
Para muitos, chegar aos 80 anos pode significar desacelerar. Mas para Sergio Portugal Gomes, urologista, a idade é apenas um número, e o movimento, um estilo de vida.
Entre corridas, pedaladas e sessões de musculação, o médico mostra que manter-se ativo é, acima de tudo, uma questão de disciplina, prazer e equilíbrio.
Neste Dia do Idoso, 1º de outubro, Zero Hora publica a série de reportagens A Idade Não é Limite, que conta as histórias de homens e de mulheres que fazem do esporte um estilo de vida mesmo após os 60 anos.
A relação de Sergio com o esporte começou cedo, ainda no colégio interno, onde atividades físicas eram obrigatórias:
— Era para cansar a galera. Dividiam os alunos e a gente competia todas as modalidades de esporte.
As competições e brincadeiras ajudaram a formar o gosto pelo movimento, que mais tarde o levaram a procurar outras atividades. Na natação, desenvolveu força e consciência corporal. Mas foi na corrida, esporte que o acompanha até hoje, que encontrou sua grande paixão.
Falha que trouxe disciplina

Portugal foi um dos corredores da 1ª Maratona Internacional de Porto Alegre, que se provou um teste de disciplina e persistência na sua vida. Teste este que ele não conseguiu passar na primeira vez.
O desconhecimento de preparo para correr 42km fez com que ele pensasse que fazer outros esportes serviria para conseguir concluir a prova. Mas acabou tropeçando em uma ajuda no percurso.
— Eu lembro que tinha um senhor, Seu Otaviano, de Passo Fundo, que me orientava: "Larga devagar, porque é muito chão". Eu olhava para ele, um senhor de 50 e poucos anos, e pensava: "Se ele faz, porque eu não vou fazer?". Começamos a correr, via todo mundo lá na frente e resolvi tocar, né? Chegou no quilômetro 29 e eu morri. E ele chegou tranquilo e me disse que tudo é treino.
O equilíbrio é a coisa mais importante. E hoje eu tento trazer isso para os meus filhos e para os meus netos. Se eles querem envelhecer com saúde, invistam desde agora.
SERGIO GOMES
Urologista
A partir dali, Seu Otaviano começou a escrever cartas para Sérgio, orientando os treinamentos à distância. Em 1984, concluiu os 42km.
— Não existe coisa milagrosa, é treino. Tudo na vida é disciplina. Eu corri a 2º Maratona de Porto Alegre e completei, aí fui agradecer ele pelos treinos.
O esporte para além do físico
Com o tempo, Sergio percebeu que o esporte não era apenas para o corpo, mas também uma questão emocional e espiritual. E busca passar esse valor aos filhos e netos, incentivando essa busca por saúde desde cedo. Para ele, o equilíbrio entre corpo, mente e espírito é a chave para um envelhecimento de qualidade.
— O equilíbrio é a coisa mais importante. E hoje eu tento trazer isso para os meus filhos e para os meus netos. Se eles querem envelhecer com saúde, invistam desde agora.
E ele reforça que esse equilíbrio não é apenas teoria: ele se traduz em hábitos diários, disciplina e atenção ao próprio corpo. A prática regular de corrida, musculação e atividades ao ar livre se tornou um meio de manter a mente ativa, aliviar o estresse e fortalecer vínculos familiares.
Foco no movimento
Mesmo diante de desafios, Portugal nunca deixou a atividade física de lado. Depois de fraturar o fêmur e precisar colocar uma prótese, se dedicou seis anos ao pilates e à sua recuperação antes de voltar à corrida.
— Conheci meu atual professor e comecei a correr com ele. Era um grupo de corrida e eu era da turma da traseira lá, mas o meu objetivo não era fazer pódio. Até fiz alguns, mas o objetivo era chegar lá.
Tem o tempo para o meu trabalho. Enquanto eu me achar capaz, competente, eu vou continuar trabalhando.
SERGIO GOMES
Urologista
Em 2018, Sérgio fez uma cirurgia cardíaca, para colocar um stent, como forma de prevenção por conta de histórico familiar. Depois da recuperação, voltou ao educador físico que está com ele há 16 anos.
— Voltei aos poucos e ele foi me dando condicionamento. Comecei caminhando e fazendo reforço muscular. Tu tem que ter uma referência, ele é a minha. Claro, dentro de uma realidade. Jamais vou correr os 90km dele, mas se eu fizer 8km, tá bom.
Em busca da saúde
Hoje, a rotina de Sergio mistura musculação, corrida e bicicleta, muitas vezes ao lado da esposa, que também é sua parceira nos treinos. Os dois moram em Canoas e gostam de, de tempos em tempos, ir para a Serra para pedalar em contato com a natureza. Aos 80 anos, ele valoriza muito a disciplina e, com ela, equilibra todas as áreas da vida.
— Tem o tempo para o meu trabalho. Enquanto eu me achar capaz, competente, eu vou continuar trabalhando. Eu tenho tempo pra minha atividade física, que é uma coisa que pra mim é prazerosa. Faço duas vezes academia, duas vezes dou uma trotada na rua ou pego uma bike e vou pedalar. E eu tenho o meu tempo. Que eu vou estudar, que eu vou ler, vou ouvir música, seja o que for.
Todo esse equilíbrio e atividade pode ser o diferencial para um envelhecimento mais saudável.
— Falo como médico agora. As pessoas envelhecem porque elas acham que quando chega a aposentadoria, não servem pra mais nada. E não é assim. A gente ainda pode fazer muitas coisas, dentro das limitações, mas não deixar de fazer.
Sergio deixa um conselho muito importante aos jovens: cuidar do corpo desde cedo, ter disciplina e consciência sobre o que é saudável. E a todos, um alerta: antes de iniciar uma rotina física, especialmente com exercícios pesados, importante estar com os exames médicos em dia. Aos 80 anos, ele prova que o esporte é um caminho para viver melhor, mais ativo e mais feliz.
Falo como médico agora. As pessoas envelhecem porque elas acham que quando chega a aposentadoria, não servem pra mais nada. E não é assim.
SERGIO GOMES
Urologista


