
— É mais fácil, não precisa controlar o peso, mas também não tem controle sobre a luta.
A frase proferida por João Derly é dita com leveza (sem trocadilhos) na saída do elevador do Centro Internacional de Convenções do Brasil, em Brasília. Localizado às margens do Lago Sul, o amplo espaço abrigou as lutas de judô dos Jogos da Juventude. O bicampeão mundial foi um dos técnicos da equipe gaúcha no evento.
Depois da aposentadoria como atleta, trocou o tatame pelos gabinetes políticos. Há dois anos, deixou de lado o terno e a gravata para voltar a trajar o quimono. Trocou a ação dos tempos de judoca pela multiplicação dos questionamentos de um técnico. Será que o seu atleta está entendendo? Será que ele vai colocar em prática o que foi treinado? As perguntas latejam em sua mente.
— Eu fico mais nervoso fora. Quando era ali dentro, eu sabia o que eu tinha que fazer. Fico nervoso como técnico. Como tem várias lutas durante o dia, são vários picos de tensão diários — revela.
Nervosismo de técnico

O nervosismo é visível. Sentado à beira da área de luta, as pernas ficam inquietas, como se estivesse pedalando uma máquina de costura para produzir o mais rápido possível quimonos para um batalhão de judocas.
De repente, levanta, passa instrução. Volta a se sentar. Se apoia na estrutura de madeira à sua frente de modo que apenas dos olhos para cima fique exposto. Os olhos viram dois traços, o que não impede de se entender a luta pelo seu olhar, na vitória e na derrota de pupilos e pupilas.
A fala mansa, por vezes, é atravessada por momentos de dureza. Durante a campanha do bronze da equipe mista gaúcha nos Jogos da Juventude, ficou clara a oscilação natural em um ambiente de tensão. Em um dos confrontos, os atletas reclamam com veemência de uma decisão da arbitragem.
— Vocês são atletas, não juízes — bronqueou o treinador que, instantes depois, consolava uma atleta.
— Eu acho que a maior sensibilidade que a gente tem que ter, e que eu aprendi com o passar do tempo, é conseguir sentir como é que cada atleta consegue se comportar. Tem alguns que se tu acelerar demais, ele não funciona. Tem atleta que precisa de carinho, que precisa de palavras de motivação, de autoafirmação. É saber como motivar cada um — explica.
Desilusão na política
Derly está em seu habitat natural. São anos dedicados ao judô. Além dos treinos como atleta, começou a ensinar os macetes da arte marcial aos 15 anos. Por um tempo, viveu dias de político, como deputado e secretário de estado.
Certamente os abraços são bem mais sinceros do que na época de político. Como o do judoca amapense Khristopher Valente Lemos, de 15 anos. O garoto fez questão de tirar uma foto com o ídolo.
— A política partidária foi um momento, uma opção. Eu acreditava que era importante, ainda acredito que são importantes políticas públicas que voltaram para o esporte. Só que cheguei a um ponto na política que um cara que quer ser do diálogo é esmagado pelos extremos. A politicagem acabou me desgostando muito. É bem mais gostoso hoje estar de novo nos tatames — justifica.
Comemoração da medalha

Os embates contra a Bahia na briga pelo bronze foram encruados. Cheios de idas e vindas. Na luta decisiva, os judocas se engalfinharam a ponto de baterem um monitor de televisão e quebrá-lo.
Após o golpe final, Derly, Alex Pombo, o outro técnico da equipe, e os atletas fizeram uma algazarra. Ele suava como se tivesse disputado a luta decisiva.
Além da medalha por equipes mistas, o Rio Grande do Sul foi ao pódio mais três vezes no judô. Arthur Bonato foi ouro na categoria até 50kg, e Pietro Pelizer na categoria até 60kg e Yago de Mello na categoria até 81kg foram prata.
— A gente vive o sonho junto. Isso que é o legal. A gente se emociona como se fosse uma vitória nossa. E é uma vitória nossa também, porque a gente está lá no dia a dia, com suor, com as dores, com as incertezas, com os temores.
João Derly está leve. Está feliz. Está nos tatames.


