Enquanto Tatiane Rosenstengel Stoduto põe a roupa de árbitra sentada em um banco do vestiário, um homem fardado para jogar faz xixi na cabine ao lado. Ela nem nota. Está acostumada a dividir o espaço com homens. Antes isso do que uma agressão, um xingamento, uma humilhação.
Nada disso aconteceria naquela noite, logo após terminar de se vestir e entrar na quadra para apitar um jogo. Feminino. Depois de dirigir o dia inteiro para aplicativos de transporte, foi uma renda extra tranquila. Mas nem sempre comandar jogo é menos arriscado do que pegar passageiros desconhecidos.

Cicatrizes da violência
Anos atrás, sofreu um roubo enquanto guiava seu carro em busca de passageiro. Arma apontada e tudo. Mas não foi isso que trouxe cicatrizes.
— Já fui assaltada no Uber, mas o pior foi na quadra mesmo. A humilhação de ouvir algumas palavras é muito pior do que perder teu bem material. O carro, que me levaram, reconquistei. Mas aquilo que dizem fica mais marcado, te toca em alguma coisa que dói — recorda.

Boletim de Ocorrência
É impossível não pensar nisso quando vai apitar um jogo masculino. Ainda mais se forem homens que não conhece. Tempos atrás, passou por uma situação lamentável.
— Vivi um momento divisor de águas. Tive até de fazer BO por conta de coisas muito cruéis que disseram dentro de quadra. Foram xingamentos pesados, preconceituosos. Não teve agressão por pouco.

Conversa no Uber
No Uber, dá um jeito de passar horas divertidas para arrecadar 80% de sua renda mensal. Todas as manhãs, sai de sua casa, em Alvorada, para transportar clientes, alguns fixos outros esporádicos. Faz isso enquanto tem luz natural.
— Gosto de ter contato com as pessoas, de conversar, de conhecê-las. Não gosto muito de ficar presa em um lugar, assim, sabe? Às vezes a pessoa só quer desabafar, ter alguém para conversar — explica.

Às vezes a pessoa só quer desabafar, ter alguém para conversar
"Não posso desistir"
Depois do Uber, vai para as quadras. Lá, também se depara com gente com problemas e que usa o esporte para espairecer. Ou para extravasar angústias e decepções pessoais. Foi uma situação dessa que a fez passar pelo drama relatado acima.
— No dia, pensei: "Isso não é para mim, não quero mais". Aí dei um tempo. Mas no final do ano, botei a minha cabeça no lugar e pensei: "Lutei por isso, não posso desistir agora".

Em busca de espaço
Mais do que não desistir, agora ela quer aumentar seu espaço. Fez o curso da Federação Gaúcha de Futsal, formou-se em 2019. Lamentou só ter apitado duas vezes. As associações de arbitragem também têm seus preferidos, ela aponta. Vale a pena esse estresse todo por apenas 20% da renda?
— Se eu pudesse viver da arbitragem, viveria, com certeza. Mas faço mais pelo amor ao esporte mesmo do que pelo dinheiro. Vou por mim. O que me motiva a ficar nessa área é o jogo de horário. É o que me sustenta, é o que paga a minha gasolina. Dou mais valor hoje em dia aos times que me contratam — completa.

Como as gurias que a chamam todas as segundas das 20h às 21h. Um jogo no qual ela se orgulha de comandar:
— Elas respeitam. E elas respeitam porque sabem como é ser mulher no futebol.

*Tatiane é uma das histórias retratadas na série Profissionais Amadores. As reportagens especiais mostram a vida de pessoas apaixonadas por futebol que complementam a renda com o esporte. Clique aqui para conhecer os outros personagens.






