Quando era ginasta, Daiane do Santos foi exemplo para uma geração de esportistas. Hoje, aos 42 anos, a gaúcha é referência em trabalho social, com olhar especial para a luta contra o preconceito racial.
De volta à Capital após quase duas décadas morando em São Paulo, projeta um novo ciclo: estar mais presente na comunidade, mais próxima da família e realizar o sonho de trazer para a cidade o projeto social com crianças chamado Brasileirinhos, que trabalha o lado esportivo, mas também de fortalecimento das raízes de cada um.
Neste 20 de novembro, Dia da Consciência Negra, GZH fez uma entrevista exclusiva com Daiane, a primeira brasileira campeã mundial de ginástica artística.
Com o ouro no solo em Anaheim 2003, a gáucha também se tornou a primeira mulher negra a chegar ao topo do pódio em um mundial da modalidade. O duplo twist carpado, movimento do título criado por ela, leva seu nome até hoje: "Dos Santos", uma honraria para poucas na ginástica.
Na conversa com ZH, Daiane relembra momentos difíceis no início da carreira, enaltece o apoio da família e reforça a necessidade do combate diário ao preconceito. Veja trechos:
Desde o início da carreira depara com atos de racismo?
Acho difícil pegar alguma pessoa negra no Brasil que não tenha vivido algum fato, né? Não só no esporte, mas fora dele. Vivi uma situação, acho que de agressividade. Logo que eu entrei no Grêmio Náutico União, algumas mães e algumas crianças não se sentiam confortáveis com a minha presença. Eu entrava no banheiro e algumas saíam. Não usavam o banheiro ao mesmo tempo. Não treinavam, não conversavam, sabe? Isso aconteceu com um treinador também, que se negou a me dar treino. Não era só uma questão racial, era uma questão social, porque eu era uma menina vinda de comunidade. Fui criada na Cohab Cavalhada. E pessoas se sentiam desconfortáveis. Tinha uma mãe que influenciava muito outras mães. Acho mais difícil é essa opressão. Mas, no meu caso, o que mais me prendia era a oportunidade. A minha veio com 11 anos, mas e pra quantos não veio?
Eu entrava no banheiro e algumas saíam. Não usavam o banheiro ao mesmo tempo. Não treinavam, não conversavam
E quando começou a se inserir no cenário nacional e internacional, como a menina negra agia em ambientes nos quais havia preconceito?
Quando tu começas a ganhar espaço, isso causa incômodo nas pessoas. Na ginástica tinha outras meninas negras. Mas nós não éramos tantas quanto hoje. Na época, havia um entendimento na ginástica que pessoas negras não podiam praticar, porque "não são plásticas", sem elegância. Então, não tem como não sentir uma rejeição. Mas sempre tive um apoio muito grande dos meus pais. Aprendi a lição de que precisamos olhar pra quem ama a gente, ouvir quem ama a gente. Sempre me incentivaram a ficar firme para poder chegar aonde a gente deseja, não aonde pessoas querem nos colocar. Sempre tive uma estrutura familiar muito grande e presente. Isso fez uma diferença grande pra eu me manter. E também tive muito apoio de outros treinadores e de pais das outras crianças. E tudo foi muito rápido. Comecei no esporte com 11 e, com 13, estava na Seleção. O normal é iniciar na ginástica com quatro ou cinco anos. Então, como tinha perdido muito tempo, coloquei meu foco no esporte para ajudar a superar ou não prestar atenção nessa sobrecarga de fora.
Sempre tive uma estrutura familiar muito grande e presente. Isso fez uma diferença grande pra eu me manter. E também tive muito apoio de outros treinadores e de pais das outras crianças
Quando tu te sentiu respeitada?
As pessoas têm uma ideia de que, quando a gente adquire fama, vira uma pessoa pública ou conquista um certo poder social, isso vai parar. Mas não vai. Infelizmente, a questão da opressão racial para. Hoje eu sou uma pessoa conhecida e reconhecida pelo meu trabalho — não só como atleta, mas também por outros projetos. Mas isso não significa que eu não passe por situações de preconceito, de opressão, de desvalorização do meu trabalho. É claro que, quando a gente ocupa um lugar de visibilidade, quando representa outras pessoas e já é reconhecida pela imagem e pelos resultados, é diferente de quem está começando.
Como é atualmente?
Eu fico feliz porque sempre recebo muito carinho das pessoas. Abre espaço pra que mais pessoas negras consigam entrar nesse lugar de pertencimento, respeito e valorização. O talento não tem cor, mas, infelizmente, a oportunidade ainda tem. A oportunidade de ser respeitado, de sentir pertencimento e valorização. Mesmo sendo maioria no país, a população negra ainda é numericamente e historicamente desvalorizada. A luta continua. E ter um espaço pra mostrar que estamos aqui, sendo presença, é muito importante pra seguir contando essa história que faz parte do nosso Estado e de Porto Alegre.

Sobre tua representatividade para outras meninas negras. Eu falo como uma dessas crianças que te viam assim. Tu tinha noção desse impacto que causava nas crianças?
Acho que a compreensão de ser uma referência positiva vem de casa. Eu lembro muito dos meus pais conversando comigo e minhas irmãs sobre uma identidade racial forte e o orgulho da nossa cor, da nossa etnia, da nossa origem. Isso foi essencial para eu entender meu papel na sociedade antes mesmo de saber que seria ginasta. Desde cedo, eu tinha a noção de que, qualquer coisa que eu fosse fazer, teria que ser algo positivo. Infelizmente, muita gente ainda olha pra pessoas negras com base em estereótipos negativos.
Como o título mundial impactou?
Quando eu viro uma campeã do mundo é uma forma de dizer que a pele negra é a melhor no que faz, exemplo de bons resultados. Que ser campeão, campeã, também é um lugar nosso. E tem uma frase que eu gosto muito e que eu sempre repito: "Representatividade é presença." Tudo o que eu conquisto tem impacto em outras pessoas — empodera, inspira, mostra que é possível. Eu tinha o sonho de ser ginasta — e eu fui ginasta. Eu não só fui ginasta, eu fui a melhor ginasta do mundo. Meu papel agora é fazer com que esse lugar seja visto com bons olhos – que ele sirva de impulso pra outras pessoas. Que eu possa ter clareza de como esse papel é importante, em todos os momentos: como ginasta, como empreendedora, como mulher negra, como tia, como alguém que tem um projeto social.
E no teu pós-carreira vem o Brasileirinhos, um projeto social. Como que ele surge? Como é na prática?
Os meus pais sempre foram pessoas muito ativas na sociedade. Tipo, não são pessoas conhecidas, mas meu pai trabalhou na Fase durante muito tempo e minha mãe trabalhou muitos anos em escola pública. Antes disso, ela trabalhou num local que acolhia pessoas em situação de rua – muita criança, muito jovem. Então, eles sempre mostraram muito esse lado social, de devolver pra sociedade, de plantar coisas boas, de fazer algo pra construir uma sociedade melhor. Hoje ele não é só um projeto que atende, mas que também tem um papel socioeducativo e esportivo.
Qual o papel do esporte no projeto?
A gente usa o esporte como ferramenta de educação, pra trazer um olhar positivo pra comunidade. Não necessariamente ginastas – porque o meu intuito não é transformar essas crianças em ginastas, mas em bons cidadãos. Ser campeã do mundo foi um plus, né? Mas o que o esporte me deu foi muito maior. Eu pude viajar o mundo todo, ser reconhecida pelo que faço, mudar a vida de pessoas – e a minha e da minha família.

