
Até o momento em que Carlo Ancelotti estrear, nesta quinta-feira (5), o último técnico estrangeiro da Seleção Brasileira terá sido um argentino que comandou um combinado especial e que tem uma relação involuntária com o Inter. Nelson Ernesto Filpo Nuñez, um revolucionário e controverso treinador, que comandou equipes por todo o país era tio de Eduardo Coudet.
É relativamente conhecida a razão pela qual Filpo treinou a Seleção. Ele era técnico do Palmeiras há 60 anos. Em 7 de setembro de 1965, o time paulista representou o Brasil em um amistoso contra o Uruguai, no festival de inauguração do Mineirão.
Mas até chegar a esse ponto, muito se passou. São quase 40 equipes dirigidas no país entre 1955, no São Bento de São Caetano do Sul, e 1997, no time feminino do Palmeiras. Andou pela elite em Cruzeiro, Corinthians, Vasco, Portuguesa, Coritiba, Athletico-PR; passou pelo interior em América de São José do Rio Preto, Jabaquara e Portuguesa de Santos, XV de Piracicaba, Uberaba, Marília, Araçatuba, Catuense, entre outros. Fora do país, trabalhou em Portugal, Equador, Espanha e Argentina.
Ele coleciona histórias curiosas e folclóricas. Diz Leonardo Miranda, no GE.Globo, que ele teve de se explicar por incentivar os jogadores do Corinthians a beber antes dos treinos para espantar o frio. Em uma entrevista à Placar em 1975, quando treinava o São Bento de Sorocaba, revelou que gastou boa parte de sua fortuna em noitadas e em presentes para sua primeira mulher, com quem teve um casamento de pouquíssimo tempo.
Mas reduzi-lo aos causos é diminuir sua importância para o futebol brasileiro. Criou nada menos do que a Academia do Palmeiras. Muito mais do que um time vencedor, a equipe foi uma forma de pensar futebol. Ficou famosa sua expressão que explicava como o time atacaria: "Pim, pam, pum". Era a onomatopeia para passe, passe e chute. De preferência de primeira. A famosa intensidade. Na Portuguesa Santista, ganhou os 15 jogos que fez em uma excursão pela África em 1959. O prêmio foi a famosa Fita Azul, dado pela antiga Confederação Brasileira de Desportos (CBD) para quem voltava invicto de partidas fora do continente.
Era absolutamente apaixonado por futebol. "Falar em futebol com esse elegante senhor é provocar uma conversa fascinante que se prolongará por horas perdidas: uma aula prática de técnica, tática, picardia e interpretação ora bufa, ora dramática", escreveu o repórter Carlos Maranhão, na Placar. Ele usou essas sentenças para acompanhar a declaração de Filpo Nuñez:
— O futebol como espetáculo está morrendo, porque nós, os técnicos, o estamos assassinando. A retranca, a preocupação de não tomar gol, a obsessão de não perder… Basta! O público está fugindo. Não há mais beleza. Todos regrediram.
Essa paixão pelo esporte passou para seu sobrinho. Eduardo Coudet contou, em sua primeira passagem pelo Inter, sua relação com Filpo Nuñez:
— Ele era muito alegre. Respeitava muito o futebol. Tinha um respeito enorme pela bola.
Últimos anos de vida
Apesar da enorme identificação com o Brasil, Filpo Nuñez teve um triste fim no país que adotou para viver. Seu último trabalho foi no time feminino do Palmeiras em 1997. Pouco depois do final, um incêndio destruiu sua casa e seus pertences. Sem esposa e filhos, morreu pobre morando dentro da sede do projeto social que comandava em Heliópolis, uma comunidade de São Paulo.
Quer receber as notícias mais importantes do Colorado? Clique aqui e se inscreva na newsletter do Inter.




