
É comum encontrar histórias de pequenos atletas moldados pela paixão dos pais em esportes como futebol, judô, vôlei e tênis. Modalidades nas quais já foram comprovados os benefícios para o desenvolvimento das crianças.
Jovens se aventurando no fisiculturismo, porém, ainda é novidade para o público geral. Porto Alegre recebe neste domingo (16), na PUCRS, um torneio infantil da modalidade e que despertou curiosidade e questionamentos.
— Como assim, crianças fazendo musculação?
— Isso faz bem para elas?
— E a exposição de mostrar o corpo tão cedo?
São algumas das perguntas que surgem quando se fala no assunto. Zero Hora conversou com pais de um participante e pediatras em busca de respostas.
A Copa dos Campeões é o principal evento do ano no Estado promovido pela Federação Internacional de Fisiculturismo e pela Liga Profissional de Fitness (IFBB) do Rio Grande do Sul. Nas competições dessa entidade não é permitido o uso de anabolizantes, pois a IFBB conta com duas categorias olímpicas em que há exames antidoping.
A procura dos atletas é grande, e a relevância do campeonato cresce a cada edição. Em 2025, pela primeira vez um evento no Estado terá uma categoria infantil, a Children Fitness, para crianças de 6 a 10 anos. Outros campeonatos pelo Brasil e pelo mundo já incorporaram a classe.
— Através dessa primeira aparição das crianças no campeonato, a gente pretende atrair mais adeptos. A maioria já é praticante de algum esporte ou tem pais que são atletas — explica Gabriel Freire, treinador de fisiculturismo certificado pela IFBB.
Ele conta que seu time terá sete participantes infantis. Apesar de ser um torneio, o caráter competitivo fica em segundo plano, segundo Gabriel:
— O nosso intuito é mostrar que somos abertos ao público infantil e direcionar mais a procura para o esporte. Também queremos incentivar os jovens a novos hábitos alimentares e a um estilo de vida mais saudável.
Medalhas para todos
Todos os participantes vão receber medalhas e há um cuidado com a exposição do corpo, com roupas diferentes para crianças, com menos exposição.
— Sempre que uma criança se apresenta, é um show. O público gosta. Esse evento tem tudo para ser marcante, ainda mais para mostrar que o nosso esporte traz ideias de disciplina, determinação e incentiva a prática de atividades físicas — projeta Freire.
Paixão de pais para filho
A família Gnoatto tem o fisiculturismo no sangue. Paulo Roberto, 38 anos, e Vanessa, 35, são atletas da modalidade. Ele é campeão do Mr. Universo na categoria Mens Physique, além de educador físico, assim como a esposa Vanessa, que compete na categoria Bikini Fitness.
Eles são pais de Lucas Gnoatto, que completa 8 anos neste sábado (15). O pequeno tem uma infância bastante ativa, pois pratica diversas modalidades, como futebol e skate. Por influência dos pais, se aproxima cada vez mais do fisiculturismo — pelo menos nas apresentações. Já foram quatro eventos em que Lucas participou – a foto dos pais com ele, que ilustra a matéria, foi enviada pelos pais, que autorizam seu uso. O quinto evento ocorre no domingo.
— Ele não treina propriamente musculação. Eu evito. O Lucas tem uma vida muito ativa no esporte. Se eu o colocasse para fazer a musculação hoje, ele teria condições suficientes, até porque tem consciência corporal de fazer a contração muscular e conhece o nome dos grupos musculares — explica o pai de Lucas.
— Eu não passo treino propriamente dito de musculação, porque ele não gostaria de trocar a infância por algo que exige muita disciplina e causasse dor. Eu quero que o fisiculturismo seja para ele algo bom e que traga ele para dentro do esporte — complementa.
Paulo Roberto sabe que a musculação para a idade do filho, quando feita sem segurança, pode causar problemas no crescimento.
— Eu não posso causar isso. Ele está no processo de crescimento, sabemos disso, e eu não quero colocar ele num treinamento intenso. O Lucas faz os exercícios dele, vendo a gente fazer e repete. Vai um abdominal, um apoio, uma passada, algo mais livre, isso ele faz com certeza, mas eu não exponho ele a isso — pondera.
Orgulho e ensinamentos
A primeira vez que Lucas subiu em um palco foi com quatro anos. O pequeno aprendeu a fazer as poses da categoria Mens Physique, que são as exigidas nos torneios da Children Fitness.
— Eu sinto muito orgulho dessa situação toda. O meu coração, como pai, além do orgulho, passa aquela preocupação para que ele não se frustre, para que ele também se divirta ali. Não quero uma visão de compromisso. A minha maior preocupação é a saúde mental e física dele — conta Paulo Roberto.
Além dos treinos, a dieta é um fator importante na vida de um atleta. No caso de Lucas, mesmo que os pais tenham uma alimentação mais restrita, ele tem liberdade para comer outras coisas, mas já tem gosto por alimentos saudáveis.
Não há ainda indícios de que o pequeno seguirá os passos dos pais e será um atleta de fisiculturismo. O esporte já está na sua vida, com os exemplos da modalidade.
O perigo da preocupação com a própria imagem
José Paulo Ferreira, presidente da Sociedade de Pediatria do RS, afirma que a atividade física de crianças deve ser voltada ao lúdico, ter propósito de socialização, crescimento e equilíbrio.
— Nos preocupamos com o excesso de atividade física que saiu do lúdico para a competição. E aí vai entrar o futebol e uma série de outras coisas que pensamos se vale a pena para criança ou se quem está competindo são os técnicos e os pais — afirma.
Segundo ele, uma questão que precisa ser levada em conta é a imagem corporal.
— É um absurdo se a competição final for para avaliação da imagem corporal de uma criança que nem tem noção do que é isso. Esse é o grande pecado dessas competições — ressalta o médico, que exemplifica:
— Imagina a neurose que vai criar nessa criança. Porque um vai ser o campeão. Os outros 6, 7, 8 ou 10 não vão ser. Vai começar desde pequena a criança com pensamentos como "Ah, o meu corpo não pode ser isso, eu só posso comer tal coisa, eu tenho que deixar de comer não sei o quê, tenho que perder peso, tenho que deixar de comer sal".
Ferreira alerta para possíveis distúrbios de imagem e a baixa autoestima das crianças que não forem declaradas vencedoras.
— Aquela criança vai começar a ter restrições alimentares. Eles ficam 3, 4 dias antes da competição final sem sal para poder desidratar e ter uma definição muscular melhor.
Atenção para a idade
A pediatra Lúcia Diehl afirma que a musculação não prejudica o crescimento.
— Melhora a força, a postura, a coordenação, a saúde óssea e promove autoestima. E é segura se for feita com um educador físico acompanhando, com a carga proporcional ao tamanho da criança e a maturidade da criança, e com técnica correta — explica Lúcia.
Sobre idade para a criança começar a praticar musculação, a pediatra aponta a partir dos 8 anos, com enfoque em circuitos, exercícios leves, controle da carga e aprendizado da técnica.
— O que não pode haver são treinos competitivos de estética, excesso de carga e treinos sem supervisão. A Sociedade Brasileira de Pediatria recomenda para a faixa etária entre 6 a 19 anos, que as crianças e adolescentes façam 60 minutos de atividade física moderada a vigorosa, diariamente. E atividades que fortaleçam os músculos e os ossos, três vezes por semana — diz Lúcia.
Problemas alimentares
Sobre o fisiculturismo, a pediatra ressalta uma questão estética que pode gerar problemas alimentares no futuro:
— As crianças não devem fazer exercício com foco na estética. A Sociedade Brasileira de Pediatria e a Academia Americana de Pediatria alertam que a transformação estética nas crianças e adolescentes é um dos gatilhos para transtornos alimentares na infância e na adolescência.
A mãe de Lucas, Vanessa de Oliveira Gnoatto, que além de educadora física, também estuda nutrição, entende os riscos, mas ressalta que o foco atual do filho é apenas em se apresentar, sendo mais uma motivação para a prática de esportes.
— Queremos que ele faça exercícios físicos e leve isso como uma brincadeira, afinal ele é uma criança. As apresentações que ele faz são um incentivo para ele praticar mais esportes, e não como um foco de questão estética, que sim tem seus riscos.
Contexto de vida da criança
A pediatra especializada em hebiatria (medicina do adolescente) Leila Maas explica que a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) recomenda que os treinos de força sejam cuidadosamente adaptados à fase de desenvolvimento e acompanhado por profissionais capacitados.
— Nessa idade, as atividades devem utilizar apenas pesos leves, de até 15 kg, com duração máxima de 30 minutos, três vezes por semana.
Ainda, de acordo com Leila Maas, a prática precisa ser associada a, pelo menos, 30 minutos de exercícios aeróbicos.
— Além disso, a decisão de iniciar musculação deve levar em conta o contexto de cada criança, seu estado de saúde, maturidade, interesse e aptidão para começar esse tipo de treino.
Serviço da Copa dos Campeões
O evento ocorre no Salão de Atos da PUCRS (Av. Ipiranga, 6681 - Partenon), a partir das 9h. Quem tiver interesse em assistir todas as competições, ingressos estarão disponíveis no site e na bilheteria. É obrigatório levar um documento com foto para retirar o ingresso.



