
A Mão Santa parou de pontuar. O invencível cronômetro da vida estourou nesta sexta-feira (17) para Oscar Schmidt, aos 68 anos. Seria fácil escolher um dos seus lances inesquecíveis para ilustrar uma carreira superlativa. Mas era quando as luzes dos ginásios se apagavam que residiam os seus maiores exemplos.
A partida contra a Grécia valia o quinto lugar dos Jogos Olímpicos de Atlanta. Pouco importou a derrota para os gregos. Esvaziada a quadra, 11 gigantes brasileiros fizeram um círculo para reverenciar o camisa 14, em sua despedida olímpica e da seleção brasileira.
— Foi muito emocionante. Éramos um grupo de uns 15 jornalistas brasileiros. Quando ele foi nos atender, ele não conseguia falar. Ele chorava, chorava e chorava. E quanto mais ele chorava, todo mundo chorava junto com ele. Foi uma choradeira. Alguém fazia uma pergunta e ele seguia chorando — relembra Cláudia Coutinho, repórter de Zero Hora à época.
Dois dias antes, outra cena marcante. Barkley, Miller, Pippen, O'Neal, um a um dos jogadores do Dream Team II dos Estados Unidos cumprimentaram Oscar. Naquela noite, o brasileiro nascido em Natal foi mais procurado pela imprensa do que as maiores estrelas do basquete.
— É um dos melhores do mundo — disse O'Neal, sem titubear.
Se um atleta morre duas vezes, como disse Paulo Roberto Falcão, Oscar morreu três. Ao se aposentar da seleção. Ao dar adeus ao basquete. E nesta sexta-feira, as 68 anos.
O amor ao basquete e ao Brasil encontram poucos pares. Aqueles mesmos astros da NBA poderiam ter sido seus companheiros e adversários em quadra.
Em 1984, ele foi escolhido para jogar pelo New Jersey Nets. Recusou a oportunidade. Mesmo que a acepção da palavra amador fosse desgastada no esporte naquela época, arremessar bolas nas quadras da profissional Liga Americana significava abrir mão de vestir a camisa 14 do Brasil. No, thank you.
Inglês fluente também para provocar os ianques. Tivesse o time americano cruzado a frente de Oscar, Marcel e seus companheiros antes, ele teria jogado encestando bolas contra Bulls, Lakers, Celtics...
Aos gritos provocativos de "shoot, shoot", provocou os americanos a arremessarem de longe na final dos Jogos Pan-Americanos de Indianápolis em 1987.
Nenhum daqueles americanos tinha a precisão dele. Amassaram o aro. Em uma virada história, mudou a história do esporte. O 120 a 115 para os brasileiros foi a primeira derrota dos Estados Unidos em casa na história. A primeira vez que sofriam mais de 100 pontos em quatro quartos.
Vexames assim não poderiam acontecer. A regra mudou e as estrelas da NBA passaram a jogar competições organizadas pela FIBA, além dos Jogos Olímpicos.
Os arremessos entravam um a um. De perto. De longe. De muito longe. Da zona morta. Chuuuuuuuuuua! Mão santa que nada! Mão treinada, costumava dizer. Era quando ninguém olhava que estava o seu legado. Treino com afinco. Dia após dias. Um centena de arremessos treinados hoje. Duas, amanhã. Em busca do máximo de precisão que as mãos podem ter com uma bola de basquete.
— Tenho um orgulho danado disso. É isso que me fez jogar basquete. Eu acredito pouco em talento e muito em treinamento — enfatizava.
Marcou 49.973 pontos, recorde mundial quebrado por LeBron James em 2024, em uma carreira iniciada iniciada em 1975 e encerrada em 2003.
1.093 pontos em Olimpíadas somados em cinco Olimpíadas, 55 deles em um único jogo, contra a Espanha, em 1988. Hall da Fama FIBA e Springfield, o berço do basquete.
Oscar está naquele hall de atletas que as grandes conquistas, como Mundial e medalha olímpica, não fazem falta, o que não é pouca honra. A mão santa descansou.




