
Entre os mais de 13 mil participantes da meia-maratona da 41ª Maratona Internacional de Porto Alegre, uma história cruzou a linha de chegada carregando muito mais do que os 21 quilômetros do percurso. A prova principal, dos 42.195 metros ocorre neste domingo, a partir das 6h, com transmissão pelo Youtube de Gaúcha Esportes.
Aos 31 anos, Liz de Moura completou a prova neste sábado (30) após uma trajetória marcada por doenças graves, queimaduras e perdas que colocaram sua vida à prova mais de uma vez.
Natural de São Luiz Gonzaga, nas Missões, Liz enfrentou a leucemia pela primeira vez aos 19 anos. Cinco anos depois, quando tinha 24, sofreu queimaduras em 20% do corpo. No mesmo período, voltou a enfrentar o câncer. Mais tarde, desenvolveu uma trombose associada às complicações das queimaduras e à formação de um coágulo sanguíneo.
Sem encontrar alternativas para continuar o tratamento no Rio Grande do Sul, precisou recomeçar a vida longe de casa.
— Não teve mais recursos da área da saúde aqui e eu tive que vender tudo e ir embora para outro Estado. Fui para Cascavel, no Paraná, onde fiz o meu tratamento — relembra.
A recuperação, segundo ela, exigiu muito mais do que cuidados médicos.
— Foi muita fé em Deus. Foi isso que me fez seguir. Eu saí do Estado e fui embora sozinha. Meus pais não puderam ir comigo. Tive que encarar a dura realidade da vida sozinha. Pensei em desistir da vida, sim, pensei. Mas eu pensava nos meus pais, na minha irmã, no meu sobrinho. E a fé em Deus fez eu me curar e hoje estar aqui de volta com o Rio Grande do Sul.
A participação na meia-maratona também teve um significado especial. A prova foi dedicada à amiga Thelminha, companheira no tratamento contra o câncer, que morreu em dezembro do ano passado.
As duas se conheciam havia anos e compartilhavam histórias semelhantes de enfrentamento da doença.
— Eu venci. A cura dela não veio da terra, veio no céu. No dia 25 de dezembro ela descansou nos braços de Deus, e essa corrida é dela.
Durante os quilômetros percorridos pelas ruas da Capital, Liz carregou consigo as marcas obtidas ao longo da vida. Também carregou a certeza de que estar ali já era uma vitória.
— É uma emoção de sentir aquela dor da vitória. Passar pelo câncer três vezes, sentir a dor das queimaduras de um fogo queimando o teu corpo… A corrida é a superação para mim.
Nem mesmo o frio e a chuva que atingiram Porto Alegre na manhã deste sábado diminuíram o significado da conquista. Pelo contrário.
— Com certeza é melhor correr na chuva. A chuva é bênção. Limpa a nossa alma. É renovação, é pureza, é tudo.
Ao cruzar a linha de chegada, Liz celebrou mais do que o fim de uma prova. Celebrou o percurso que a trouxe até ali — um caminho marcado por cicatrizes, despedidas e recomeços, mas que, neste sábado, terminou em vitória.
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