
Renato Portaluppi acredita que os técnicos brasileiros saem mais fortalecidos e respeitados após o Mundial de Clubes.
Às vésperas de disputar a semifinal da competição contra o Chelsea, o comandante do Fluminense atendeu a reportagem de Zero Hora na noite deste domingo (6), na concentração do clube carioca, em Millburn, a 40 quilômetros do centro de Nova York.
Renato brinca com jornalista: "Desligou o carro?"
Em uma entrevista de 25 minutos, Renato disse que os técnicos europeus têm a aprender com os brasileiros, afirmou que o futebol do Brasil evoluiu sobretudo defensivamente e garantiu que irá convidar o técnico do Palmeiras, Abel Ferreira, para a aguardada partida de futevôlei, no Rio de Janeiro.
O ídolo gremista explicou ainda a sua saída do Grêmio, em 2024. Fez um mea-culpa, admitiu que estava nervosos nas suas últimas entrevistas coletivas e afirmou que um dia voltará ao Tricolor gaúcho.
O Mano e o Felipão estão por lá, e o Grêmio vai voltar forte. Meu carinho pela torcida é eterno.
RENATO PORTALUPPI
Disse que vê torcedores identificados com as cores do Grêmio torcendo por ele em todos os jogos do Fluminense e garantiu já ter pensado em uma estratégia para neutralizar o Chelsea, na semifinal marcada para esta terça (8), no MetlLife, em Nova Jersey.
Confira abaixo a entrevista exclusiva com o técnico do Fluminense, Renato Portaluppi.
Entrevista com Renato Portaluppi
Você acredita que, muito pelo seu trabalho, os treinadores brasileiros sairão desse Mundial valorizados?
Eu não tenho dúvida alguma. O futebol brasileiro sempre exportou grandes craques, atacantes. E hoje nós estamos mostrando que também sabemos fazer a parte defensiva e sabemos trabalhar a parte tática para neutralizar grandes clubes do futebol europeu.
Foi dessa forma que eu pensei e estudei como enfrentar o Borussia e a Inter de Milão. Os esquemas que coloquei em campo deram certo, apesar do pouco tempo de treinamento. Foi assim também no último jogo (contra o Al-Hilal).
Agora, a gente está pensando em como enfrentar o Chelsea. Estudei bem a maneira como eles jogam e vou tentar armar um esquema para criar dificuldades para eles e conseguirmos nosso objetivo, que é chegar na final.
Sabemos que não é nada fácil. Mais um compromisso difícil contra uma grande equipe, muito bem treinada. Mas o Fluminense vem chegando. Já enfrentamos grandes adversários, passamos, e agora temos mais esse desafio pela frente: o Chelsea.
Muito já falamos que o futebol brasileiro precisava aprender com a Europa. Com tudo que está acontecendo nesse Mundial, você acredita que os técnicos europeus agora também têm algo a aprender com os brasileiros?
E por que não? A gente aprende todo dia. Eu procuro ver o que os técnicos europeus fazem, tiro as coisas boas que eu acho que valem a pena. Inclusive, falo para o meu grupo: “Olha, dessa forma aqui os treinadores europeus jogam”.
Mas também tem muitas coisas que eu jamais faria, porque eu não gosto dessa maneira. Então, tem coisas boas que eu tiro, e coisas que, na minha opinião, eu jamais vou aplicar. Eu gosto de trocar bastante ideias com meus jogadores.
Pode ter certeza de que os europeus também aprendem com a gente. A grande vantagem deles, é o grupo que eles têm e o dinheiro que eles têm. Eles montam e desmontam seus times praticamente como uma seleção, contratam os melhores jogadores. Isso facilita demais.
Lá no Brasil, a gente não tem esse dinheiro todo. Mesmo assim, estamos mostrando nesse Mundial que o futebol brasileiro merece respeito. O Fluminense está aqui entre os quatro melhores, mas até pouco tempo atrás o Palmeiras, o Botafogo, o Flamengo também estavam fazendo uma grande Copa. Mesmo sem cofres cheios, os clubes brasileiros estão mostrando seu valor.
AVocê recebeu um elogio muito forte do técnico do Palmeiras, Abel Ferreira, na sua última entrevista. Como você reagiu? Você já o convidou para uma partida de futevôlei? Ele fez essa cobrança na entrevista.
O Abel é um grande treinador, sem dúvida alguma. Fiquei triste que o Palmeiras saiu da mesma forma que o Botafogo e o Flamengo, até porque nós estávamos representando o futebol brasileiro, o futebol da América do Sul. E hoje, o que menos tinha crédito, no caso, o Fluminense, está numa semifinal, pelo trabalho que a gente vem fazendo aqui.
Fiquei muito feliz com os elogios do Abel e pode ter certeza de que, na volta ao Brasil, na primeira oportunidade, vou convidá-lo para jogar um futevôlei, tomar um chopinho e curtir uma praia. Até porque a gente merece, né?
Tem gente que gosta de pescar, ele gosta de caçar, a gente gosta de fazer churrasco, a gente gosta de praia. Fazer o quê? O mais importante de tudo é esse trabalho que a gente vem fazendo com o Fluminense.
Hoje somos semifinalistas, entre os quatro melhores do mundo, eliminando grandes equipes do futebol mundial. Agora o nosso próximo objetivo, com todo o respeito, é passar também pelo Chelsea, para que a gente possa chegar à final, que é o sonho de todo mundo.
Quando vi a tua escalação contra a Inter de Milão, me lembrei de 2013, talvez a tua passagem menos badalada pelo Grêmio. Você foi vice-campeão brasileiro atuando muitas vezes com três zagueiros e três volantes. Teve alguma referência daquela época? E dá para dizer que uma das tuas virtudes é saber adaptar diferentes estratégias a diferentes contextos?
Perfeito. Não é só nesse Mundial, a maior prova foi lá no Grêmio também. Você é testemunha disso. Em várias dificuldades, eu mudei várias vezes o esquema, usando dois, três esquemas que deram certo nas competições. Então isso não é novidade.
Eu estudo bastante os adversários, vejo como eles jogam e procuro armar o esquema do meu time para neutralizar as principais jogadas do adversário, mas nunca deixando de jogar.
Qual o teu estilo preferido?
Jamais vou abrir mão de que meu time jogue. Gosto de futebol ofensivo. Muita gente que não entende de tática acha jogar com três zagueiros é ser defensivo. Não é bem assim. Depende dos alas, depende da proposta. Às vezes com três zagueiros o time é até mais ofensivo.
O importante é que já mudamos duas, três vezes o esquema no Mundial e os jogadores têm assimilado muito bem. São inteligentes e, mesmo com pouco tempo de treino, se adaptaram ao novo esquema com três zagueiros. E a gente não tem só esse plano. Jogamos no 4-3-3, no 4-4-2. Sempre estudo o adversário para ver qual forma é melhor enfrentá-los.
Em uma coletiva recente, você disse que o que mais entende é de parte tática, mas que prefere discutir isso com o grupo e não com a imprensa. Gostaria de falar de tática contigo. Muitas vezes se criou aquele personagem do Renato da praia, do futevôlei, o gestor de grupo. Mas e a tática? Como você aprendeu? E quais são as tuas principais referências?
Deixa eu te falar uma coisa: eu assisto muitos jogos da Europa. Joguei durante 20 anos, trabalhei com os melhores treinadores. Sempre procurei tirar o melhor de cada um. Ninguém é perfeito. As coisas que eu não gostava, eu deixava de lado.
Hoje, vejo como os treinadores montam suas equipes aqui fora. E te digo: não é tão diferente assim daquilo que eu penso. Vejo vários vídeos de grandes técnicos, recebo vídeos de preleções nos vestiários, e não tem nada muito diferente do que eu passo pros meus jogadores. Então fica a pergunta: será que são tão diferenciados assim?
A diferença está no grupo deles. Mas não estou tirando os méritos, merecem os elogios. Só que sempre com grandes elencos na mão. Nós, treinadores brasileiros, muitas vezes temos que fazer omelete sem ovo. Temos que dar resposta o tempo todo. Se não ganhamos quatro ou cinco jogos, somos mandados embora, coisa que não acontece aqui fora. Eles têm tranquilidade maior para trabalhar.
Por que você não fala mais sobre tática nas entrevistas?
Muita gente quer que eu fale de tática nas entrevistas. Com todo respeito a vocês, jornalistas, eu não tenho que falar de tática com a imprensa. Se eu falar de tática, estou ensinando o meu adversário. Tática eu falo com o meu grupo.
E outra coisa: muita gente da imprensa fala de tática, mas nem todos entendem de tática. É fácil falar depois que o jogo acaba. O cara que opina sem entender é o engenheiro de obra pronta. Por que não fala antes do jogo? Diz: “isso aqui não vai funcionar, por isso e por aquilo”. Se der certo, vão dizer “o esquema foi ótimo”. Se não der, “estava na cara que ia dar errado”.
É muito fácil ser comentarista. E querem que eu fale de tática? Joguei 20 anos, estou no futebol há mais de 40. Aí o cara cai de paraquedas e quer discutir tática comigo? Não dá. São esses poucos que gostam de me perseguir. Talvez agora, mesmo contra a vontade, tenham que dar o braço a torcer.
Tem algum treinador que você citaria como referência tática para ti? Alguém de quem você realmente aprendeu mais?
Eu estaria sendo injusto se citasse um ou dois. Trabalhei com os melhores treinadores do futebol brasileiro. Vejo muitas partidas do futebol europeu. Observo como os treinadores trabalham com seus jogadores. E volto a repetir: não é tão diferente assim. A diferença está no poder financeiro.
Se você tem um bom treinador e um plantel fortíssimo, sua chance de vencer é muito maior. Agora, quando o treinador não tem tudo isso e mesmo assim faz grandes trabalhos, aí sim você vê o diferencial. O meu currículo fala por mim. Ou será que eu comprei todos os títulos que ganhei? Acho que não, né? Foi trabalho.
Seu currículo fala por si, como jogador e como treinador. E dos técnicos ainda em disputa no Mundial, você é o único que já jogou o Mundial. Aliás, disputou todas as versões. Isso te dá um diferencial? E te dá um orgulho especial?
Sem dúvida alguma. Se eu disputei todos os Mundiais até hoje, isso se chama uma palavrinha só: competência. Por ter participado de todos os Mundiais, eu tenho um respeito muito grande do grupo.
Fui campeão como jogador e como treinador da Libertadores. Fui campeão mundial como jogador. E agora tenho a oportunidade de ser campeão como treinador. Ainda falta muita coisa: passar pelo Chelsea e fazer uma final. Mas sim, é um diferencial.
Quando eu falo com o grupo, eles sabem quem está falando. Não é um cara que caiu de paraquedas. Minha história é antiga, é bonita. E, sem dúvida alguma, isso me motiva muito a conquistar o mundo como treinador.
Imagino que a Carol não tenha te convidado para jantar no dia do jogo contra o Chelsea. Você deve ter feito o dever de casa.
Ela até tentou, mas eu falei: não dá. Tem que assistir aos jogos. Eu tô aqui a trabalho, ela tá a lazer. Mas tá sofrendo junto com a gente, torcendo muito, rezando. Mas é filha, né? A gente sempre dá um desconto.
O mais importante é a campanha que a gente vem fazendo, representando bem o futebol brasileiro, da América do Sul, e mostrando que os treinadores brasileiros merecem respeito, inclusive da Europa. Temos grandes treinadores no Brasil.
Renato, os torcedores do Grêmio torcem muito por ti e pelo Fluminense. De que forma as tuas passagens pelo Grêmio te calejaram para estar aqui? E por que você saiu do Grêmio no ano passado? Foi um ciclo que acabou? Foi melhor assim?
Acho que sim. Eu havia falado para o presidente Guerra antes mesmo de acabar o Brasileiro: “Olha, eu garanto que o Grêmio não vai cair. Mas no final do ano eu vou embora”. Eu precisava descansar, trocar de ares. E tive vários clubes grandes que me procuraram: Vasco, Santos, Corinthians, Cruzeiro. Mas eu queria férias.
Sempre serei grato ao Grêmio e à torcida. Muitos torcedores do Grêmio estão nessa Copa do Mundo com a camisa do Grêmio. Tenho visto, reconhecido, apontado pra eles do campo.
Curti minhas férias, depois voltei ao Fluminense. Sempre serei grato ao Grêmio e à torcida. Muitos torcedores do Grêmio estão nessa Copa do Mundo com a camisa do Grêmio. Tenho visto, reconhecido, apontado pra eles do campo. Outro dia mesmo vi um torcedor sozinho, no terceiro anel, com a camisa do Grêmio. Apontei pra ele. E no jogo contra a Inter também, muitos gremistas nas arquibancadas.
Recebo milhares de mensagens do Rio Grande do Sul. Isso me deixa muito feliz. Sei que a torcida do Grêmio torce por mim, da mesma forma que eu tenho um carinho imenso por eles. Eu falei que queria sair, e era o momento de descansar.
As suas últimas coletivas no Grêmio foram mais tensas. Você disse inclusive que queria ver se o treinador seguinte faria 50% do que você fez. Por quê? E você avalia voltar um dia?
Não quer dizer que jamais voltarei. Um dia eu volto. Quem sabe um dia eu volto? Mas, naquele momento, estava tudo muito desgastado. Muita gente não entendia, e às vezes eu me expressei mal, fiquei um pouco nervoso nas coletivas.
A pressão era muito grande. Tivemos enchente, jogamos fora da Arena. E tinha gente que queria minha saída, não vou citar nomes. Mas o torcedor do Grêmio não é burro. Ele sabe quem são.
Quando falei que queria ver alguém fazer 50% do que eu fiz, é porque eu sabia da minha importância. Eu fazia parte de todos os setores do clube.
Continuo torcendo. O Mano e o Felipão estão por lá, e o Grêmio vai voltar forte. Meu carinho pela torcida é eterno. E vida que segue. Daqui a pouco voltamos pro Brasil, e a gente se encontra por lá.

Assista à entrevista na íntegra:



