
Há quem diga que, com o avançar da idade, é preciso reduzir o ritmo. Mas tem gente que mostra que o passar do tempo amplia os horizontes.
Neste Dia do Idoso, 1º de outubro, Zero Hora publica a série de reportagens A Idade Não é Limite, que conta as histórias de homens e de mulheres que fazem do esporte um estilo de vida mesmo após os 60 anos.
É o caso de Shirley Reus, assistente social e terapeuta de família e casal aposentada, moradora de Cachoeirinha. Há 12 anos trocou o cigarro pelas ultramaratonas e, aos 64 anos, acumula desafios de até 120 quilômetros.
Shirley conta que desde nova se interessava por exercícios, mas que foi a aposentadoria, em 2014, que fez com que ela entrasse de cabeça nas atividades físicas. Primeiro veio o pilates.
— O que fez a diferença foi o meu instrutor. Ele sabia que eu fumava e nunca falou do meu cigarro. Sem me cobrar, foi me perguntando se eu nunca tinha pensado em caminhar e correr. Chegou um momento que resolvi começar. E toda a semana eu dizia: "Nelson, caminhei 30 minutos, caminhei 40 minutos". Era por isso que eu caminhava, porque eu tinha para quem reportar.
Da caminhada à corrida

Quando chegou aos 60 minutos, o desafio passou a ser correr cinco minutos, depois 10 e assim por diante. Até que Shirley viu que estava correndo mais que caminhando. Então, as voltas no quarteirão logo se transformaram em provas de corrida. O instrutor inscreveu ela em uma corrida de 3km:
— Quando terminei a prova, fiquei emocionada com aquela medalha que era minha. E aí nunca mais parei.
Quando terminei a prova, fiquei emocionada com aquela medalha que era minha. E aí nunca mais parei.
SHIRLEY REUS
Ultramaratonista
Foi "demitida" do pilates para buscar um treino específico de fortalecimento para correr e embarcou de vez no esporte. E, com isso, Shirley percebeu que o cigarro não encaixava mais naquela equação:
— Já vinha no processo todo de mudança de vida, de rotina. Quando a corrida me despertou, percebi que aquilo não estava combinando. Aí resolvi parar de fumar e mudar de vida.
Do asfalto às trilhas

Aos poucos, os 3km viraram 5km. E os 5km viraram 10km. Então veio a coragem para pedir a aposentadoria do hospital em que trabalhava. Fora do trabalho, outra mudança. Em vez do asfalto, trilhas. Com a ajuda de treinadores e de muito estudo, Shirley adquiriu maior consciência corporal e descobriu que não gostava de correr pelo tempo, não era uma velocista:
— Quando fui para a trilha, vi que era diferente, tem que prestar mais atenção, ter mais cuidado, curtir o percurso. Descobri que eu tinha pulmão. Antes eu estava focada no coração, com medo de infarto. E aí eu me achei nas longas distâncias.
As corridas que a Shirley faz são conhecidas como trail ou trekking run e são parte de uma modalidade diferente. Elas acontecem em cenários naturais, como trilhas em montanhas, florestas, desertos e outros ambientes ao ar livre, podendo ter altitude ou ser plano. A maioria das ultramaratonas são feitas de uma só vez, mas existem algumas que são divididas em dias, com acampamento no trajeto.
E depois de sete horas tu tem que começar a conversar com os órgãos e com o teu esqueleto pra combinar um "vamos terminar isso aí". Então aí começa essa luta que eu amo, que é a superação. Corro para superar meus limites.
SHIRLEY REUS
Ultramaratonista
Aos poucos, vieram os 30km, os 40km. Voltou para o asfalto para poder dizer que era maratonista, mas o negócio era focar na natureza. E, por fim, chegaram as ultramaratonas, que ultrapassam (e muito) a distância tradicional de 42km.
O prazer do tempo
E como passar o tempo com tantas horas de prova? Para Shirley, o percurso vira também um mergulho dentro de si mesmo:
— Me deixa num estado psíquico que me ligo comigo mesma. As horas passam e eu nem vejo. A gente fica num limbo de pensamentos. E depois de sete horas tu tem que começar a conversar com os órgãos e com o teu esqueleto pra combinar um "vamos terminar isso aí". Então aí começa essa luta que eu amo, que é a superação. Corro para superar meus limites.
Para além do percurso e da superação, a sensação da chegada é um capítulo à parte:
— Um quilômetro antes da chegada, quando se quebra o silêncio com os gritos da torcida e a música, a gente se enche de energia. Depois de 12 horas, quando tu escuta o teu nome, não tem coisa que dê mais prazer.
Sem limites
A prioridade hoje é o esporte. Shirley treina semanalmente com reforço muscular e longos percursos aos sábados, nos morros em Sapucaia do Sul. E o foco está sempre em alguma prova. Mas seja correndo 12 horas em Santo Ângelo ou em desafios de 120km dormindo no mato, ela se considera em constante evolução.
— A prova mais desafiadora é a que eu ainda não fiz. Por isso escolho a dedo cada uma. Chega em janeiro, faço a minha agenda do ano.
Mais do que medalhas, a corrida trouxe transformações pessoais profundas. E aos que insistem em ver a idade como obstáculo, Shirley responde sem hesitar:
— Tenho 64 anos, não vou parar, vou mudar, transformar. Ainda quero trilhar algumas montanhas. Vou até os 68 anos e depois vou fazer travessias. Botar a mochila nas costas e andar 100km, 200km, 300km...
E assim, sem limites, Shirley segue sempre em frente. Afinal, para ela, correr não é sobre velocidade, mas sobre chegar mais longe, na corrida e na vida.
Vou até os 68 anos e depois vou fazer travessias. Botar a mochila nas costas e andar 100km, 200km, 300km...
SHIRLEY REUS
Ultramaratonista



