
Não há nome relevante a ter empunhado uma raquete que não gastou o feltro das bolinhas para falar de João Fonseca. De Roger Federer a Novak Djokovic. De Carlos Alcaraz a Andy Roddick. Todos elogiaram “Joau”, como o nome do carioca é pronunciado por estrangeiros. Poucos jogadores em tempos recentes reverberaram tanto em sua primeira temporada completa no circuito.
Tido como promessa, o brasileiro de 19 anos causava há algum tempo um burburinho no mundo da bolinha amarela. Para o grande público, ganhou destaque ao vencer o francês Arthur Fils no Rio Open do ano passado. Aumentou o alvoroço ao erguer no fim de 2024 o troféu do ATP Next Gen, torneio para os melhores tenistas até 20 anos da temporada.
O novo calendário chegou e junto vieram os títulos. Após vencer o ATP 250 de Buenos Aires, em fevereiro, causou fuzuê pelas alamedas e quadras do Rio Open. Ainda amealhou o ATP 500 da Basileia duas semanas atrás, suas duas primeiras taças de nível ATP. E a carreira só está começando.

De 113° para 24°
As conquistas com outras vitórias o fizeram dar um salto raro no ranking. Na primeira semana do ano, João era o número 113 do mundo. Na atualização mais recente é 24º tenista da lista. Além da qualidade, o brasileiro agregou outros valores ao circuito.
— Eu acho que ele já adicionou um valor enorme para o jogo, e ele está só começando. Ele tem potencial de ser campeão no futuro, que eu acho evidente, e tem também uma legião de fãs brasileiros. Isso deixou suas partidas mais elétricas com o apoio da torcida, deixa a partida mais divertida para assistir. Ele também tem um jogo muito atrativo, pela força e ofensividade. O ranking reflete o que ele fez, onde ele está de nível neste momento. Foi um ano muito positivo — analisa Gill Gross, comentarista do Tennis Channel.

Comparação com lendas
Levantamento feito por Gross aponta que os grandes tenistas, em geral, ficam entre a posição 15 e a 50 da lista da ATP em suas primeiras temporadas completas no circuito. Estatística entusiasmante. Ícones da modalidade como Federer, Djokovic e Andy Murray furaram a bolha do top 30 aos 19 anos e dois meses. Exatamente a mesma idade do brasileiro. Todos do trio foram número 1 do mundo e venceram múltiplos Grand Slams.
Ele já adicionou um valor enorme para o jogo. O ranking reflete o que ele fez, onde ele está de nível neste momento. Foi um ano muito positivo.
GILL GROSS
Comentarista do Tennis Channel
Ranking de grandes nomes ao fim de sua 1ª temporada
- 2000 — Federer: 29º (19 anos)
- 2004 — Nadal: 51º (18 anos)
- 2006 — Djokovic: 16º (19 anos)
- 2020 — Sinner: 37º (19 anos)
- 2021 — Alcaraz: 32º (18 anos)
- 2025 — João Fonseca: 24º (19 anos)
— Chamou muito a atenção mesmo nesse primeiro ano, o amadurecimento dele, tudo vindo muito rápido, e o quanto ele foi assimilando tudo isso muito bem, que é o mais difícil — ressalta o ex-tenista gaúcho Fernando Rose, hoje comentarista dos canais ESPN.
Calendário e o aspecto físico

O pulo no ranking também chama atenção pelo calendário enxuto formulado pela sua comissão técnica. Abriu mão de jogar torneios importantes, como o Masters 1000 de Monte Carlo e de Shanghai. Como compensação, acumulou vitórias em outras competições. Superou gente do top 10 do ranking. Passou da primeira rodada nos quatro Grand Slams, os principais torneios do tênis.
Chamou muito a atenção mesmo nesse primeiro ano, o amadurecimento dele, tudo vindo muito rápido, e o quanto ele foi assimilando tudo isso muito bem.
FERNANDO ROESE
Ex-tenista e comentarista da ESPN.
"Melhor caminho"
As folgas nas competições foram feitas para aprimorar aspectos do seu jogo. Entre o principal foco estava o crescimento físico para encarar os melhores do mundo e aguentar sequências desgastantes de partidas.
— O calendário não para. Quanto mais joga, menos chances de crescer fisica e tecnicamente. No caso dele é melhorar fisicamente. Em vez de jogar constantemente, teve pausas para treinar o físico. Se você constrói lentamente, segue vencendo em um ritmo gradual. É o melhor caminho para um jogador — pondera Gross.
Mental
Roese corrobora as palavras do analista americano.
— Duas coisas que ele vêm melhorando muito e que ele precisa para jogar nesse nível. É a parte mental, logicamente, que tem que ser muito mais forte, e a parte física. A evolução da parte física dele vai dar todo esse suporte para ele poder aguentar jogar nesse alto nível.
O que faltou em 2025
O pilar físico encerrou sua temporada oficial com uma semana de antecedência. João estava inscrito para entrar em quadra no ATP 250 de Atenas nesta semana, mas uma lombalgia o tirou de ação. O torneio era uma oportunidade, quem sabe, de enfrentar Novak Djokovic, recordista de títulos de Grand Slam e ex-número 1 do mundo.
O carioca revelou o desejo de enfrentar o sérvio antes de ele se aposentar. Também está em suspenso a expectativa por duelos contra Jannik Sinner e Carlos Alcaraz, os principais nomes da modalidade no momento. Duelos com “grande chance de acontecer” em um futuro próximo segundo Roese.
Responsabilidade maior
Mas a montanha do tênis é grande, íngreme e traiçoeira. Muita gente boa ficou pelo caminho. Após um primeiro ano de sucesso, João passa a ser observado de outra maneira pelo circuito. Terá mais responsabilidade e pontos para defender para se manter entre os primeiros colocados do ranking.
— Uns lidam muito bem, outros lidam com menos responsabilidade. Tem os atletas que têm um talento enorme, mas que começam a despontar e começam a sofrer quando é cobrado, e não aguentam. Então, é muito, muito, muito na parte mental. É uma questão muito pessoal, de como cada um absorve isso. No tênis tem isso, a gente muitas vezes mais perde do que ganha. E por isso que o tênis é um esporte muito complicado — lembra Rose, ex-número 92 do mundo.
Futuro promissor
Com carisma, uma direita penetrante e uma carreira precoce mas não apressada, é difícil encontrar alguém capaz de apontar um retrocesso para João em seu segundo ano no circuito. As estimativas, pelo contrário, são superlativas, sempre com o olhar para frente.
Se tiver chance de vencer Masters 1000 seria fantástico, mas não será fácil. Pode ser uma meta ser campeão de um Masters 1000, chegar à segunda semana de um Grand Slam
GILL GROSS
Além do espaço para crescer no ranking, a outros degraus a serem galgados, como ir mais longe em Masters 1000 e Grand Slams.
— Ele vai jogar mais torneios, terá uma temporada mais consistente. Quem sabe para terminar entre os 15 (do ranking). Essa seria a minha previsão. Esse ano venceu ATP 250, ATP 500. Se tiver chance de vencer Masters 1000 seria fantástico, mas não será fácil. Talvez não seja a expectativa, mas pode ser uma meta ser campeão de um Masters 1000, chegar à segunda semana de um Grand Slam. Precisa também de uma sequência longa de vitórias — aponta Gross.
Talvez é até ousado falar, porque é muito recente, mas nível ele tem para ser um top 10, e quem sabe um top 5 no futuro. Mas vamos com calma.
FERNANDO ROESE
Entre o ponderado e o otimista, Roese faz uma previsão similar para o 2026 do tenista carioca.
— Talvez é até ousado falar, porque é muito recente, mas nível ele tem para ser um top 10, e quem sabe um top 5 no futuro. Mas vamos com calma. Primeiro eu acho que tem de tentar se manter nesse alto nível e ficar entre os 30 do mundo. Depois, vir com uma conquista maior em termos de ranking no futuro, porque condições ele tem — opina.
João está entre os nomes mais simples da língua portuguesa. Sua carreira veloz como um saque a 230 km/h tem a força capaz de fazer o complexo linguajar do tênis retornar ao vocabulário do brasileiro, afinal de Federer a Djokovic, todos têm algo a dizer sobre “Joau”.




