
Arena, 23 de novembro de 2025. Grêmio e Juventude entram em campo neste domingo (23) para decidir o Gauchão Feminino. A partida que pode dar o hexa às Mosqueteiras ou o tetra às Jaconeras só vai ocorrer porque, há 42 anos, 22 gurias e alguns abnegados fizeram história, combatendo a lei que impedia mulheres de jogar futebol em público desde a década de 1940.
Estádio Olímpico, 17 de abril de 1983. Na preliminar de Grêmio x São Paulo, pelo Brasileirão masculino, Esportivo, de Bento Gonçalves, e Sport Club Rio Grande, da Zona Sul do Estado, deram o pontapé final após quatro décadas de proibição do futebol para mulheres. A RBS TV apresenta um especial sobre esse evento neste sábado (22), a partir das 15h55min.
O jogo, vencido pelo time da Serra por 8 a 0, é considerado o marco da retomada da modalidade no Rio Grande do Sul e um dos primeiros do país e ocorreu sob os olhares de 40 mil pessoas. Esse público foi assistir a uma partida de homens e acabou testemunhando um capítulo marcante da história do esporte.
A partida simboliza uma vitória coletiva das mulheres sobre a lei criada em 1941, assinada pelo então presidente Getúlio Vargas, que proibia a prática de futebol e outros esportes por mulheres em locais públicos. Ela foi tomada com base na ideia da sociedade da época de que o espaço natural das mulheres se restringia ao lar.
– Modalidades esportivas consideradas violentas eram vistas como risco para a preservação do corpo e a maternidade. A gente ainda estava numa ditadura militar, mas as mulheres começavam a brigar pelo seu espaço – lembra Silvana Goellner, professora e ativista do futebol feminino.
A proibição só caiu em 1979, por força da estruturação de um movimento feminista. Mas a regulamentação só ocorreu quatro anos depois, justamente em 1983, ano do amistoso no Olímpico.
Modalidades esportivas consideradas violentas eram vistas como risco para a preservação do corpo e a maternidade.
SILVANA GOELLNER
Professora e ativista do futebol feminino
Com permissão na mão, a Federação Gaúcha de Futebol assumiu o pioneirismo e decidiu fazer um jogo. Como Inter e Grêmio ainda não tinham seus departamentos estruturados, o convite foi feito ao Esportivo e ao Rio Grande, que já tinham equipes formadas.
Na Serra, o técnico Moacir Agatti, então com 32 anos, comandava um grupo de mulheres que trabalhava em uma fábrica de móveis e se juntavam no fim da tarde para treinar. Ele relembra como ajudou na formação da equipe:
– Eu trabalhava numa empresa e, todos os dias, via aquelas meninas jogando bola na rua. E depois eu via elas jogarem no ginásio. Aí falei: "Vamos fazer um time de futebol de campo." Todo mundo concordou. E foram chegando as gurias. Até tive de dispensar algumas porque tinha muitas.
"Loucurinhas do Vovô"
Na Zona Sul, as atletas do Rio Grande eram apelidadas de "Loucurinhas do Vovô". Rosângela Rodrigues, uma das integrantes do time na época e atual diretora de futebol feminino do time rio-grandino, relembra:
– O time foi criado por Cecílio Teixeira, torcedor e conselheiro do clube. Nos jogos do masculino, ele via que tinha muitas mulheres que gostavam de futebol na arquibancada. E algumas, nos intervalos, gostavam de brincar com a bola. Então ele teve a ideia de formar o time, até para chamar mais sócios e torcedores para o clube. O termo "Loucurinhas" surgiu porque éramos loucas pelo Rio Grande e pelo futebol feminino e "vovô" porque representaria o clube mais antigo do Brasil.
Tempos depois, a "loucura" maior ocorreu no Estádio Olímpico naquele dia 17 de abril de 1983.
– Meu Deus, o que é isso? Vocês têm ideia do que isso representa para nós? – surpreendeu-se Noemi Pedrotti, jogadora do Esportivo, ao olhar as 40 mil pessoas no Olímpico.
– Sem preparação alguma, as gurias foram de kichute, sequer usavam chuteiras – relembra Rosângela, citando um tênis famoso da época, que lembrava uma chuteira.
Nos jogos do masculino, ele via que tinha muitas mulheres que gostavam de futebol na arquibancada. E algumas, nos intervalos, gostavam de brincar com a bola. Então ele teve a ideia de formar o time
ROSÂNGELA RODRIGUES
Ex-jogadora de futebol do Sport Club Rio Grande
Dentro de campo, o time de Bento foi muito superior. Ainda assim, o placar de 8 a 0 e o desempenho das atletas surpreenderam.
– Imagina entrar em pleno Estádio Olímpico e, do nada, aparecer duas equipes de mulheres jogando. E que nunca tinham jogado. O público reagiu de formas diferentes. Teve aplauso, apoio, vaia, chacota. Foi um jogo atípico pelo ineditismo – relata Silvana.
No dia seguinte, o jornal Zero Hora destacou que a Federação Gaúcha de Futebol havia recebido vários telefonemas de mulheres buscando informações sobre clubes para jogar. A partir daí foi criada uma competição com jogos preliminares dos homens. E assim foi criado o primeiro Campeonato Gaúcho de Futebol Feminino. De 1983 a 1987, o Inter ganhou os torneios (leia mais abaixo).
– Para mim, é uma história que toda jogadora do Brasil deveria saber. Aquele jogo iniciou o futebol feminino. Com todas as dificuldades na época, com todos os preconceitos, a gente desbravou a modalidade – finaliza Rosângela.
Fato é que as gurias seguiram, os grandes clubes entraram de vez no futebol feminino e, hoje, 42 anos depois, cresce o número de praticantes e profissionais. Em ruas, escolas, campinhos, estádios, onde elas quiserem. Bem como sonharam as gurias de Esportivo e Rio Grande no amistoso em 1983. Sonho que permitirá que atletas de Grêmio e Juventude joguem para valer uma final neste domingo.
Sotaque italiano sensibilizou general
– Não é que caiu a proibição. Eu que fui atrás pra resolver esse problema.
É assim que Moacir Agatti, hoje com 74 anos, treinador do feminino do Esportivo de Bento Gonçalves em 1983, resume o processo de liberação da modalidade no Brasil.
Como tinha uma equipe de mulheres já formada, Moacir foi até a Federação Gaúcha de Futebol encontrar o então presidente, João Giugliani Filho, para pedir permissão para fazer uma partida oficial de futebol feminino. Giugliani indicou que Moacir fosse até a CBF, no Rio de Janeiro, em busca da regularização.
– Levei à CBF um documento, uma carta branca. Entrei na sala do Giulite Coutinho, então presidente. De lá, me encaminharam ao Conselho Nacional de Desportos, que ficava sob a responsabilidade do general César Montanha de Souza. Só ele podia assinar essa documentação. Mas o homem não me deu bola na hora – relembra Moacir.
Mas o sotaque do homem de Bento chamou a atenção do general.
– Como assim, você é italiano e não me trouxe vinho?
Moacir disse que não havia levado, mas que poderia encaminhar para o Rio assim que chegasse em casa.
– Na hora, chamou o secretário dele e mandou fazer toda a papelada. Estava liberado o futebol.
Missão concluída, era hora de voltar à FGF e reencontrar Giugliani, que ofereceu a preliminar de Grêmio e São Paulo, que ocorreria no domingo seguinte.
Comparação com Renato Portaluppi
Ketty, atacante do Esportivo, marcou três gols na partida, levantou aplausos da torcida e comemorou dando cambalhotas no gramado. Deu tempo até de ser expulsa depois de uma falta dura. Pela habilidade em campo e por carregar a camisa de número 7, no fim da partida, a imprensa a comparou com Renato Portaluppi, que entraria em campo na sequência com o time do Grêmio.
– Você é ponta como o Renato, de Bento como Renato e já foi expulsa como o Renato? – perguntou o repórter.
– É, realmente, só que o Renato é o Renato e eu sou eu – respondeu a goleadora.
– Você procura jogar como ele? – insistiu o jornalista.
– Não, eu procuro jogar o que eu sei e o que eu posso – retrucou a camisa 7.
A comparação de uma jogadora com um jogador, conforme Silvana, se dá pela quebra de expectativa sobre o comportamento considerado adequado para uma mulher:
– A comparação com o Renato é exatamente isso. Agressividade. Ela não se deixava bater. Ela apanhou muito durante o jogo. Tanto é que ela foi expulsa porque acabou revidando. Ela caía, ela levantava. Tinha destreza, fez gols bonitos, virou cambalhota. Isso não era um comportamento esperado por uma mulher naquele período.
Logo após rechaçar comparações com o ídolo gremista, Ketty foi colocada ao lado de Renato, que aquecia para começar a partida:
– Esta é a Ketty, ponta direita do Esportivo lá de Bento, disse que te conhece e joga que nem tu na ponta – disse o jornalista.
Renato comentou:
– É muito bom saber que temos uma menina que joga assim. Infelizmente no time do Grêmio ela não poderia jogar (não tinha equipe estruturada), mas acho que o futebol feminino vem se destacando muito. Esperamos que deem continuidade. O trabalho vem sendo muito bem feito pelo treinador e que tenham sucesso.
Mais sobre o futebol feminino
- O primeiro Campeonato Gaúcho Feminino organizado pela FGF que se tem registro acontece ainda em 1983, com seis participantes: Cerâmica, Esportivo, Inter SM, São José, Grêmio e Inter. O torneio teve uma edição por ano até 1987, com cinco títulos das coloradas. Por 10 anos, houve interrupção. De forma ininterrupta, o Estadual vem sendo disputado desde 1997.
- De 1997 a 2001, a FGF organizou. Depois, a organizou alternou entre a Associação Gaúcha de Futebol Feminino (AGFF), Liga Gaúcha de Futebol Amador (Ligafa) e Fundação de Esporte e Lazer do Rio Grande do Sul (Fundergs). A FGF retomou em 2018. No total, desde 1997, o Inter tem dez títulos e o Grêmio cinco. Também ganharam Juventude (três), Canoas (três), Atlântico, Onze Unidos, Tapejarense, Flores da Cunha, Torrense e Pelotas (um cada).
- O Grêmio criou sua equipe feminina em 1980, capitaneada pela Marianita Nascimento. No entanto, por conta da falta da regularização do futebol feminino, o grupo não conseguia oficializar o pertencimento ao clube gremista. Isso só aconteceu a partir de maio de 1983, quando a equipe é finalmente assumida pelo Grêmio, dessa vez, com o apoio do Presidente Fábio Koff. Só aí, o departamento feminino foi oficialmente criado e vinculado ao Departamento de Esportes Amadores do Grêmio.
- Já o Inter, em 1983, anexou no seu quadro de Esportes Amadores um grupo de jogadoras que já jogavam juntas pelo Pepsi Bola, equipe que disputava campeonatos de campo, praia e salão. A equipe colorada foi a primeira campeã gaúcha de futebol de campo feminino, e venceu o primeiro Gre-Nal oficial por 2 a 0, em 19 de novembro de 1983. O primeiro clássico amistoso ocorreu cinco meses antes, em 26 de junho de 1983, em Camaquã: placar foi 0 a 0.




