O "Velho Menezes". É assim que é conhecido nas quadras da zona norte de Porto Alegre o cidadão Vanducir Moisés Menezes da Silva. Para ser mais preciso, o comum é ouvir:
— Como é bom goleiro o Velho Menezes.
O goleiro Menezes é bastante conhecido por lá. Pudera. São mais de 1,7 mil jogos como goleiro de aluguel. É como se ficasse mais de dois meses jogando bola sem parar. Tudo isso aos 69 anos, completados em 18 de fevereiro.

Ex-goleiro profissional
Mas só isso não resume uma trajetória de quase sete décadas. Nem mesmo a de goleiro de aluguel. Porque antes de ganhar por hora, Menezes recebeu salário de verdade para defender balizas. Em Ijuí, sua terra natal, foi goleiro do São Luiz em 1976, logo depois de encerrar o serviço militar obrigatório. Ficou apenas uma temporada.

Ex-motorista profissional
Deixou o noroeste gaúcho para a Região Metropolitana e passou o resto da vida profissional dirigindo ônibus. Foi motorista até 2004, quando se aposentou. Ficou em casa, teve algumas atividades extras até a pandemia. Quando a covid começou a arrefecer, em 2021, ele se inscreveu no Goleiro de Aluguel.
— Fui curtir a vida com minha esposa, tenho minhas agendas na igreja. E entro no aplicativo para manter o corpo em movimento. Não gosto muito de academia. Gosto é de ser goleiro. E ainda por cima, aumento a renda — explica.
Não gosto muito de academia. Gosto é de ser goleiro

Vitória contra o câncer
Os jogos realmente incrementaram os cofres da família. No auge da "carreira", chegou a faturar R$ 1,8 mil em um mês. O problema é que esse "auge" durou pouco.
Na metade do ano passado, Menezes sentiu dores na região escrotal. Seguia jogando, mas com incômodo. Quando finalmente conseguiu um agendamento pelo SUS para uma cirurgia para uma inflamação no testículo, descobriu um câncer no saco escrotal.

Retorno após oito meses
Era 12 de julho de 2024. Na mesma semana, iniciou a quimioterapia. Foram 20 sessões, cada uma durando entre três e quatro horas. O equivalente a 60 joguinhos, uns trocados a mais.
— Depois da última quimioterapia a gente fica destruído. Fiquei pálido, caiu o cabelo. Aos poucos perde o apetite. Sinto até hoje os sintomas da quimioterapia, canso mais fácil. Mas pensei: "Ou eu vou para a academia ou volto a jogar, né?".

Tragédia pessoal
Foi assim que exatos oito meses depois da cirurgia, em 12 de março de 2025, Menezes voltou a jogar.
E jogar era importante não só para reagir ao tratamento. Mas porque ele encontrou no futebol um escape para um problema que transforma a quimioterapia em quase nada. Em 2015, durante um retiro dos pastores da Igreja Adventista, seu filho mais novo se afogou em uma piscina.
— Ele ia fazer 35 anos em uma semana. Isso aí te derruba. Minha esposa, por sete anos, tomou remédio para dormir. Graças a Deus, ela conseguiu parar com os remédios. Mas isso acaba com a gente. Dizem que o tempo ameniza, mas não ameniza — reflete.
Dizem que o tempo ameniza, mas não ameniza

Força da família
Seu outro filho mora em São Paulo. Ele e a esposa incentivam o futebol. Menezes explica:
— O futebol é o que me ajudou na minha cabeça. Se ficar em casa dormindo e comendo, além de estufar de gordo, a cabeça não fica boa. Meu filho me diz para me exercitar, me alimentar, fazer exercício e conseguir jogar. Minha esposa veio comigo nos primeiros jogos, até para ver a reação. Falei para o médico que precisava voltar.
Se ficar em casa dormindo e comendo, além de estufar de gordo, a cabeça não fica boa
Quanta história está por trás dos quase 2 mil jogos de Vanducir Menezes. O Velho Menezes. Como é bom goleiro o Velho Menezes.

*Velho Menezes é uma das histórias retratadas na série Profissionais Amadores. As reportagens especiais mostram a vida de pessoas apaixonadas por futebol que complementam a renda com o esporte. Clique aqui para conhecer os outros personagens.







