
Foram quase cinco anos e 20 clássicos disputados. A torcida mista, que chegou a ser admirada pelo público fora do Rio Grande do Sul, inclusive em outros países, caiu no esquecimento dos torcedores de Grêmio e de Inter.
A iniciativa foi interrompida após o período em que os estádios estavam sem público, durante a pandemia de covid-19. Ao que tudo indica, ela não deve retornar tão cedo.
Legado da Copa de 2014
Não é novidade que a Copa do Mundo de 2014 deixou um legado em Porto Alegre, seja positivo, seja negativo. No âmbito das coisas que deram certo, o "Caminho do Gol" é lembrado até hoje. A prática colocava torcedores de diferentes países lado a lado a caminho do Beira-Rio antes das partidas do Mundial na capital gaúcha.
Em contrapartida, o clássico Gre-Nal enfrentava um momento turbulento nos bastidores, com a possibilidade de torcida única nos jogos, ponto que não agradava os dois clubes. Como forma de impedir o avanço de tal ideia e servir de exemplo para as demais partidas entre rivais, foi proposto a criação da torcida mista, que seria acompanhada pelo Caminho do Gol.
No dia 11 de fevereiro de 2015, um café da manhã confirmou a iniciativa. Estiveram presentes os presidentes dos clubes na época, Romildo Bolzan (Grêmio) e Vitorio Piffero (Inter), autoridades da Brigada Militar, além do prefeito de Porto Alegre naquele período, José Fortunati.
Em cada Gre-Nal eram disponibilizados dois mil ingressos para o setor. O torcedor do time mandante comprava a sua entrada e tinha o direito de levar um adepto do rival.
Começo promissor
Idealizada pelo vice-presidente de Administração do Inter na época, Alexandre Limeira, a iniciativa não demorou para chamar a atenção do público gaúcho e até de fora do Estado. Eram imagens curiosas. Gremistas e colorados andavam lado a lado antes do clássico de forma pacífica, sendo contrários a onda de violência que impactava o esporte pelo mundo.
Em 1° de março de 2015, ocorreu o chamado "Gre-Nal da Paz", justamente por ser a estreia da torcida mista. No Beira-Rio, as duas equipes empataram sem gols pela oitava rodada do Campeonato Gaúcho.
Foi uma boa forma de permitir que familiares, amigos e namorados que não compartilham do mesmo clube pudessem assistir à partida lado a lado. E nos primeiros anos da prática, o setor destinado à torcida mista era um sucesso, com alta adesão do público nos dois estádios.
— Se criou essa situação para combater aquele momento de violência que havia, um momento de violência nacional, e de certa forma também uma violência nos campos. E o Rio Grande do Sul resolveu dar um exemplo a partir da torcida mista. Quer dizer, é possível conviver, é possível ter, é possível participar de um jogo de futebol, congraçando as duas torcidas no mesmo espaço — relembra Romildo Bolzan Júnior, presidente do Grêmio entre os anos de 2015 e 2022.
Se criou essa situação para combater aquele momento de violência que havia.
ROMILDO BOLZAN JÚNIOR
Do lado colorado, Marcelo Medeiros, presidente do clube entre 2017 e 2020, esteve no cargo em 12 dos 20 clássicos em que a torcida mista se fez presente. Ele lembra que defendeu ao lado de Romildo a continuidade do setor visitante, quando entrava em pauta a possibilidade de extingui-lo em clássicos. Como defensor da torcida mista, ele acreditava que a iniciativa era importante para manter as duas torcidas no estádio.
— Tanto eu quanto o Romildo jamais abrimos mão da torcida visitante, da nossa histórica valorização de duas torcidas no mesmo estádio. Eu acredito e defendi essa crença. Que o dia que nós abrirmos mão do torcedor visitante ou do torcedor em um ambiente misto, estaremos perdendo a civilidade — explica Medeiros.
A torcida mista não dava trabalho, porque é um perfil de torcedor pacífico.
MARCELO MEDEIROS
Segundo ele, é um erro achar que odiar o adversário é dar uma demonstração de fanatismo e de se torcedor mais que os outros.
— A torcida mista não dava trabalho, porque é um perfil de torcedor pacífico. Família, namorados, pai e filho, amigos de infância.
O fim da torcida mista

Após 20 clássicos, a torcida mista chegou ao fim sem que boa parte do público percebesse. O primeiro Gre-Nal disputado na Libertadores, no dia 12 de março de 2020, que foi marcado justamente por brigas dentro de campo, com quatro expulsões para cada lado e um placar de 0 a 0, foi também o primeiro sem a presença do setor misto, desde a sua criação.
Na época, as direções de Grêmio e Inter alegaram dois motivos. Primeiro, o regulamento da Conmebol não previa um espaço destinado à torcida mista por questões de segurança nas competições. Depois, as equipes sentiam que existia uma baixa adesão aos ingressos conforme os anos foram passando.
Após o jogo pela Libertadores, a pandemia da covid-19 deixou o futebol sem público. O Gre-Nal voltou a ter a presença de torcedores no clássico 434, no dia 6 de novembro de 2021, válido pelo segundo turno do Brasileirão. Na ocasião, apenas colorados estavam no estádio. A volta das duas torcidas foi no ano seguinte, pela primeira fase do Gauchão, em 9 de março. Na ocasião, não houve um setor misto.
— Por recomendação da Brigada Militar, visto a baixa demanda de torcida, ela foi encerrada em comum acordo entre Inter e Grêmio. Nós separamos 2 mil ingressos, porém, no último jogo de torcida mista foram vendidos pouco mais de 400 — disse o atual 3° vice-presidente do Inter e vice de Administração na época, Victor Grunberg.
Sendo assim, o último Gre-Nal com a presença da torcida mista foi no dia 15 de fevereiro de 2020, quando o Grêmio venceu por 1 a 0 no Beira-Rio e garantiu a vaga na final do primeiro turno do Gauchão. Segundo Romildo Bolzan, após o retorno do público ao estádio, não houve uma demanda para seguir a prática.
— Não houve demanda para a continuidade. Não houve uma reação pública, a ponto de dizer assim "não vai ter mais torcida mista". Ninguém reagiu. Foi absolutamente normal naquele momento — lembrou o ex-presidente do Grêmio.
A torcida mista pode voltar?

Tanto no Grêmio quanto no Inter, a torcida mista é vista como algo positivo, principalmente por atuar como um gesto contrário ao ambiente mais hostil que é criado em algumas partidas de futebol. Mesmo assim, não há nada concreto entre os dois clubes para o retorno dela.
Outra parte que também precisa ser considerada em caso da volta da torcida mista é a Brigada Militar. Pensando nisso, Cláudio Feoli, comandante-geral da BM, explica como é feito o deslocamento da torcida visitante atualmente.
— Hoje a gente tem as duas torcidas com a partida do torcedor adversário a partir do seu estádio. Com um comboio que é fechado com acompanhamento de cavalaria de uma quantidade significativa de viaturas, de helicóptero, posicionamento de policiais sobre os viadutos para que não se arremesse nenhum objeto sobre o torcedor que está se deslocando para o estádio — disse Feoli.
Ele reforça que para um eventual retorno seria necessária a colaboração dos torcedores para evitar conflitos no espaço da torcida mista, como já foi registrado. O comandante também afirma que implicaria em uma operação maior em relação a que é realizada hoje, com as torcidas separadas.
— Depende de uma conjunção de esforços, porque vai desde o princípio da civilidade, que nós não vemos sempre nas torcidas, até a disposição dos clubes. Por parte da Brigada Militar e Segurança Pública requer sim um aparato diferente. Bem maior do que nós empregamos hoje, porque mesmo com todo o clima de parceria que deveria existir, nós tivemos episódios de hostilidades colocadas pra aquele torcedor que vai na torcida mista ali com a camiseta do time oposto muito próximo de si — concluiu Cláudio Feoli, que também relatou que as conversas com os clubes sempre foi tranquila.
De momento, o que se sabe é que os dois lados não devem se opor a uma eventual volta da torcida mista no futuro. Contudo, será necessário um maior interesse por parte dos torcedores que sentem falta do espaço. Até lá, resta torcer para que gremistas e colorados evitem confusões e mostrem que a rivalidade Gre-Nal pode ser disputada dentro de campo e celebrada nas arquibancadas.
Por dentro do Gre-Nal
Quer receber as notícias mais importantes do Tricolor? Clique aqui e se inscreva na newsletter do Grêmio.
Quer receber as notícias mais importantes do Colorado? Clique aqui e se inscreva na newsletter do Inter.











