
Um dos dias mais importantes da história do esporte olímpico brasileiro, esta segunda-feira (27) foi apenas mais uma etapa na vida de Henrique Marques. Nascido em março de 2004, em Itaboraí, município localizado na Região Leste Fluminense, no Rio de Janeiro, o novo campeão mundial de taekwondo já enfrentou desafios bem maiores em seus 21 anos.
Filho de mãe diarista (Rosilene Marques) e pai peão de obra (Ari Fernandes), o menino Henrique cresceu na dificuldade, assim como seus quatro irmãos e milhões de brasileiros.
Se Itaboraí em tupi significa "rio das pedras brilhantes", o destino de muitos de seus moradores e filhos não tem nada de glamour. Henrique, por exemplo, viveu com a família em uma pequena casa da Vila Portuense, bairro que faz parte do distrito de Porto das Caixas.
Em suas redes sociais, ele já fez diversos relatos sobre as condições do local, com vídeos e depoimentos sobre as dificuldades. A região onde fica a casa onde o hoje campeão do mundo residia era chamado de "Vale da Merda", já que ao lado do beco onde estava a casa, existe um valão, que transborda a cada chuva mais forte e traz para a superfície o esgoto local. Em janeiro de 2023, ele postou um vídeo saindo de casa ao lado da mãe durante a chuva.
A falta de saneamento é apenas uma das tantas dificuldades de quem nasce, cresce e vive na periferia. O pai e a mãe de Henrique evitaram que ele cruzasse a fronteira e "escolhesse o lado errado", como ele mesmo escreveu ao homenagear o pai, morto em junho de 2024, pouco antes de ele realizar o sonho de disputar os Jogos Olímpicos de Paris.

A possibilidade de sair de uma comunidade considerada uma das mais carentes do Rio de Janeiro é ínfima. Mas o menino que praticou jiu-jítsu, jogou futebol (como todo brasileiro) e ganhou a chance de praticar taekwondo, com o esforço e o apoio da mãe, que se virava para bancar os R$ 25 necessários para que ele pudesse treinar.
Campeão brasileiro aos 15 anos, quinto colocado no Mundial de Guadalajara aos 18, Henrique precisou enfrentar uma outra batalha quando as portas do mundo começavam a se abrir para ele a partir do esporte.
Convocado, em 2023, para defender o Brasil nos Jogos Pan-Americanos de Santiago, um exame médico constatou uma arritmia cardíaca, que lhe obrigou a parar de competir e realizar uma cirurgia.
— Não poder praticar nenhum esporte porque meu coração batia errado 33 mil vezes por dia não assustava só a mim, mas todos os médicos que trabalharam no meu caso — disse em entrevista para a ESPN.
Recuperado, garantiu vaga em sua primeira Olimpíada. Nem a perda do pai foi capaz de pará-lo. Em Paris, foi até as quartas de final. Entre os melhores do mundo, foi colecionando bons resultados e chegou ao top 10 do ranking.
Algumas das dificuldades já haviam sido superadas e uma nova casa para a família, fruto de suas conquistas, pode ser adquirida. Esperança de medalha olímpica em Los Angeles 2028, Henrique Marques saiu do "Vale da Merda" para o topo do mundo.




