
A região metropolitana de Porto Alegre aparece como a mais rápida do Brasil, tanto na corrida quanto na caminhada, de acordo com dados do Year in Sport Trend Report, relatório anual divulgado pelo Strava. O levantamento considera o ritmo médio, o chamado "pace", medido em minutos por quilômetro, registrado por usuários da plataforma.
Na corrida, a região lidera o ranking entre as áreas metropolitanas do país, com ritmo médio de 5 minutos e 59 segundos por quilômetro. Na sequência, aparecem Santa Catarina e Paraná. Já na caminhada, os gaúchos também ocupam o topo, com 11 minutos e 3 segundos por quilômetro, à frente de Tocantins e Bahia, que vêm na sequência.
Não é por acaso que Porto Alegre recebeu, em 2025, o título de Capital da Corrida de Rua, concedido pela Câmara Municipal de Porto Alegre. Os números, portanto, levantam uma pergunta inevitável: o que explica essa "pressa" gaúcha? Para treinadores e corredores ouvidos por Zero Hora, a resposta passa por uma combinação de fatores.
O que é o Strava e como o aplicativo chega a esses números?
O Strava funciona como uma rede social voltada à prática esportiva. Na plataforma, o usuário registra atividades como corrida, caminhada, ciclismo e natação, sincronizando geralmente os dados de relógios com GPS (como Garmin e Apple Watch), ou do próprio smartphone.
Além do registro dos treinos, o aplicativo aposta no aspecto social: clubes, grupos, rankings e comparações por trechos transformam o desempenho individual em algo compartilhado.
— Existem desafios no Strava. Eu uso, por exemplo, com a minha equipe: agora estamos no desafio de dezembro, usando a ferramenta para contabilizar os quilômetros de todos os alunos. O aplicativo virou uma grande rede social, a ponto de muita gente brincar que é o "novo Tinder", onde as pessoas se encontram, se conhecem e criam vínculos a partir da corrida — afirma a atleta e treinadora de corrida, Rita Abero, de 52 anos.
Já para a jornalista Larissa Braga Ierque, 29 anos, esse é justamente um dos principais atrativos da plataforma:
— Lá tu consegue montar grupos, seguir pessoas e explorar os clubes, que é a parte mais legal da corrida ali. Às vezes bate a curiosidade: como é que tal pessoa ou influenciador corre, qual é o ritmo, que percurso ela faz. Aí tu vai lá, segue, acompanha os treinos e entende melhor o pace e os trajetos.
No caso dela, a corrida entrou na rotina depois de uma mudança mais ampla de hábitos, iniciada em novembro de 2024.
— Comecei em novembro de 2024 um processo de emagrecimento e mudança de hábitos. Nesse período, perdi 30 quilos. A corrida entrou aos poucos, em março de 2025: no começo eu caminhava mais do que corria. Depois fui me empolgando, primeiro indo uma vez por semana, depois duas, três vezes e agora peguei o gosto — relata.
Relatório do Strava
O Year in Sport Trend Report é elaborado anualmente pelo Strava a partir de dados agregados e anonimizados de usuários da plataforma. O relatório considera apenas atividades registradas voluntariamente e apresenta recortes por país, regiões e modalidades, respeitando critérios de privacidade.
Corrida mais rápida (min/km):
- Rio Grande do Sul: 05min59s
- Santa Catarina: 06min03s
- Paraná: 06min07s
Caminhada mais rápida (min/km)
- Rio Grande do Sul: 11min03s
- Tocantins: 11min04s
- Bahia: 11min06s
O que significa "pace" e por que esse dado importa
O pace representa quanto tempo, em média, a pessoa leva para completar um quilômetro. Mais do que um número para comparação, a métrica ajuda a orientar o treinamento. É o que explica o professor e atleta Rodrigo Quevedo, doutor em Ciências do Movimento Humano.
— Toda vez que um treinador prescreve um treino, ele parte de uma métrica bem definida. A partir do tempo médio obtido em testes específicos, estabelece o ritmo que vai servir como referência para organizar e orientar todo o planejamento do treinamento — afirma.
No caso dos dados do Strava, isso significa que, em média, os corredores da Região Metropolitana levam cerca de 6 minutos para completar cada quilômetro. Quevedo, no entanto, faz uma ressalva sobre a "tentação" de manter esse ritmo em todos os treinos.
— É preciso ter consciência de que, se treinar em ritmo muito forte o tempo todo, o risco de lesão aumenta muito. A chance de se machucar pode crescer em quase 50%. Por isso, é importante variar o ritmo de acordo com a necessidade e a intensidade de cada pessoa.
Locais favorecem os percursos dos corredores

Para entender por que os corredores de Porto Alegre e da Região Metropolitana apresentam um ritmo médio mais rápido, Quevedo aponta uma característica bem local: onde a maioria das pessoas treina.
— Grande parte dos treinos acontece na orla do Guaíba. Muita gente vem de cidades do entorno e acaba migrando para Porto Alegre para treinar ali. É um percurso longo, com cerca de 5 quilômetros só de orla e, se considerar trechos que vão até o Golden Lake, o Centro ou a rodoviária, segue sendo totalmente plano, sem altimetria, o que favorece muito tanto a corrida quanto a caminhada serem mais rápidas — explica Quevedo.
Além da Orla, parques tradicionais e estruturas esportivas funcionam como polos permanentes de treino. Redenção, Parque Marinha do Brasil, Orla de Ipanema, Parque Germânia e o Centro Estadual de Treinamento Esportivo (Cete) concentram corredores e também são planos, facilitando os percursos.
Aumento das assessorias
Quevedo observa que a procura por orientação cresceu e que a expansão das assessorias de corrida se consolidou a partir da década passada.
— Teve um crescimento bem grande de assessorias em Porto Alegre ali por 2010, 2012, mais ou menos. E, como muita coisa está concentrada na Capital, pessoas da Região Metropolitana acabam procurando essas assessorias também pela socialização — relata.
Um formato que ganhou força nesse período são os pelotões, grupos organizados por ritmo, que ajudam a dar mais regularidade aos treinos.
— No fim das contas, correr em grupo faz muita diferença. Um ajuda o outro, puxa o ritmo, motiva nos dias mais difíceis e torna o treino mais constante. É muito melhor do que correr sozinho — diz.
Rita vê esse "boom" da corrida na Capital como parte de uma onda nacional, acelerada durante a pandemia, com o surgimento de grupos que nem sempre têm foco técnico, mas funcionam como espaço de convivência.
— Foi ali que a gente viu nascerem centenas de novos grupos e o surgimento das chamadas "crews", que não são equipes voltadas ao treinamento em si, mas grupos criados para socializar, correr junto e manter as pessoas motivadas — afirma.
Ela também aponta a expansão do calendário esportivo no Estado, caso de eventos como a consolidada Maratona de Porto Alegre, a Poa Night Run e a NB 42K Porto Alegre.
— Vieram muitas provas novas para o Rio Grande do Sul, e muitas usam comunidades no Strava para divulgar, reunir participantes e até propor desafios antes do evento. A maratona virou esse desafio de novas distâncias. Antes, muita gente chegava para emagrecer; hoje, isso não é mais o objetivo principal. Emagrecer acaba sendo uma consequência da corrida — diz.

Do hobby ao competitivo
Se, para muita gente, a corrida virou um hobby, para quem está há décadas no esporte, ela segue sendo encarado de outra forma. É o caso do comerciário Sadi de Quadros, 58 anos, que corre desde a adolescência e compete oficialmente desde 1987.
— A corrida não é apenas um hobby. Para mim é algo sério, com foco competitivo há quase 40 anos — afirma.
Até por isso, o pace, termo que aparece no relatório do Strava, faz parte da rotina dele, que encara a corrida como performance. O foco, a cada treino, é diminuir esse número.

— Todo corredor tem o objetivo de melhorar esse tempo, baixar seus números nas provas. Para isso, a disciplina é fundamental: no treino, na alimentação, em abrir mão de certas coisas, em manter corpo e mente alinhados — resume.
Mesmo com esse olhar mais rígido e competitivo, Sadi vê com bons olhos esse crescimento da cultura da corrida de rua no Estado, hoje muito mais popular e acessível do que quando começou.
— Isso agrega pessoas, une mais gente, um incentivando o outro. Traz mais pessoas para a corrida e engrandece o Estado e a cidade de Porto Alegre. Todas as pessoas que estão ali estão por um objetivo de saúde, por um objetivo de ter uma vida boa — define.


