
Em noventa minutos, tudo pode acontecer dentro das quatros linhas de um campo de futebol. Das viradas históricas aos 7 a 1, passando por resultados que não surpreendem ninguém ou empates mornos, nada está fora de cogitação antes do apito inicial. Essa premissa básica da imprevisibilidade é fundamental em todo o esporte. Então o que fazer quando ela começa a correr riscos?
A ascensão meteórica do mercado de apostas no Brasil, que traz na carona um aumento expressivo nos casos de manipulação de resultados, vem colocando essa questão cada vez mais em pauta. Tanto que, nesta quarta-feira (12), o Comitê Olímpico Brasileiro decidiu dedicar todo o Segundo Fórum Esporte Seguro ao tema.
O enfrentamento da manipulação de resultados é uma pauta que exige coragem, transparência e, principalmente, união. E o COB tem sido um parceiro essencial nesta caminhada
O Secretário Nacional de Apostas Esportivas do Ministério do Esporte, Giovanni Rocco Neto, foi uma das autoridades presentes no evento, que reuniu mais de 160 pessoas, entre representantes de confederações nacionais, clubes e organizações parceiras.
Luta contra a manipulação
O Instituto Brasileiro de Jogo Responsável estima que o mercado legal de apostas no Brasil movimenta cerca de R$ 38 bilhões por ano. O ilegal, enquanto isso, tem de R$ 26 bilhões a R$ 40 bilhões em receitas anuais. As cifras são tão altas que, invariavelmente, chamam atenção de criminosos.
— A manipulação de resultados não é apenas uma falha de conduta, é uma falha complexa que tem por trás criminosos organizados — destacou Rocco Neto.
Principalmente o mercado ilegal de apostas atrai esses criminosos, que buscam aliciar atletas de forma clara, os oferecendo quantias em dinheiro, ou de forma indireta, se aproximando de familiares ou amigos.
— Essa gente se infiltra nos bastidores, se aproveita da fragilidade e tenta cooptar atletas, técnicos, árbitros, peças chaves dentro da estrutura esportiva. Esses grupos se alimentam da vunerabilidade e da confiança dos atletas — explicou o secretário, que atualmente trabalha na construção de uma política nacional contra a manipulação de resultados.

E como resolver isso? Enquanto a criminalização e a punição dos culpados é vista como essencial, assim como a regulamentação do mercado de apostas, cada vez está mais claro para os especialistas que a solução também passa pela prevenção.
— No COB, temos a preocupação de passar esse conhecimento para as nossas confederações, entidades que fazem o esporte, para que eles tenham noção do quanto é importante essa prevenção contra a manipulação — destacou o diretor geral do COB, Emanuel Rego, no fórum.
Outras modalidades
Além da preocupação com o futebol, que ainda é o maior alvo do mercado de apostas — e, consequentemente, dos casos de manipulação —, vem sendo registrado um interesse cada vez maior dos apostadores por outras modalidades. E, nestes âmbitos, há atletas ainda mais vulneráveis em questões financeiras.
Somente formando essas pessoas sobre o assunto, explicando os riscos e os instruindo sobre como agir quando colocados em situações de perigo, defende o COB, será possível começar a enfrentar o problema.
Conscientizar é preciso

E o Comitê Olímpico já está colocando a mão na massa. Nesta quarta-feira (12), além de promover o Fórum Esporte Seguro, a instituição anunciou o lançamento do curso Combate à Manipulação de Resultados, Juntos em Defesa do Jogo Responsável, disponível online gratuitamente na plataforma do Instituto Olímpico Brasileiro (IOB).
— Ao capacitar atletas, treinadores, árbitros e todos os outros profissionais do esporte com conhecimento, transformamos estes profissionais na primeira linha de defesa para garantir um esporte justo e inspirador para as próximas gerações, em alinhamento com os valores olímpicos — ressaltou Sebastian Pereira, gerente-executivo de Educação e Fomento do COB.
O curso, com duração de uma hora, faz parte da grade do programa Esporte Seguro, que conta ainda com formações sobre "Prevenção e Enfrentamento do Assédio e Abuso no Esporte", "Esporte Antirracista: todo mundo sai ganhando", "Conduta Ética na Prática" e "Equilibrando o Jogo: igualdade de gênero no esporte".
— A manipulação de resultados é uma realidade, acontece. Os agentes do esporte podem ser abordados a qualquer momento. Então, termos iniciativas para ajudar a prevenir esse tipo de ação é fundamental — acrescentou o vice-presidente da Comissão de Atletas do COB, Rafael Silva.
O aprendizado, o acesso à informação e a consciência das consequências são os primeiros passos para evitar qualquer desvio
*A jornalista participou do Segundo Fórum Esporte Seguro a convite do COB.



