
A vida em liberdade após a cumprimento da pena traz desafios e estigmas. Antes de deixar para trás os muros, grades e celas, os presos passam por um programa de preparação para liberdade. Porém, a realidade que encontram após cumprirem suas sentenças é sempre incerta. Neste momento, o esporte pode ser um importante aliado.
Para fechar a série especial Esporte Atrás das Grades — que mostrou como funciona um torneio na prisão, um projeto piloto de remição de pena através da atividade física e a rotina esportiva na Fase —, Zero Hora apresenta a história de um ex-detento que deu novo rumo á vida por meio do boxe e a de um ex-interno da Fase que encontrou no futsal uma forma de ressocialização.
Adalberto encontra um norte no boxe
Concentrado, o boxeador Adalberto Borges Dolejal, 37 anos, inicia seu aquecimento com um "treino de sombra" em um dos ringues montados no ginásio B da Vila Olímpica de Osório, no litoral gaúcho. A atividade é simples: simular golpes e esquivas em um adversário imaginário.
Enquanto emula sequências de jabs, diretos, ganchos e cruzados em um dos dois ringues montados na quadra que divide espaço com um tatame onde outro grupo pratica aikido, observa-se nele uma confiança de quem sabe poder nocautear o próximo rival ou dificuldade que a vida lhe apresentar.
Campeão gaúcho na categoria peso-pena em 2021, o atleta enfrentou mais do que outros boxeadores para chegar aonde está hoje. Sua relação com a nobre arte se iniciou aos 18 anos, quando conheceu o Anildo Pereira dos Santos, treinador de boxe desde 1995 com passagens pela seleção brasileira e pela seleção gaúcha e que desenvolve um projeto social em Osório.
Tempos depois, porém, envolveu-se com drogas e, em 2016, acabou preso. Foi sentenciado a seis meses de detenção por posse de entorpecentes e roubo. Após cumprir sua pena, Adalberto buscou se reconectar com o boxe, que seguiu praticando durante seu tempo no semiaberto. Na Penitenciária Modulada Estadual de Osório, fazia treinos de sombra ou no saco. Em liberdade, encontrou na prática um norte.
— Através do boxe, do esporte, consegui me centrar em ter disciplina, ter mais foco e acreditar um pouco mais na minha capacidade — ressalta o boxeador.
Focado, o atleta reergueu-se. Arranjou um emprego com carteira assinada e constituiu família. Foi além: lutou contra o vício em drogas, internando-se em uma comunidade terapêutica.
Muitas pessoas discriminam o cara, desacreditam na recuperação do ser humano.
ADALBERTO BORGES DOLEJAL
Boxeador
Caminho difícil
Hoje busca retribuir. Dá aulas de boxe em duas clínicas aos sábados. Na nobre arte, também se especializou como juiz e árbitro de ringue. Encarar os desafios, no entanto, não foi fácil:
— A dificuldade (após sair da prisão) foi a rejeição de trabalho. Muitas pessoas discriminam o cara, desacreditam na recuperação do ser humano. Batendo em portas atrás de serviço foram vários “não”, mas o Anildo sempre me deu a oportunidade de trabalhar com ele.
O mentor de Adalberto lhe acolheu em sua academia e lhe cedeu equipamentos para a realização do trabalho nas comunidades terapêuticas. Ele também ajudou o boxeador na realização de um curso de técnico, bem como o de juiz e árbitro de ringue.
Ação social
Para retribuir, o atleta passou a auxiliar Anildo no projeto social Tairone Silva, que atende mais de 100 crianças, adolescentes e adultos dos cinco aos 35 anos e homenageia um ex-aluno campeão brasileiro e sul-americano que foi assassinado em 2011.
O objetivo da ação, conta seu criador, é justamente promover a socialização, seja de crianças carentes ou de quem teve problemas com a lei como Adalberto.
— Aqui é uma segunda família. Eles (participantes) conseguem, durante a noite, vir para cá treinar. Aí tem alimentação para eles depois do treino. E a gente está sempre trabalhando na formação de atletas — destaca Anildo, e enfatiza:
— Apesar de a gente ser de uma cidade do interior, nós tivemos 109 títulos gaúchos conquistados com a equipe. O que acontece dentro de uma vila, quando chega um atleta com uma medalha? Ele se torna um ídolo. E essas crianças que estão lá, elas vão vir atrás dele. Eles querem também ganhar uma medalha, viajar. E essa é a nossa ferramenta para trabalhar com o atleta.
O esporte é sempre bem-vindo, ajuda na questão de disciplina, extravasar a euforia de uma maneira saudável.
ADALBERTO BORGES DOLEJAL
Boxeador
Para aqueles que passam por experiência semelhante e buscam se reerguer na vida, o atleta enfatiza que é preciso perseverança na busca pela reinserção social.
— Muitas vezes o cara sai (da prisão) desacreditado, mas a dica que eu dou é nunca deixar de acreditar em si mesmo. É sempre correr atrás e não desanimar, procurar ter uma maneira de vida diferente, não ficar vivendo de passado — afirma Adalberto, e conclui:
— Procurar um esporte também, né? O esporte é sempre bem-vindo, ajuda na questão de disciplina, extravasar a euforia de uma maneira saudável. Não precisando usar álcool nem drogas, liberando a dopamina de uma maneira saudável.
Vinicios, o futsal e a ressocialização

A quadra de futsal não é elemento estranho para Vinicios Oliveira da Silva Pederiva, 21 anos. Fixo da Associação Santo Ângelo Futsal (ASAF), que disputa a Série C do Gauchão da modalidade, o jovem atua desde os 11 anos, tendo ingressado no time do noroeste gaúcho ainda nas categorias de base. Porém, não foram 10 anos ininterruptos defendendo as cores da ASAF.
Por uma infração da lei sobre a qual prefere não comentar, Vinicios ficou afastado das quadras por algum tempo. Foram 10 meses de internação e outros seis de semi-liberdade. Em parte deste período não treinou, mas logo passou a participar das atividades promovidas dentro do Centro de Atendimento Socioeducativo (Case) Regional de Santo Ângelo pelo analista profissional de Educação Física Paulo Dilamar de Castro da Silva.
Quando progrediu de regime, com autorização da Justiça, voltou a treinar nas categorias de base da ASAF. Foi uma chance para mostrar que queria deixar o erro do passado para trás.
— Era uma oportunidade para mostrar que eu quero isso (ser jogador de futsal) para mim. Não quero coisas erradas — assegura.
Com a dívida para com a sociedade cumprida, Vinicios sonha em desenvolver carreira no futsal. Para tanto, mantém regrada as atividades junto à ASAF. São três dias da semana dedicados aos treinos táticos e físico, além dos jogos aos finais de semana.
Em meio a tudo isso, mantém o trabalho com podas para uma empresa terceirizada por uma concessionária de energia elétrica. Toda a rotina e a vida dentro de quadra o fazem sentir-se acolhido:
— Os caras ali jogam, esquecem todos os problemas que o cara tem. A amizade que se cria dentro do futsal é bastante grande.
Portas abertas
Para Silva, trata-se mais do que amizade. Trata-se de inclusão social. O servidor do Case Regional de Santo Ângelo desenvolve desde 1998, dentro da unidade, o projeto chamado de “Escolinha de Futsal Craques da Cidadania”.
Voltada para os internos, a ação tem por objetivo ajudar justamente na ressocialização — além de auxiliar na saúde física e mental dos adolescentes que cumprem medida socioeducativa.
— Ganhar ou perder, a tolerância à frustração, à impulsividade, canalizar a agressividade. Isso aí são ferramentas fantásticas para trabalhar todas essas questões, inclusive emocionais deles — destaca o educador físico sobre a prática de esportes, e segue:
— Ele (socioeducando) quer se sentir reconhecido por coisas positivas porque, na verdade, todo o desejo do ser humano, em última análise, é ser reconhecido, né? E se tu não é reconhecido por algo positivo, tu vai buscar, via de regra, algo que seja negativo.
Instrumento de educação
Silva faz questão de ressaltar que Vinicios não é o primeiro atleta a passar por sua escolinha que ganha oportunidade na ASAF. Antes dele, em 2010, outro socioeducando abriu o caminho.
Agora, o atual fixo da equipe de Santo Ângelo mostra-se um bom exemplo para mais um jovem interno do Case, que está treinando na equipe sub-17 da entidade.
O presidente da ASAF, Diego Marafiga, igualmente destaca o esporte como um instrumento de educação. Tanto é que a entidade aposta forte nas categorias de base. São times para atletas sub-13, sub-15 e sub-17.
— Obviamente, queremos que (os jovens) saiam jogadores de futsal, mas, antes disso, a principal questão é formar cidadãos de bem, que amanhã ou depois vão estar aqui na sociedade local, ou em outras, com boas empresas, trabalhando, seguindo um caminho digno — enfatiza.
Seja na base ou entre profissionais, seja ao ar livre ou atrás das grades, o esporte mostra-se uma ferramenta fundamental para o desenvolvimento como cidadão e para o crescimento pessoal.


