Uma tempestade geopolítica irrompeu nos Alpes italianos: o Comitê Olímpico Internacional (COI) desclassificou o atleta de skeleton Vladislav Heraskevych dos Jogos Olímpicos de Inverno de Milão-Cortina nesta quinta-feira (12) por querer usar um capacete com imagens de atletas mortos durante o conflito com a Rússia, e Kiev reagiu com indignação.
"O movimento olímpico deveria contribuir para o fim das guerras, não fazer o jogo dos agressores. Infelizmente, a decisão do Comitê Olímpico Internacional de desclassificar o atleta ucraniano de skeleton Vladislav Heraskevych demonstra o contrário", escreveu o presidente ucraniano, Volodimir Zelensky, nas redes sociais.
O ministro das Relações Exteriores, Andriy Sibiga, afirmou que o COI estava manchando "sua própria reputação" e que "as futuras gerações olharão para isso como um momento vergonhoso".
A notícia foi um choque para Milão-Cortina na manhã desta quinta-feira.
"Foi desclassificado", confirmou um porta-voz do Comitê Olímpico Ucraniano.
A entidade internacional afirmou em um comunicado que o atleta "não poderá participar" nos Jogos Olímpicos de Inverno "após se recusar a cumprir as diretrizes do COI sobre a expressão dos atletas".
O COI havia sugerido na terça-feira que o ucraniano utilizasse uma braçadeira preta e não o capacete com as imagens, como medida excepcional, mas o atleta rejeitou a proposta.
"Esta manhã, em sua chegada às instalações da competição, Heraskevych se reuniu com a presidente do COI, Kirsty Coventry, que explicou pela última vez a posição do COI. Como nas reuniões anteriores, ele se recusou a mudar a sua postura", afirmou a entidade no comunicado.
Segundo o porta-voz do COI, Mark Adams, Coventry ficou "profundamente desapontada" por não ter chegado a um acordo. A ex-atleta e dirigente do Zimbábue foi vista em lágrimas ao deixar o local.
"Nestas condições, foi tomada a decisão por parte dos juízes da Federação Internacional (de Bobsleigh e Skeleton, IBSF), com base no fato de que o capacete que ele queria usar não se ajusta ao regulamento", acrescenta a nota.
- "O preço da nossa dignidade" -
Em uma mensagem na rede social X, Heraskevych defendeu seu ponto de vista. "Este é o preço da nossa dignidade", afirmou.
Mais tarde, na zona mista, ele continuou defendendo seu capacete: "Eu não queria causar um escândalo, e esse escândalo surgiu porque algumas pessoas dentro do COI têm uma interpretação muito estranha de suas próprias regras, o que pode ser considerado uma forma de discriminação".
"Vladislav não largou na corrida, mas não está sozinho. Ele tem toda a Ucrânia com ele, e sempre terá. Quando um atleta defende a verdade, a honra e a memória, isso já é uma vitória. Uma vitória para Vladislav. Uma vitória para todo o país", disse o Comitê Olímpico Ucraniano em um comunicado.
O porta-bandeira da Ucrânia na cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos participou na segunda-feira e na quarta-feira nos treinos com um "capacete memorial", segundo o termo utilizado por sua equipe, de cor cinza e com imagens serigrafadas de vários compatriotas falecidos na guerra.
- Neutralidade política -
Em sua coletiva de imprensa diária nesta quinta-feira, o porta-voz do COI insistiu que a organização queria que Heraskevych participasse.
"Isso teria enviado uma mensagem muito forte. Para nós, não se trata da mensagem... trata-se do local. Não podemos aceitar que atletas sejam submetidos à pressão de seus líderes políticos", afirmou.
O COI tem uma norma de não permitir referências políticas durante competições e cerimônias de entrega de medalhas, de acordo com a Carta Olímpica.
Contactado pela AFP na manhã desta quinta-feira na Itália, o Tribunal Arbitral do Esporte (TAS) indicou que até o momento não havia recebido um recurso de Heraskevych, que afirmou estar considerando essa possibilidade.
* AFP


