
O futebol gaúcho tem uma tradição tão antiga como a rivalidade entre Grêmio e Inter. É a gangorra, expressão atribuída a Lauro Quadros, para definir como funciona a disputa Gre-Nal. O normal é que, quando um está por cima, o outro está por baixo. Mas em 2025, a gangorra parece quebrada. E no pior sentido: os dois estão no chão.
A dupla Gre-Nal não tem dinheiro como Flamengo e Palmeiras, os dois líderes do Brasileirão. Mas os orçamentos de Grêmio e Inter são superiores ao de pelo menos seis times que estão na frente na tabela. O que explica, após 21 rodadas, os dois maiores representantes gaúchos não estarem nem sequer na zona de classificação para a Sul-Americana do ano que vem?
Juntos, Grêmio e Inter investirão mais de R$ 1 bilhão em futebol até o encerramento da temporada. São contratações, salários e até premiação (sabe-se lá por que). Mas a verba gasta não está à altura dos resultados. Claro que dá tempo de recuperar ainda este ano, mas a preocupação de torcedores vai para o futuro. A perspectiva, talvez influenciada pelo mau momento, é desanimadora.
Em 13º e 14º, respectivamente, no Brasileirão, Inter e Grêmio estão olhando mais para quem vem de baixo do que para quem ocupa os lugares de cima. E aí não é só uma questão de orçamento.
Problema nos elencos
Os dois grupos de jogadores parecem insuficientes. Ou, no mínimo, mal montados. Há exemplos claros: o Grêmio ficou mais de um semestre sem um zagueiro destro e uma alternativa para a lateral direita. O Inter até agora não encontrou um reserva para Bernabei, e ficou um tempão sem um substituto para Aguirre, o jogador de linha que mais entrou em campo no Brasil em 2025.
Isso sem contar na sobreposição de jogadores da mesma função. No caso colorado, Borré e Valencia, dois dos maiores salários do time, nas mãos de um técnico que prefere jogar com um atacante só. No caso gremista, a presença de oito volantes — e que só não foram nove porque Caíque foi reprovado nos exames médicos.
É necessário buscar eficiência, controle de custo, melhor formatação das equipes.
CÉSAR GRAFIETTI
Economista e consultor de gestão e finanças do esporte
Contratar jogadores não é ciência exata. Um reforço dar certo ou não tem influência de muitos fatores, inclusive o ambiente. E até, por vezes, a sorte, que no futebol ganha o apelido de "liga". Mas a essa altura da evolução do esporte, em 2025, errar tanto assim escancara uma falta de planejamento e, possivelmente, de competência.
A alternativa
César Grafietti, economista e consultor de gestão e finanças do esporte, aponta um caminho possível para clubes do porte da dupla Gre-Nal encarar as megapotências recentes do futebol, como Flamengo e Palmeiras.
— É tratar bem o futebol. Usar processos eficientes de contratação, scouting, inteligência, observação, formar atletas de boa qualidade. A formação é importante nessa construção da gestão esportiva — destaca, e continua:
— Precisamos ter cada vez mais profissionais qualificados com uma visão de longo prazo e menos dirigentes, menos cartolas tocando futebol. Ainda vemos casos de executivos que chegam aos clubes e não têm autonomia. Primeiro porque nem todos eles são capazes mesmo. E segundo porque os dirigentes amadores, o pessoal dos clubes, é que fazem as coisas do dia a dia.
O economista enfatiza a receita para melhorar o cenário da dupla Gre-Nal:
— É necessário buscar eficiência, controle de custo, melhor formatação das equipes. É isso que vai fazer clubes de melhor receita montar times competitivos e brigar por boas posições nos campeonatos.
Grafietti lembra que a Atalanta, da Itália, tem 60% do orçamento de Inter, Juventus, Milan, e mesmo assim frequenta a Champions League, ocupa os primeiros lugares. Para isso, tem um processo eficientíssimo de seleção de atletas, formação, e assim encontra atletas de custo baixo, vende a valores altos e recicla os ativos. O processo a deixa capaz de montar bons elencos e equipes competitivos.
— Se gastar mais do que posso, transformo em uma bola de neve tremenda e os resultados não aparecem. Não existem resultados fazendo tudo errado. Temos de frear esse processo. Dar espaço para profissionais qualificados, estruturar as áreas, buscar os benchmarks no futebol europeu que fazem bem esse trabalho e recriar as áreas esportivas nos clubes — completa.
"Não pode mais tratar futebol como hobby"
Antonio Tabet, ator, roteirista, comediante e, principalmente, especialista em comunicação, esteve no programa Bola nas Costas, da Rádio Atlântida, de sexta-feira (29). Ele falou sobre o período em que fez parte da direção do Flamengo, como vice-presidente de comunicação do clube durante o período de reestruturação. E revela como o profissionalismo se impôs sobre a gestão abnegada.
— O futebol é sazonal. Mas o que está acontecendo de uns anos para cá é de que o futebol se profissionalizou muito. Então não pode mais tratar futebol como hobby.
O fato é que, em 2025, a decepção com o futebol gaúcho grita também fora do Estado. Jader Rocha, gaúcho, narrador do SporTV, traz uma visão externa para um conteúdo sobre o qual conhece bem.
— A torcida da dupla Gre-Nal não tem motivo para sorrir, para comemorar. E não vê perspectiva de melhora a curto prazo, nessa reta final de temporada. Grêmio e Inter, com as campanhas muito abaixo do que se imaginava, lutam pela sobrevivência — comenta, e segue:
— É fruto do mau planejamento, da forma como estão sendo conduzidos, pela falta de ideias dos times, que se reflete nessa pobreza técnica e tática. Estão muito distantes dos principais concorrentes, dos clubes que detêm a dianteira no nosso futebol.
Matemática
Faltando 18 jogos, Inter e Grêmio estão na fase das contas. Para beliscar o G-6 e estar na Libertadores do ano que vem, terão de atingir 65% de aproveitamento de agora em diante. Bem acima dos 40% atuais. Segundo o matemático Gilcione Nonato Costa, do Departamento de Matemática da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), trata-se de menos de 2% de chances.
Mais realista é o cálculo para fugir do rebaixamento. Para isso, servirá manter o que tem sido feito. Com o aproveitamento atual, ambos deverão escapar do Z-4 sem sustos.
O que, convenhamos, é pequeno demais para duas entidades tão gigantes do futebol brasileiro. A luta é para reconstruir a gangorra.
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