
O diagnóstico de Parkinson pode ser motivo para pessoas não praticarem esportes. Para João Mendes de Oliveira Júnior, 63 anos, ocorreu o contrário: encontrou no tênis de mesa uma forma de conviver com a doença. E já coleciona vitórias na batalha para postergar o avanço das limitações físicas.
Engenheiro eletrônico aposentado, Mendes trocou o barulho da indústria em que trabalhava, na Região Metropolitana de Porto Alegre, pelo som das bolinhas quicando nas mesas da Sociedade Ginástica São Leopoldo. O diagnóstico da doença foi em agosto de 2021, e ele começou a praticar o esporte no fim de 2023. Continuou trabalhando e conciliando com os treinos, até se aposentar na metade deste ano.
Natural de São Leopoldo, Mendes reside em Porto Alegre com a esposa. Para os treinos, vai dirigindo: pratica o esporte três dias por semana com o grupo na sociedade esportiva. Nas quartas-feiras, ainda faz aulas particulares, que podem chegar a cinco horas.
— Eu sou fominha, gosto de jogar — brinca Mendes.
E é com bom humor que ele encara os campeonatos. Já participou de competições estaduais, nacionais e fez sua estreia no Mundial de Parkinson em 2024, em Maizières-lès-Metz, na França. Na Europa, conquistou o quinto lugar na classe 3, que engloba os atletas com movimentos mais limitados e maior avanço da doença de Parkinson, com menos habilidades no tênis de mesa. As categorias ainda se dividem por critérios como idade e há quanto tempo convivem com a doença.
— Tive um aprendizado violento. Foi uma porta que se abriu e que, agora, consigo entender o que preciso fazer. Consigo estudar melhor. O tênis de mesa pode parecer simples, porque é só jogar a bolinha para o outro lado, mas tem um monte de detalhes que eu também não sabia — conta Mendes sobre a experiência no Exterior.
No Rio Grande do Sul, disputa campeonatos com atletas que não têm Parkinson, na categoria veterano, com mais de 60 anos. O mesatenista relata que geralmente perde os jogos e já criou um bordão para responder aos familiares e amigos quando questionado sobre seu desempenho nas competições.
— Não tem problema, o Parkinson não sabe se eu perdi ou se eu ganhei — afirma.
No caso de Mendes, a maior limitação devido ao Parkinson é o tremor na mão esquerda. A chefe do serviço de Neurologia da Santa Casa de Porto Alegre, Arlete Hilbig, explica que esse é um dos sintomas mais comuns:
– Geralmente, a doença se manifesta de maneira assimétrica, então a pessoa terá mais dificuldades de um lado do corpo do que no outro.
Por que o tênis de mesa?
O esporte não é uma novidade em sua vida. Seu pai, João Mendes de Oliveira, seguiu carreira como profissional de vôlei no Palmeiras (na época, Palestra Itália, de São Paulo) e sua irmã, Eliana Cecília dos Santos Tavares, foi atleta e treinadora de ginástica artística de diversos clubes, mas fez carreira no Grêmio Náutico União (GNU). Mendes havia praticado judô, vôlei e basquete em sua juventude, mas nenhuma das modalidades havia despertado suficientemente seu interesse.
Mas a escolha pelo tênis de mesa não foi ao acaso. O diagnóstico de Parkinson foi em agosto de 2020. Então, sua esposa, Norma Cristina Ferreira Amaral, 61 anos, começou a pesquisar por maneiras de retardar o desenvolvimento da doença.
A professora de matemática aposentada e o ex-engenheiro não fogem do estereótipo das exatas: foram resolutivos em como lidar com a doença.
— É normal para nós, problemas são feitos para serem resolvidos na vida — conta Norma.
— O caminho apareceu como se fosse um milagre. Eu estava pesquisando e, daqui a pouco, apareceu: essa atividade é interessante para as pessoas que têm Parkinson, toda atividade com bola e raquete é importante — relembra a esposa de Mendes.
Conexões cerebrais
Para a chefe de Neurologia da Santa Casa, o tênis de mesa é uma boa opção para quem tem Parkinson pois une uma atividade aeróbica — que requer uma grande quantidade de oxigênio para ser executada e aumenta o condicionamento físico —, além de trabalhar o treinamento motor específico — importante para quem tem a doença, já que estimula a formação de novas conexões cerebrais e pode melhorar sintomas como a rigidez, lentidão e falta de equilíbrio.
Foi na Sociedade Ginástica São Leopoldo que Mendes encontrou um local para treinar e socializar. Joga com crianças de nove anos a idosos de 85. Não há distinção de idade ou habilidade: todos treinam com todos. A esposa descreve o ambiente como uma "grande família".
— Ele tem amigos onde ele joga. Depois, tem os campeonatos. Antes, durante e depois, tudo é uma grande festa. Porque ele não joga por medalha, nem por troféu, nada disso: joga para ser feliz e ter uma atividade física, que também ajuda no Parkinson — diz Norma.
Para o técnico Humberto Schmidt, 33 anos, com quem Mendes treina há um ano, é evidente a evolução do aluno, especialmente em efeitos de saque e defesa.
— Nunca vi ele reclamar sobre cansaço. Eu sempre falo para que os guris o peguem como exemplo, para a gente tentar se superar sempre — afirma.
O próximo desafio
No fim de novembro, Mendes embarca rumo à Suécia para sua segunda participação no Mundial de Parkinson, organizado pela Federação Internacional de Tênis de Mesa (ITTF). A competição será entre os dias 26 e 30 de novembro, em Helsingborg, cidade no sul do país. Norma e Humberto estarão junto com ele nesta viagem.
Os treinos, a partir de agora, são inegociáveis e focados na competição. O técnico destaca que, apesar da seriedade e do objetivo de evolução visando ao campeonato mundial, os treinamentos também mantêm um clima leve e prazeroso.
Essa combinação de disciplina e diversão se reflete na forma como Mendes enxerga o próprio desempenho: para ele, vencer não é uma questão de ego ou troféus, mas significa que pôde avançar na competição e jogar mais.
— O esporte em si, a socialização, o entretenimento que proporciona, acaba fazendo com que a pessoa se sinta bem. Acho que se sentir bem é muito importante para quem tem uma doença degenerativa — complementa o mesatenista.


