
Em agosto, Porto Alegre ganhou o título de Capital da Corrida de Rua, um reconhecimento oficial para algo que já era visível nas ruas e comprovado pelo aumento expressivo de eventos e de corredores — até o final de 2025 a projeção é de superar 90 corridas. Quase cem mil atletas já participaram neste ano, e a expectativa é que mais de 150 mil percorram as ruas da cidade até o final de dezembro, sendo três vezes mais do que em 2023, conforme dados da Prefeitura de Porto Alegre.
Da Zona Sul à Zona Norte, nunca se viu tanta gente com o pé no asfalto. Nesse movimento, muitos influenciadores também cresceram — a hashtag "corrida" já foi utilizada mais de 1,4 milhão de vezes — abastecendo seus feeds com conteúdos que inspiram um público cada vez mais interessado em uma vida saudável.
O fator que explica esse aumento "repentino" na produção de conteúdo sobre corrida é o mesmo que explica o crescimento no número de corredores: após a pandemia, o mundo sentiu a necessidade de se tornar mais ativo fisicamente, explica o educador físico Bruno Victor, de 35 anos.
— O conteúdo sobre bem-estar, esporte e exercício físico tem ganhado relevância cada vez maior, em um movimento que consigo observar desde a pandemia, onde um corpo forte e saudável se tornou um ativo e garantiu a sobrevivência das pessoas que foram acometidas de covid — aponta o professor.
É nesse contexto que surge a pergunta: como as redes sociais estimularam mais pessoas a começarem a correr?
Para Bruno, esse ambiente digital funciona como uma vitrine de bem-estar e superação, onde histórias reais acabam motivando iniciantes a darem o primeiro passo. Ele destaca que, ao verem exemplos positivos online, muitas pessoas passam a incorporar hábitos mais saudáveis na rotina — e a corrida surge como uma das práticas mais adotadas justamente pela inspiração que circula nas redes.

Influenciadora influenciada
A influenciadora Duda Blota, que soma mais de 40 mil seguidores no Instagram, é um exemplo dessa força de influência. Ela começou a correr inspirada por uma criadora de conteúdo que seguia, Paola Carrilho, e conta que, embora já tivesse uma base consolidada de seguidores, só percebeu que estava motivando outras pessoas a iniciar no esporte quando começou a receber mensagens relatando justamente isso.
Duda diz ter plena consciência da responsabilidade que carrega diante do público — e afirma que viver com diabetes exige ainda mais cuidado na hora de produzir conteúdo. Em seus posts, ela mostra a rotina e os cuidados específicos que pessoas com diabetes precisam ter para correr, mas também faz questão de discutir como as redes sociais podem criar cobranças e expectativas irreais, que acabam pressionando corredores comuns a atingir desempenhos cada vez maiores.
Ela afirma que sabe do impacto positivo da atividade física na vida das pessoas, mas procura sempre reforçar que cada corpo tem seu tempo, seus limites e suas particularidades. Assim, tenta equilibrar inspiração com realismo, evitando alimentar padrões inalcançáveis ou pressões desnecessárias.

O papel das redes sociais: o “motor” do fenômeno
As redes sociais passaram a oferecer exatamente o que faltava para muita gente: a sensação de que há outras pessoas vivendo desafios e conquistas semelhantes aos seus, como aponta Duda.
Andrêina Garcia Porepp, 25 anos, técnica de enfermagem, acredita que a influência digital é enorme. Ela conta que começou a correr por causa dos conteúdos de Duda Blota:
— Acredito que a influência digital é enorme. Comecei a correr por causa dos conteúdos da Duda Blota — os stories, os posts mostrando que a corrida pode ser saudável e leve, sem cobrança de pace (termo usado para definir o ritmo, a velocidade média) ou tempo. A partir dela, me apaixonei pela corrida e hoje não vivo sem. Virou um estilo de vida: além de correr, criamos amizades, nos conhecemos melhor e entendemos nossos limites. Quem entra nesse mundo sabe: é viciante e difícil de largar.
Ana Laura Portella, 18, também ingressou na corrida por influência das redes. Ela conta que fazia musculação, mas não praticava nenhum tipo de cardio, justamente em uma época em que "ninguém gostava de fazer cardio" nas redes sociais.
Ana seguia a influenciadora Maria Luiza Sanches, que fazia o caminho oposto: quase não frequentava a academia, mas corria — e compartilhava como a corrida havia transformado sua vida.
— Ela falava de forma muito sincera, mostrava quando o treino era ruim e não romantizava nada — lembra Ana Laura.
Conexões e tensões
A relação entre corrida e redes sociais cria um cenário cheio de nuances. De um lado, a internet amplia a visibilidade do esporte e funciona como um estímulo positivo — algo que o professor Bruno Victor destaca ao lembrar que muitas pessoas se inspiram nos conteúdos online e passam a adotar hábitos mais saudáveis, incluindo a prática regular de atividade física e a busca por maior bem-estar.
Essa troca, segundo ele, gera comunidade, inspira rotinas mais equilibradas e ajuda a manter a consistência que, muitas vezes, é o maior obstáculo para quem está começando.
Por outro lado, o educador físico também aponta cuidados necessários para manter o equilíbrio.
— O grande ponto aqui é ter equilíbrio e não deixar que a pressão por performance, seja esportiva ou estética, se torne algo que vá prejudicar a saúde mental da pessoa que está iniciando, afirma o professor. A comparação constante de ritmos, distâncias e corpos cria expectativas que nem sempre combinam com a vida real, e muitos corredores relatam sentir a necessidade de performar, mesmo quando o objetivo inicial era apenas se sentir melhor.
O especialista ainda completa com dicas para quem quer começar no esporte nesse momento digitalizado:
— Minha dica é: se cerque de bons profissionais e de conhecimento. Se interesse pelos processos e tenha paciência com os treinamentos e com os resultados. A corrida é um esporte que te oferece muitas possibilidades e muitas perspectivas para se viver, quem entende isso acaba desfrutando até a velhice.
*Produção: Kimberly Barbosa

