.
Para um corredor cego, porém, completar uma maratona exige mais do que preparação física. É necessário construir confiança com o guia durante meses.
— Existe essa conexão forte entre o deficiente visual e o guia. E ela fica ainda mais forte quando chega na maratona — afirma Matheus.

Para Michele, a presença de corredores cegos nas provas também inspira quem está em volta. Durante as corridas, a dupla costuma ouvir gritos de apoio e comentários de pessoas interessadas em conhecer o projeto.
Entre a falta de acessibilidade e a linha de chegada
Se durante a prova o guia ajuda a enfrentar obstáculos do percurso, fora dela os desafios continuam. Matheus cita a dificuldade de deslocamento, o transporte público e a falta de acessibilidade urbana como barreiras diárias para manter a rotina de treinos.
Mesmo assim, a corrida se transforma em espaço de autonomia, convivência e superação.
Na preparação para mais uma Maratona de Porto Alegre, Oneide observa o crescimento do projeto que ajudou a construir e vê cada vez mais corredores cegos ocupando as ruas da cidade.
Serviço
Maratona Internacional de Porto Alegre
- Meia-maratona - 30/05 - 6h30min (largada)
- Rústicas 5km e 10km - 30/05 - 9h (largada)
- Maratoninha - 30/05 - 11h (largada)
- Maratona - 31/05 - 6h (largada)

