O sentimento de Jardel Gedeael de Souza Ferreira com o futebol em geral e a arbitragem em específico é mais confuso do que seu cartão profissional. No pedaço de papel que entrega a jogadores, técnicos e potenciais clientes, está escrito: garçom, segurança, guarda-costas, massagista, caseiro, portaria, limpeza e árbitro de futebol.
Sobre a última, que considera ser sua profissão atual, é capaz de dizer que só faz pelo dinheiro e que ama a função em um intervalo de sete minutos da entrevista.

Árbitro por acaso
Depois de cuidar de casas, arrumar mercados e fazer massagens, virou árbitro ao acaso, há uma década e meia. Estava limpando o chão de uma quadra quando faltou juiz:
— Eles disseram: "Ô Jardel, apita para nós aí". A R$ 15 a hora, R$ 7,50 para cada equipe. Gostei. A coisa evoluiu, comprei meu fardamento, tudo meu suor, ninguém me deu nada de graça, correndo atrás. E peguei conhecimento, paixão pela profissão. E tem sido assim até hoje.
Peguei conhecimento, paixão pela profissão
Bicos
Quase 70% da renda dele vem de apitar jogos. Os outros 30% vêm dos bicos de qualquer uma das profissões do cartão (ou o que aparecer). Mas é a arbitragem que o encanta:
— Amo apitar. Fico emocionado. A minha filha diz: "Pai, larga essa profissão, tu foi muito agredido". Respondo que faço o que amo. Entro na quadra com dedicação, carinho e qualidade, para entregar um bom jogo.
Entro na quadra com dedicação, carinho e qualidade, para entregar um bom jogo
Quer largar
Sete minutos depois, na mesma entrevista respondeu assim a pergunta "Como é seu dia a dia?":
— Fico em casa de manhã e à noite me desloco para apitar. Mas se puder um dia trocar de profissão, estou aposentando meu fardamento e meu cartão. Porque não dá. Uma hora vão dar um tiro em um árbitro.
Como assim?
— Já apanhei, fui ameaçado de morte. É triste. Na várzea, não tem segurança. Então entra para ganhar moeda, mas é agredido, toma até tiro na cara.
Já apanhei, fui ameaçado de morte. É triste. Na várzea, não tem segurança.
Ele conta:
— Passo das Pedras. Aproximadamente sete anos atrás. Anulei o gol porque o cara ficou na frente do goleiro. Estávamos em dois árbitros, e o colega assinalou gol. Valeu a minha marcação, e eles foram eliminados. E se enfureceram. Se não fosse um amigo a me socorrer, me escoltar até em casa, iam me espancar. Eles foram desclassificados. Mas enfureceram. Foi o momento mais tenso da minha vida.
Bicicleta elétrica
Apesar disso, Jardel fica feliz em apitar. Ou com a consequência disso. Com o dinheiro da arbitragem, conseguiu comprar uma bicicleta elétrica. Roda com ela pela cidade com cartões no bolso e apito na boca.
Mas também pode ser garçom, segurança, guarda-costas, massagista, caseiro, portaria, limpeza...
*Jardel é uma das histórias retratadas na série Profissionais Amadores. As reportagens especiais mostram a vida de pessoas apaixonadas por futebol que complementam a renda com o esporte. Clique aqui para conhecer os outros personagens.


