— A luta não foram só aqueles 42 segundos. Foi tudo que antecedeu aquele momento.
Para se tornar campeão mundial de judô em 2005, a trajetória de João Derly durou 567,993600 milhões de segundos ou em números mais palatáveis 18 anos de treinamentos, lutas e quedas. Para cada segundo em cima do tatame, milhões de litros de suor e de idas e vindas do Morro Santana, onde João morava, foram necessárias.
Uma conquista que não começou no dia 10 de setembro de 2005, data que completa 20 anos nesta quarta-feira, mas que teve um dos seus ápices em um sábado quente no Cairo, no Egito, sede do Mundial daquele ano.

A jornada de Derly
Mas antes de falar sobre o título e da luta contra o japonês Masato Uchishiba, campeão olímpico em Atenas um ano antes, é preciso entender como um gaúcho de 24 anos, 1m64cm e 66kg, superou seus fantasmas e medos para chegar ao topo do mundo — o primeiro brasileiro a alcançar o feito na modalidade.
João Derly e judô são duas palavras que praticamente se confundem. O que era para ser um tratamento para uma bronquite aos seis anos se tornou em profissão e fez com que o judoca nunca mais se separasse dos tatames (atualmente, é treinador da Sogipa).
Após sagrar-se campeão mundial júnior em 2000, aos 19 anos, começaram os problemas para manter o peso de sua categoria, a ligeiro (até 60kg). Um doping, em 2002, fez com que ele ficasse afastado do esporte por seis meses. Os revéses foram acrescidos por uma eliminação prematura no Pan de Santo Domingo, em 2003.
A derrota prematura na República Dominicana, ainda sem que ninguém soubesse, começou a caminhada de Derly até o dia 10 de setembro. Por sugestão da Confederação Brasileira de Judô (CBJ), trocou de categoria. Passou da ligeiro (até 60kg) para a meio-leve (66kg).
O gaúcho fala, hoje, aos quatro cantos, que aquela troca não era do seu agrado, principalmente após não conseguir a classificação para os Jogos Olímpicos de Atenas, em 2004.
— Eu vivi um ano praticamente sabático. Eu dava aula, mas ficava com dúvida se eu continuava me dedicando às aulas ou aos estudos. No começo de 2005, conversei com o Kiko (Antônio Carlos Pereira, treinador) e chegamos a conclusão de tentar mais um ano — relembra o ex-judoca à beira do tatame da Sogipa, em entrevista exclusiva à Zero Hora.
Com o apoio de Kiko e com uma base familiar forte, Derly perseverou e traçou como meta ser campeão mundial em 2005. O que para muitos parecia loucura tornou-se realidade em setembro daquele ano. Aquele campeonato foi a primeira grande competição que disputou na nova categoria.
— Naquele evento, ele era uma surpresa. Era considerado uma zebra. Eu passei para ele muita confiança. Apesar que, honestamente, eu não tinha a certeza que ele iria medalhar. Era a primeira experiência nessa categoria. Eu acho que o fator surpresa ajudou bastante ele — ressalta o Kiko.
O Mundial de 2005
Não importava quem viesse pela frente, Derly derrubava adversário por adversário, das mais diversas escolas do judô mundial. Austríaco, zambiano, húngaro, cubano, georgiano e, por fim, japonês, quase que como uma prova final.
Ali eu percebi que o meu jogo encaixava com o dele e eu tinha chance de vencer
JOÃO DERLY, SOBRE O ADVERSÁRIO EM 2005
Yordanis Arencibia, de Cuba, adversário nas quartas, vinha de um ouro nos Jogos Pan-Americanos de Santo Domingo. Masato Uchishiba, do Japão, oponente na decisão do ouro, era o atual campeão olímpico. Os dois conheceram a força do gaúcho de 24 anos.
A história do brasileiro e do japonês já havia começado antes mesmo daquele dia 10 de setembro de 2005. Em um período de treinamento na Espanha, no começo de 2005, Uchishiba nunca treinava com Derly. Em determinado momento, aceitou. Foram seis ippons seguidos no então campeão olímpico.
No dia seguinte, mais um treino entre os dois. Mais quedas do brasileiro contra o japonês.
— Ali eu percebi que o meu jogo encaixava com o dele e eu tinha chance de vencer. Eu escutava a respiração dele, eu sentia o cheiro do suor. Eu sabia tudo que viveria naquela final — complementa o judoca, agora com 44 anos.

"Derly precisou de apenas 42 segundos para acabar com o japonês Masato Uchishiba na categoria meio-leve (até 66kg). Aplicou um morotegari, a catada de pernas. Tentou três vezes. Nas duas primeiras o adversário conseguiu evitar a queda com as costas no chão – o ippon", escreveu o jornalista Guilherme Fister na "crônica" que contou o título mundial do gaúcho.
A terceira tentativa teve final feliz para o judoca da Sogipa e para seus pais e Kiko, que o acompanhavam a aproximadamente 11 mil km — a distância entre o Cairo e Porto Alegre. Campeão mundial de judô. Um predicado que nenhum brasileiro possuía. Precursor.
