É na "casinha do Shrek" que estão Vandrey Jardim de Quevedo e Gabriel Massena. Esse é o apelido carinhoso para a cabine de transmissão de jogos de um complexo esportivo na Vila Nova, zona sul de Poeto Alegre.
Mas mais do que narrar, comentar e entrevistar, a estrutura de madeira erguida no meio da quadra ajuda a decidir campeonatos. É lá que o árbitro vai consultar a marcação assinalada quando contestada por um dos times. Sim, nos torneios da NC Esportes, tem VAR.

Pagode e funk
Mas antes de chegar lá, é preciso falar do pagodeiro Vandreco e do funkeiro rapper DJ Massena. Os dois viviam da música até deixarem fluir a paixão por transmitir jogos de futebol 7 de idade livre ou de veteranos. Vandrey era vocalista de uma banda de pagode, Massena, é óbvio, era DJ.
Há quatro anos, Vandrey se descobriu narrador. Há três, transferiu-se para a FioreTV, que transmite essas competições da Zona Sul. Do nada.
— Eu cantava pagode, cara. E o Caixa, meu amigo, me chamou. Disse que tinha tudo a ver. Mas eu nunca tinha narrado um jogo na vida. Vou te falar, não gostava nem de estar próximo da quadra. Não sei driblar, não sei correr, sou goleiro. No começo, me atrapalhava com os nomes e os números dos jogadores. Sofri muito. Mas as coisas foram se ajeitando — recorda.
Vou te falar, não gostava nem de estar próximo da quadra. Não sei driblar, não sei correr, sou goleiro

Malandragem na quadra
Massena começou depois. Também por acaso. Diferentemente do amigo, gostava de futebol e, garante, era bom de bola. Jogava os torneios de X-1 (modalidade de um contra um, em que o drible vale tanto quanto o gol).
— Tenho essa malandragem da quadra, uma linguagem mais popular — orgulha-se.
E não é fácil, porque além de comentar o jogo, precisa operar a câmera. E realmente não pode perder nenhum lance.

Como funciona o VAR
Porque, como foi dito lá no início, no campeonato tem VAR. É um pouco diferente do futebol, mais parecido com vôlei e futsal. Funciona assim: o time que se sentir prejudicado tem direito a um desafio.
Mas ele só pode ser acionado para gol, pênalti, agressão ou shoot-out (a sexta falta, executada em um atacante versus goleiro em até cinco segundos).
— Mas só temos uma câmera. O que vale é aquela imagem ali — reforça Massena.

Até oito jogos por dia
Por isso, precisa ter atenção total. A recompensa de cada um deles é um cachê de R$ 130 por partida. Em uma noite de rodada regular, dá quase R$ 400. Mas há torneios com até oito jogos em um dia. Voltam para casa com a conta cheia.

Mas não é só pela grana. Massena diz:
— Já trabalhei de borracheiro, vendi fruta no sinal, fui entregador de lanche. Ainda hoje, foco na música. Mas a transmissão me salva em casa, a ficar com minha sobrinha, ajudar na criação dela. Nossa conexão aumentou.
Agradeço a Deus todos os dias por isso. Eu trato futebol como se fosse a minha vida
Para Vandrey, a transmissão é o que garante o sustento da família:
— Amo estar aqui. Trabalhamos mas somos bem remunerados. Agradeço a Deus todos os dias por isso. Eu trato futebol como se fosse a minha vida.
Acompanhe uma transmissão pela FioreTV
Já trabalhei de borracheiro, vendi fruta no sinal, fui entregador de lanche. Ainda hoje, foco na música. Mas a transmissão me salva em casa
*Vandreco e Massena são histórias retratadas na série Profissionais Amadores. As reportagens especiais mostram a vida de pessoas apaixonadas por futebol que complementam a renda com o esporte. Clique aqui para conhecer os outros personagens.






