
Homem da palavra, falada e escrita, Ruy Carlos Ostermann, que faleceu nesta sexta-feira (27), em decorrência de um pneumonia, em Porto Alegre, foi muitos em um só. Sua maior notoriedade se deu pela habilidade na crônica esportiva, mas ao longo dos seus 90 anos de vida exerceu influência em áreas como educação, ensino, filosofia e política.
O interesse pela reflexão e pela comunicação fluída brotou desde muito jovem. No café de propriedade do pai aprendeu a conversar, ouvir, falar. Aficionado pela leitura, Ruy encontrou nas letras uma janela para o mundo. Foi por meio dos livros que iniciou o exercício do pensamento, uma de suas marcas nas suas atuações profissionais.
— Gostava muito de ler. Consumia ficção. A leitura me despertou o prazer da reflexão, ou seja, como as coisas podem ser reelaboradas, adquirir outro sentido e ter significado para outras pessoas também, não só para si. Soube desenvolver essa qualidade relativamente bem, o que me ajudou a abrir muitas direções. A filosofia encaixa aí — explicou em entrevista a Zero Hora, em 2016.
O apelido de “Professor” não foi recebido por acaso. Ele já atuava como jornalista nos jornais da Companhia Jornalística Caldas Júnior. Formado em filosofia, Ruy lecionou no Colégio Israelita Brasileiro e no Colégio João XXIII, na Capital.
— Eu era um sujeito da universidade, estudante de filosofia, que ali escrevia sobre futebol. Aparentemente, não tinha nada a ver. Tenho orgulho de ser um sujeito versátil. Faço várias coisas relativamente bem, não necessariamente numa só direção. Dei aulas de filosofia inclusive na faculdade e continuei trabalhando em jornal — declarou em entrevista à Zero Hora em 2016.
A vida política de Ruy Carlos Ostermann
Um homem de tantas ideias e tantos pensamentos não pode se restringir apenas a uma área. Também se aventurou na vida legislativa e executiva da política gaúcha. A pedido de Ibsen Pinheiro e de Pedro Simon concorreu a deputado estadual pelo PMDB, hoje MDB. Foi eleito para duas legislaturas, em 1982 e 1986.
Eu era um sujeito da universidade, estudante de filosofia, que ali escrevia sobre futebol. Tenho orgulho de ser um sujeito versátil
Em 1986, Simon assumiu o Piratini. Durante o governo do peemedebista, Ruy esteve à frente das secretarias de Ciência e Tecnologia e de Educação. Foram oito anos de forte atuação e aprendizado.
— Você aprende que não pode se isolar. Você tem que considerar o outro e se readaptar. Este exercício exige talento. Aceitei o convite do Ibsen Pinheiro e do Pedro Simon para concorrer a deputado estadual pelo PMDB. Eleito governador, Simon me chamou para criar a secretaria de Ciência e Tecnologia. E depois, para a enorme tarefa de comandar a Educação — contou.
Durante o período, em 1998, como secretário de Ciência e Tecnologia, Ruy foi eleito como presidente do Fórum Nacional de Secretários de Ciência e Tecnologia, o evento reuniu todos os titulares da área em todos os estados brasileiros. O Fórum tinha como prioridade a defesa da nova política industrial brasileira. Sua missão era intensificar a interlocução com outros ministérios como Fazenda, Planejamento, Educação e Cultura.
Em setembro de 1988, Ruy trocou de pasta e assumiu como secretário de educação. No ano seguinte, sob sua gestão, a secretaria lidou com uma greve de 42 dias. Dela resultou reajuste salarial parcelado de 54% e nomeação de 3 mil professores.
— Temos que fazer da educação uma tarefa maior do que a dos partidos e dos cargos. Não se faz educação com homogeneidade. Se faz educação com divergências — declarou dias antes de ser empossado.
Não se faz educação com homogeneidade. Se faz educação com divergências.
O lado cultural do Professor
Sua vida pública também ficou marcada por sua relação com a cultura. Por anos apresentou o “Gaúcha Entrevista”, atração que ia ao ar de segunda à sexta-feira na Rádio Gaúcha. No programa entrevistava artistas e agitadores culturais das mais diferentes vertentes.
Logo esta faceta ganhou vida própria fora das ondas do rádio. Em 2004 criou o Encontros com o Professor, talk show formatado ao lado da filha Cristiane em que Ruy entrevistava personalidades relevantes da cena cultural. Dois anos antes, foi eleito patrono da Feira do Livro de Porto Alegre. Das palavras do Professor foram publicados 11 livros.
— As pessoas querem qualidade. O programa de entrevistas com artistas e de gente da área cultural era no meio da tarde, na Gaúcha. A audiência sempre me surpreendeu. Vivemos uma crise aguda nas comunicações. As pessoas estão buscando informações em outros lugares. Veio o online, com uma informação mais rápida, mais simples. O que era pensamento, construção, elaboração, desdobramentos, isso se perdeu. Não digo que se perdeu para sempre, mas é algo que temos de recuperar — refletiu.
Em 2011, foi condecorado com o Mérito Farroupilha, honraria máxima do parlamento gaúcho, em iniciativa do deputado estadual Adão Villaverde, então presidente da Assembleia Legislativa.
— O Professor nunca deixou de ser firme em suas ideias e convicções. É um jornalista e, principalmente, entrevistador de técnica insuperável —enfatizou o parlamentar.



